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Início do Ano Letivo: Mentoria por alunos, uma mudança de paradigma?

Mas aqui coloca-se outra questão a que provavelmente os alunos no seu ímpeto de altruísmo vão responder e muito bem – ajudar o próximo numa fase pandémica na qual todos precisam de apoio. Não fosse o facto e perdoem-me a linguagem, de serem mão de obra barata.

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Novo ano letivo se aproxima com múltiplas regras que se generalizam para o que é possível generalizar… ao que parece.

Alunos, professores, pais, não docentes vão ser colocados à prova num início de aulas tão turbulento como tantos outros. Com Covid-19 ou sem Covid-19 as crianças e jovens são os mesmos com a sua diversidade e necessidade de socialização e partilha com os colegas.

Mas atenção a socialização e partilha agora tem um distanciamento social, de um ou dois metros, não é o estipulado? Parece que sim de acordo com a portaria 71/2020 de 15 de março que no que concerne à distância entre pessoas se mantém. Ou seja, as salas deverão ter menos alunos, nos intervalos brinca-se à distância e no refeitório também não serão servidas as refeições em simultâneo. Mais ou menos isto. Perante isto deduzimos que foram contratados mais professores para desfasar as turmas e horários, arranjaram-se salas extra para que existam menos alunos por sala, enfim tanto trabalho para quê?

A verdade é que o risco é uma adrenalina que se gosta de sentir, alimenta-se como um vício, pelo que é importante arriscar gastar mais em cuidados de saúde, testes Covid-19, absentismo escolar e laboral do que contratar mais professores… mesmo que fosse mais rentável remar no mesmo sentido de entreajuda e melhoria da proteção dos alunos, docentes e não docentes… mas não haveria adrenalina. Adrenalina essa que será depois transportada para todos nós que pagaremos tudo o que nos for exigido. Bom mas há uma solução a mentoria: “o programa de mentoria deve desenvolver-se através da identificação de alunos que em cada escola se disponibilizam para apoiar os seus pares acompanhando-os, designadamente, no desenvolvimento das aprendizagens, no esclarecimento de dúvidas, na integração escolar, na preparação para os momentos de avaliação e em outras atividades conducentes à melhoria dos resultados escolares”, de acordo com a resolução do conselho de ministros nº53-D/2020 de 20 de julho.

Portanto, temos solução sem contratar mais professores. Trabalho de mentoria pelos próprios alunos… que se espera ser realizado de forma altruísta, em compaixão pelo próximo, tal como a decisão de não ser um docente a fazer o trabalho de mentoria. Esta é uma resolução fabulosa não fosse ela no contexto em que é. Tornar alunos capazes de ensinar é a melhor forma de aprender. Teria sido uma mais valia para a sociedade colocar alunos que têm capacidade mais desenvolvidas em determinadas áreas a ensinar outros, estimulando-os e estimulando o próprio. Mas nessa fase não era necessário. Pelo que não se permitiu solucionar questões como crianças que já entram para o primeiro ciclo a saber ler e escrever e que poderiam ser estimuladas ensinando os colegas. Verdade é que alguns professores o fazem pois entendem que facilmente estas crianças vão desmotivar.

Mas aqui coloca-se outra questão a que provavelmente os alunos no seu ímpeto de altruísmo vão responder e muito bem – ajudar o próximo numa fase pandémica na qual todos precisam de apoio. Não fosse o facto e perdoem-me a linguagem, de serem mão de obra barata.

Que grande “bofetada de luva branca” como se diz as nossas crianças e jovens darão a quem de direito, quando realizarem este trabalho de mentoria. Sim porque para se dar a outra face não se exige nada em troca. Mas pensemos um pouco: estes alunos que vão ter um trabalho acrescido ao ter que estudar para si e para os colegas serão beneficiados nas notas, será com autorização do encarregado de educação, terão eles os mesmos critérios de avaliação que os outros alunos ou terão critérios à parte? Quer uma decisão, quer outra será injusta para todas as partes. Mas não é isto que ensinamos às crianças? “O mundo é injusto”. Esta simples e tão complexa frase é carregada pelo inconsciente coletivo e transmite-se de geração em geração aceitando-se que “o mundo é injusto”.

Não, o mundo não tem que ser injusto e neste caso a justiça para todos seria um início de ano letivo com mentoria por professores e aí sim teríamos uma mudança de paradigma.

Vera Silva

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