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“(In)Disciplinas”

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indisciplinaPensando numa lógica de criar um fio condutor para os próximos textos e responder às questões mais comuns que me colocam no dia-a-dia na escola, faz-me sentido iniciar esta cadeia de textos com um breve enquadramento do grande bicho papão que é a indisciplina.

A indisciplina não é de todo um conceito recente e já todos certamente conhecem os escritos que remontam à época antes de Cristo e que referenciam a indisciplina como o maior problema dos adolescentes (ooops, são muitos anos de indisciplina).

Um aluno indisciplinado é o que apresenta um comportamento desviante de uma norma social, contudo a existência de problemas disciplinares depende, até certo ponto, da definição de boa disciplina e consequentemente dos valores do professor. O que para um professor constitui um problema, pode constituir para o outro uma irritação e para outro ainda, apenas uma manifestação exuberante de bom humor por parte dos alunos.

Por norma os comportamentos de indisciplina têm como objetivo a chamada de atenção, a luta de poder, a vingança por se sentir desprezado e/ou magoado pelos outros, poderá também ter subjacente uma incapacidade assumida e motivada pela baixa autoestima, entre outros.

Importa então enumerar algumas necessidades básicas a considerar na gestão de comportamentos indisciplinados:

  • Necessidade de uma conduta coordenada junto de todos os professores
  • Necessidade de uma conduta coordenada junto de todos os professores e assistentes operacionais;
  • Necessidade de quando existe uma regra para aplicar, fazer-se um esforço para a aplicar, mesmo que não se concorde – não se deve criar resistências à sua aplicação;
  • Necessidade de articulação adequada entre os elementos da comunidade escolar de forma a carga que recai sobre quem exerce diariamente a sua atividade na escola seja reduzida e a gestão dos comportamentos flua naturalmente;
  • Necessidade de treinar opções de resposta para um leque diferente de situações, de forma a evitar entrar em jogos de poder ou ser encarado como incapaz;
  • Necessidade de equilibrar o social “porreirismo” e a exigência do contexto da sala de aula.

Analisando estes pontos de modo mais detalhado, percebe-se o quão importante é que os professores assumam a supervisão e o controlo nas diferentes áreas e espaços da escola e não apenas na sala de aula, para que os alunos não sintam que há professores a passarem por eles enquanto têm comportamentos desadequados sem fazerem qualquer reparo, pois naturalmente isso reforça esses mesmos comportamentos. Por exemplo, quando passam pela algazarra que se gera enquanto esperam pelo professor à porta da sala, quando há alunos que correm dentro dos blocos e andam pelos corredores a jogar a bola, etc. Claro que o assistente operacional também tem as mesmas funções mas a ação consertada terá um maior impacto, eficácia e funcionalidade.

A disparidade de critérios para classificar um determinado comportamento (um regulamento interno nem sempre é suficiente para uniformizar os critérios) e a falta de consenso entre os professores relativamente a um conjunto de regras, abre precedentes para que se ouça “não é justo aplicar esse castigo porque o stôr Arnaldo não aplica nenhuma consequência quando faço o mesmo” . Também o manter muitos problemas de indisciplina por resolver, na lógica da ideia de conduta por conformidade, potencia a indisciplina. Por exemplo: um professor acha que a escola onde foi recentemente colocado apresenta muitos problemas de indisciplina e então resolve, numa reunião, mencionar isso e colocar à consideração a discussão sobre formas de intervir para minorar o problema. Face a esta proposta, o resto do grupo, composto por professores que já estão na escola há mais tempo, começam a dizer que já no passado se tentou mas que é impossível alterar o problema e ninguém parece interessado em ponderar a sugestão do professor novo. Claro que este professor vais resignar-se à ideia de que nada há a fazer e irá adotar uma postura de conformismo para com a opinião dos restantes docentes.

Também ouço frequentemente discursos de professores desanimados que se dizem sentir incapazes de lidar com comportamentos indisciplinados. Esta falta de autoconfiança leva a que em situações mais ansiogénicas a ação deles se fundamente segundo dois tipos de resposta (que fazem parte da natureza humana), nomeadamente, ou enfrentam a situação (numa lógica de ataque), ou retiram-se da situação (numa ótica de fuga). Sendo que normalmente a opção mais fácil parece ser a da fuga, acaba por ser mais frequente e leva ao desprezo do comportamento, dando início ao processo de “perda da turma”. O professor também não pode ter medo de ser rejeitado pela turma. Faz parte da natureza humana sentir necessidade de ser aceite pelos outros e naturalmente os professores também gostam de sentir que são valorizados. Contudo, nesta necessidade podem surgir momentos em que o professor numa ambição de evitar a rejeição por parte da turma, ignore determinados comportamentos e leve mais uma vez a precedentes que potenciam comportamentos indisciplinados.

Em suma, não adianta entrar em classificações e na procura incessante de culpados pela indisciplina. As dimensões referidas neste texto são fatores promotores de indisciplina, contudo nada é vinculativo ou de cariz de diagnóstico. Encare-se como alertas.

Todos os comportamentos são viáveis. Não existem comportamentos certos ou errados, mas sim comportamentos adequados e desadequados, mais ou menos adaptativos em determinados contextos e em determinadas situações. A indisciplina faz parte da vida escolar, o comportamento de desobediência e de confronto com a autoridade do adulto pode, em certos casos, até ser bastante saudável quando o enquadramos na adolescência, pois nestas faixas etárias poderá ter como função, a ajuda a ensaiar a tomada de decisões, o desenvolvimento de opiniões pessoais, a definição de uma identidade e até mesmo o desenvolvimento da autonomia pessoal.

O complicado não é os comportamentos indisciplinados existirem, mas sim não serem encarados, trabalhados e resolvidos de modo a promoverem uma aprendizagem de crescimento e desenvolvimento da responsabilização e de uma autonomia ponderada.

Sugiro que ouçam e leiam as palavras de Inger Enkvist que descreve como é a educação na Finlândia (tema já debatido neste blog) mas que nos deve fazer refletir nas nossas práticas e na representação que a nossa sociedade faz do papel do professor (estando talvez parte da solução nessa representação).

http://cadenaser.com/programa/2016/11/15/la_ventana/1479229219_699520.html

Boa Semana.


Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
cultura-de-convivencia

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