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Indisciplina Paralela

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O conceito de economia paralela pode ser definido como o conjunto de atividades económicas que, embora realizadas no território nacional, não se refletem no produto do respetivo país, não tem qualquer correspondência na contabilidade nacional e não entra na quantificação do PIB.

Temos, pois, que uma parte muito significativa da produção realizada em território nacional, quer seja ilegal, oculta, informal ou para uso próprio, tem profundas implicações negativas no grau de eficiência da atividade económica global.

Celeste Cardona, 19 janeiro 2012

Não, não vamos falar de economia, deixo isso para os entendidos(?). No entanto, o conceito de economia paralela e suas consequências podem ser transferidas diretamente para o meio judicial e consequentemente escolar.

No passado fim de semana, em conversa com um agente da PSP, foi-me transmitido que uma das maiores dificuldades no combate à criminalidade é a síndrome do “acagaçamento”. A expressão é minha e não é das mais bonitas, mas é direta e de fácil interpretação. A apresentação de uma queixa formal é determinante, mas muitos “falam, falam, falam, falam, mas não os vejo a fazer nada…” como dizia o outro.

Nas escolas, as questões disciplinares apresentam padrões semelhantes, pois com maior ou menor regularidade existem omissões e esquecimentos, muitos deles de cariz intencional. Não é uma crítica, é uma constatação…

cabeça areiaQuem está de fora pode ter algumas dificuldades em compreender os motivos que levam professores e assistentes operacionais a optar pelo silêncio. Podem questionar a finalidade desta tomada de posição e podem mesmo questionar o seu profissionalismo e competência, pondo em causa não só a reputação do professor mas também a da própria escola.

Os professores são profissionais que lidam com crianças há muitos anos e têm no seu currículo, formação superior e inerente especialização. Mas o dia-a-dia escolar, fértil em acontecimentos e peripécias, levam muitas vezes os mais bem preparados cientificamente a tornarem-se cidadãos “banais”, reagindo por impulsos, tentando “sobreviver” a mais um dia de trabalho.

Já afirmei que existe uma falha gritante na formação dos professores, pois muitos de nós não estamos preparados para gerir conflitos. Reconhecer esta falha, é reconhecer que podemos melhorar e o futuro só pode ser melhor se aperfeiçoarmos as nossas técnicas mediadoras. Não é um defeito, não é uma crítica, é uma carência…

Então quais são as causas que levam ao aparecimento da “indisciplina paralela”?

Vergonha

A imagem é a nossa montra e é ela que influencia os nossos relacionamentos. Denunciarmos que estamos com problemas pode, em alguns casos, estimular receios, que nos levam a omitir situações que normalmente não omitiríamos. A vergonha de ser julgado/criticado é por vezes tão grande que leva os próprios a “aguentar” com tudo, assumindo e sofrendo as consequências do que se passa na sala de aula.

Indiferença

Existem também aqueles que simplesmente não querem saber. A frustração profissional, a descrença na justiça escolar, a impotência perante a adversidade, ou simplesmente o alheamento profissional, originam uma letargia que aos olhos dos outros não é aceitável. Não é a primeira vez que assisto a colegas e/ou assistentes operacionais a “fecharem” os olhos, fingindo estarem distraídos. A indisciplina/educação não se coaduna com fingimentos e é pelas pequenas coisas que vamos mudar muita coisa.

Independência

Há também quem não goste de prestar contas, considerando que aquilo que se passa na sua aula, só a eles diz respeito. São eles que têm de resolver as situações e ninguém tem que saber ou meter o “bedelho”.

Arrependimento

Existem momentos em que os envolvidos têm tudo pronto: já fizeram a participação disciplinar e falaram com o diretor de turma ou gabinete disciplinar, mas no último instante mudam de ideias, achando que se calhar deveriam ter optado por uma estratégia diferente ou querem dar nova oportunidade ao aluno.

Medo

De represálias… De serem envolvidos em situações complicadas, que podem até sair do âmbito escolar. Situações que podem prejudicar não só o próprio mas também os seus familiares. As agressões, as ameaças e os danos materiais não são casos assim tão raros. Alguns (muitos?) de nós já experienciaram essa situação ou conhecem alguém que passou por isso. Por isso o medo existe e é um sentimento muito poderoso…

Preguiça/excesso de trabalho

Papéis, papéis e mais papéis. A nossa profissão está mergulhada em papéis. Por isso, não é a primeira vez nem será a última, que as ocorrências disciplinares não são comunicadas porque quem de direito devido à sobrecarga laboral. Porém, há também aqueles que se deixam dominar pela “amiga” preguiça, empurrando as obrigações para mais tarde até caírem em esquecimento…

Desconhecimento

Também há quem não saiba que tem de comunicar ao diretor de turma/gabinete disciplinar as ocorrências disciplinares. São casos raros, felizmente, mas apesar de ser de senso comum, algumas escolas têm procedimentos próprios que por vezes são desconhecidos para quem chega de novo. Parte de bem receber é explicar os procedimentos a adotar, a fim de evitar mal entendidos.

Mediação

A mediação ocorre quando os professores/assistentes operacionais optam por dar uma segunda (ou terceira, ou mesmo quarta) oportunidade ao aluno. Estas situações são frequentes, principalmente quando um aluno vem de um meio em que a punição é a única linguagem utilizada, ou quando pede desculpa pelo sucedido. O objetivo é conquistar o aluno, dando-lhe o benefício da dúvida. No entanto esta estratégia pode originar sentimentos de impunidade com consequências futuras mais gravosas. Saber “temperar” bem o aluno é meio caminho andado para o recuperar.

Como peças de dominó, estes “estados de alma” não terminam neles próprios, afetam toda uma arquitetura processual e educativa. Surgem os danos colaterais, afetando o trabalho de terceiros. Somos atores da mesma peça por isso é importante conhecer as “deixas” para que os outros participantes possam entrar em cena para fazer o seu trabalho. Se viverem na ignorância, não poderão tomar as medidas necessárias à prevenção/resolução de conflitos. Diretores, diretores de turma, gabinetes disciplinares, serviços de psicologia, tutores e encarregados de educação, precisam de possuir todas as informações disponíveis, a fim de implementarem as estratégias mais ajustadas a cada situação. Imaginem o que é um aluno ter tido ordem de saída de sala de aula por três vezes na mesma semana, ou no mesmo dia e estas ocorrências não serem comunicadas. Pode até acontecer que esse mesmo aluno esteja a ser acompanhado de perto pelo diretor de turma e ocorrer o cumulo de ser elogiado por desconhecimento das suas ações. Causará no aluno uma falsa sensação de orgulho, além de passarmos a imagem de um total amadorismo.

Outra consequência são as clivagens que podem surgir. Ex: “Professor(a), o Zé na aula passada fez a mesma coisa e não lhe aconteceu nada…”. Esta frase não surge esporadicamente mas costuma estar descontextualizada e é feita de forma injusta. Se existirem ocorrências que não são comunicadas surge o tratamento privilegiado e discriminatório, originando um sentimento de parcialidade, com consequente perda de autoridade.

Não sou um puritano nem pretendo ser um moralista. Confesso que eu também já omiti, principalmente com o intuito de mediar/conquistar o aluno. No entanto, uma coisa é fazer disso um ato isolado, outra coisa é nortear a nossa conduta pela omissão. Este artigo visa alertar para um problema que apesar de não ser generalizado existe e enquanto profissionais devemos refletir sobre o nosso desempenho a fim de o melhorarmos.

A escola é constituída por indivíduos que formam uma coletividade. Os seus problemas nascem individualmente mas, inevitavelmente, tornam-se coletivos. Para superarmos a adversidade o conjunto tem de prevalecer às idiossincrasias do individuo.

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