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Indisciplina, um exclusivo para professoras?

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símbolo-fêmea-4253922Ultimamente tenho lido uns artigos que associam a indisciplina escolar a casos de violência contra as mulheres.

Até compreendo que a tentação para fazer essa associação seja grande, pois a docência é composta predominantemente por mulheres e muitos alunos observam em casa comportamentos em que o pai é o chefe da família e a mãe ocupa um papel subalterno. Em alguns casos, os alunos chegam mesmo a assistir a situações de violência física e psicológica para com as suas mães e, como todos nós sabemos, as crianças têm a tendência para copiar os comportamentos dos adultos.

Porém, extrapolar essa realidade para a sala de aula representa uma visão simplista e redutora. Até concedo que alguns alunos possam ter dificuldades em dissociar esses contextos, mas mesmo esses vão-se deparar com variáveis que não encontram em casa, sendo a principal a própria professora.

Enquanto professor, há já 13 anos, lecionei em diferentes escolas e convivi com dezenas de colegas. Atualmente pertenço a um gabinete disciplinar e pela experiência acumulada, afirmo que essa associação não é real. Aliás, considero-a mesmo ofensiva e discriminatória para com as minhas colegas de profissão.

Nas turmas mais complicadas do meu agrupamento, os diretores de turma são mulheres e não é por causa disso que apresentam mais ou menos problemas disciplinares. Acrescento até que muitas colegas minhas, são até mais hábeis em gerir situações disciplinares do que alguns colegas com quem trabalhei no passado.

Temos que perceber que a sociedade mudou e vai continuar a mudar e já lá vai o tempo em que a “instituição” professor(a) bastava para impor a disciplina na sala de aula. Hoje em dia não basta ser professor, professora, diretor de turma, diretor, pai, mãe, avô ou avó para garantir isenção disciplinar.

Vivemos uma crise de valores e, muitas vezes, a pirâmide disciplinar está invertida. Quantos de nós não têm conhecimento de pais e educadores que são subjugados por menores? Quantos de nós não ouviram a expressão “já não sei o que lhe hei-de fazer…”? Ao lidarmos com crianças e jovens temos de conquistar o seu respeito, apresentando uma conduta coerente, objetiva e imparcial, pautando-a pelo exemplo. Alguns dirão que isso é tudo “blá blá blá” e que a ditadura de outrora, onde o grito, a agressão e o medo que imperavam eram a resposta para todo o mal.  Talvez essa repressão tenha levado ao extremo da desresponsabilização? Talvez… Mas essa forma de estar não reflete a sociedade atual, e a politica do “quero, posso e mando” só resulta até certa idade.

A mulher tem cada vez mais um papel relevante na nossa sociedade, apesar de continuarem a existir algumas forças de bloqueio, comprovadas por exemplo pela disparidade salarial. Será apenas uma questão de tempo para que se assista à afirmação da mulher em todas as áreas da sociedade. Na escola, essa afirmação há muito que foi feita e a descriminação sexual é algo que não existe. Justificar problemas disciplinares com o género sexual, mostra que alguns ainda estão presos ao passado, deixando-se levar pelos fantasmas de outrora, provando que desconhecem a realidade escolar.

Pais, professores e educadores lidam diariamente com situações de indisciplina e a sua capacidade para prevenir/resolver está relacionada com as competências pessoais e profissionais e não com o cromossoma X ou Y.

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