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“Indisciplinai-vos”

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Assisti recentemente a uma conferência onde foi abordado, entre vários temas, a indisciplina. Este continua (e continuará) a ser um tema tão atual quanto debatido e comentado.

MariaAo longo do discurso várias estratégias foram enumeradas. Estratégias a ter em conta na sala de aula, com os alunos, na estrutura da sala e na atitude dos professores. A literatura de facto inunda-nos com várias ideias, outra (literatura) atira culpas a pais, alunos, professores, à modernidade, aos telemóveis, a uma panóplia de bodes expiatórios.

Um professor da faculdade disse-me uma vez: “A indisciplina é o maior promotor de criatividade do professor.” Há uma parte da ideia com a qual concordo que não tem nada a ver com ir ao sabor somente dos interesses dos alunos, mas mais profundo do que isso: “Ler” os alunos que temos.

Confabulamos inúmeras vezes sobre os alunos que gostaríamos de ter. Descrevemos as atitudes desejadas, as respostas adequadas, o comportamento correto, aquele que consideramos desejável. A realidade é aquilo sobre o qual devemos agir e a realidade quase nunca são os alunos que gostaríamos de ter, mas sim os alunos que temos. Sem qualquer tipo de pretensão, muitas destas estratégias que lemos, têm o seu valor, mas sozinhas não resultam.

Não sou apologista de floreados e de ir à mercê de todos os interesses dos alunos em prol da recompensa de obter um comportamento adequado (O quão relativo pode ser isto..) Os “rebuçados” podem resultar num determinado contexto e num determinado período de tempo, nem que seja para chamar a atenção, mas é necessário muito mais para sustentar o equilíbrio funcional.

Na generalidade reconhecemos que a indisciplina é um conceito absolutamente relativo (até aqui nada de novo). Depende sempre do limite de cada um e do nosso entendimento da situação. É por isso que é muito mais sensato e real falar em “equilíbrios funcionais” do que numa turma “disciplinada”. No meu entender atinge-se um equilíbrio quando passado o tempo de testar os limites nem professor, nem alunos desistiram e onde finalmente foi criada uma cumplicidade que permite a estabilidade. Já tive oportunidade em escrever noutro artigos que: É óbvio que não conseguimos chegar a todos e penso que é importante ter essa consciência. Não podemos no entanto não tentar.

Estratégias à parte, existem, no meu entender, três condições absolutamente fundamentais (e arrisco-me a dizer: as únicas importantes): Relação empática; Honestidade; Respeito.

Não podemos exigir um determinado comportamento sem estabelecer uma relação de empatia com o grupo. Esta empatia tem de ser baseada no respeito e honestidade. Respeito para estabelecer limites (num jogo que inicialmente é no medir forças e encontrar equilíbrios). Honestidade porque a nossa atitude é constantemente observada e sentida pelos alunos. Quando não sinceras são facilmente lidas com inseguranças e falsas. O professor/ líder, deve ser aquele que mostra exatamente o que quer, sem vacilar e trace os limites. Mas também aquele que não desiste e que está lá quando é preciso. Isto é criar uma relação empática onde o caminho é feito a dois, professor – aluno, sempre assente numa premissa de respeito e envolvimento mútuo mas nunca de condescendência.

Há crianças e jovens com os quais é muito mais difícil estabelecer uma relação. Há qualquer coisa na sua atitude, forma de ser que mexe connosco e cria distâncias. É importante percebemos que esta situação é inteiramente intrínseca. Cruzam-se com os nossos limites e a nossa formação e por vezes é preciso um trabalho pessoal para encontrar uma estabilidade.

É comum ouvir nas escolas alguns profissionais verbalizarem “Não posso perder tempo com isto”, porque há tempo que falta para as folhas Excel, metas, conteúdos, fichas, trabalho administrativo e os alunos recusam cooperar com este investimento administrativo do professor boicotando as aulas. A verdade é que “só perdendo” tempo (ganhando) é que se consegue estabelecer a base da relação necessária. Perder 5 minutos do dia a falar com aquele aluno que destabilizou a aula, não para o repreender (disso está ele farto) mas para lhe perguntar. “O que se passa?” terá a leitura de: “Eu quero saber de ti. Eu importo-me”.

Comecei o meu percurso profissional num espaço que privilegia o aluno em detrimento do currículo, que privilegia a relação em detrimento dos conteúdos, porque acredita que só uma criança organizada e com sistema de auto regulação é que consegue aprender. E é com base neste sistema que deveremos agir. Exigir o tempo que nos é retirado ao essencial.

E por isso repito: Indisciplinai-vos.

Maria Joana Almeida

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