Início Rubricas Indisciplina(s)

Indisciplina(s)

135
3

aluno dormirO calor gostoso de fim de Verão inunda o gabinete. Os estores semi-corridos lançam no espaço pequeninos rectângulos de sol que brincam nos objectos da sala. O rapaz está sentado à frente da secretária, se é que se pode chamar “sentar” ao despropósito da figura. Recostou-se displicentemente na cadeira, o traseiro mesmo à beirinha, as costas curvadas como quem se esparrama num sofá imaginário, os braços puxados atrás repousam nas costas da cadeira. De vez em quando, a mão de unhas roídas ajeita distraidamente as madeixas, acamando-as para o mesmo lado e forçando o penteado da moda, como o telhado de colmo de uma palhota.

Olha com descaso e insolência o adulto à sua frente. O interlocutor apercebe-se do seu enfado e interrompe o fio da conversa para lhe perguntar: “não estou a incomodar-te com as minhas palavras, não?”

O rapaz cerra os lábios e levanta as sobrancelhas com impaciência. Depois responde aos solavancos, como se o próprio acto de falar o cansasse terrivelmente: “quer dizer, setor, tipo, eu acho que não é caso para fazer uma escandaleira dessas, quer dizer…”

“Ah, ok. Então deixa-me lá aqui fazer um apanhado da situação: ora bem, estamos na primeira semana de aulas e tu já tens três participações disciplinares. Hoje faltaste às duas primeiras aulas. Entretanto, quando chegaste à escola, com um atraso de quase três horas, envolveste-te numa briga com um outro aluno, agrediste-o violentamente, atiraste-o contra uma viatura estacionada lá fora, causaste danos na porta do automóvel e partiste o espelho do mesmo. É isto, não é?

O rapaz mexe-se na cadeira, com ar incomodado. “Iá. E então?”

O olhar de indignada reprovação do seu interlocutor não atenua a petulância do tom: “ok, ok, não tou a ver que seja uma cena tipo assim tão grave; tipo o brother fixolas, na dele, bora lá acabar com o drama, boa?”

“Bem, vou então ligar para o teu encarregado de educação, para ver se ele é da tua opinião. Vamos lá ver o que ele acha de ter de pagar pelos estragos que fizeste.”

O rapaz move a cabeça rapidamente para o lado, para ajeitar a melena da franja. Sorri com o canto da boca, num esgar carregado de sarcasmo e confiança. “Olhe, boa sorte aí. O meu pai anda a trabalhar no longo curso, por esta altura anda pelas Américas, só deve regressar lá para o fim do mês. A mãe anda a fazer turnos duplos no hospital, já não a vejo desde o fim-de-semana. Ligue, vá! Ligue à vontade!” – e estende-lhe o iphone com um gesto de irónica generosidade. “ Tá-se bem. Ela tem sempre o telefone desligado: ou está a trabalhar, ou está a dormir – e toma lá umas mer… cenas para conseguir adormecer, senão fica toda marada. Bem pode tar aí o dia todo… você é que sabe.” Fita o professor com um olhar directo, atrevido, a saborear a força da sua posição vantajosa.

Estar ali, naquele gabinete, ao fim da tarde, a sentir o escrutínio e a reprovação de alguém a quem não reconhece legitimidade enche-o de um imenso enfado e impele-o a resolver o assunto de uma vez por todas: “Olhe, isto agora a sério, os meus pais têm uma vida muito ocupada, não curtem ser incomodados com estas coisas, de maneira que fazemos assim: você diz-me quanto é a despesa do carro e eu trago-lhe o dinheiro e não se fala mais nisso. Pode ser? Ficamos assim? Eu cá acho melhor. Que se lixem os duzentos ou trezentos euros, são menos uns shots na discoteca ao fim de semana, não é? E ao menos não chateio os cotas e ficamos todos contentes, é ou não é?”

MC

Professora e autora do blogue Estendal

COMPARTILHE

3 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here