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Indisciplina nas aulas à distância: vale a pena complicar? (I – Um testemunho pessoal)

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Anda por aí uma grande algazarra à volta das medidas para que a indisciplina não tome de assalto as aulas à distância.

À distância, a indisciplina já melhorou e sempre será melhor. Ninguém pode bater em ninguém.

Um ângulo pessoal

Tomo grandes sustos quando alguém acha que as medidas da sua prática têm de vir de outros.

A prática de cada um tem um valor normativo próprio. Se a nossa prática funcionar….

O artigo 10º do Código Civil (Integração das lacunas da lei) é um bom guia ético (e é uma norma jurídica) para as situações em que se fica na zona cinzenta das normas, em que elas parecem faltar. Recomendo uma leitura atenta da norma aos Senhores Diretores, que não a tenham ido rever nesta ocasião. São uns minutos bem aproveitados para utilidade das comunidades educativas (como agora se caiu em dizer….).

Diz no nº 3: quando não há norma para aplicar, mesmo por analogia, “a situação é resolvida segundo a norma que o próprio intérprete criaria, se houvesse de legislar dentro do espírito do sistema.”

Isto tem um lado muito “à Kant” e quem anda a escrever normas, mais ou menos a eito, para lacunas inexistentes, devia absorver o ensinamento de interpretação que sublinhei.

Ando, por estes dias, na minha prática letiva, otimista e bem disposto, entre outras coisas, porque, depois de 20 dias doente (não covid!!!), estou bem aliviado por já não estar. Dar aulas tem sido um dos balsamos da minha vida, isolado em casa.

Não tenho tido problemas de indisciplina. Podia estar aqui a lamentar-me, e alinhar com alguns cantos soturnos, mas seria falso.

E não quero dar lições a ninguém. Não sei nada disto. Quero só dizer, com este testemunho, aos que estejam a ter problemas: esperança e otimismo. Estamos a começar.

Regras, regras, regras, na ação individual

Sou professor de História do 2º ciclo e os meus alunos são crianças, de uma escola sem problemas de indisciplina. Damo-nos, em geral, bem, presencialmente, e acho que estavam com saudades da escola.

Eles acabam por apreciar o “mau feitio”, que cultivo, com algumas peculiaridades, e que, ao conhecerem-me, entendem bem nas suas subtilezas.

Faço o maior esforço para ser justo, mas nem quero fama de “porreirinho” e “não sou para brincadeiras”. Mas eles percebem bem as nuances. Ralho ao 1º desvio e a minha velha voz radiofónica, mesmo cansada, lá faz o efeito bastante, para ralhetes bem rendilhados.

Mas, justiça seja feita, os meus miúdos têm-se portado muito bem, colaborado e sido cumpridores. Acho mesmo que tinham saudades de aulas (mesmo em sucedâneo) e de falar com professores. Esse capital vale muito. E já levaram os elogios devidos. A modinho para não estragar.

Mas, com todo o respeito por eles, nunca conto que corra bem.

Como diria a minha avó, quem vai para o mar, avia-se em terra.

Nas minhas aulas, sou organizador (isto é, controlo as configurações das sessões) e controlo e monitorizo microfones e chat. Ao mínimo desvio, haverá a reação que a ferramenta permite: Cortar micros e limitar ação no chat.

É preciso é usar bem a ferramenta e ter boa ferramenta. Ninguém faz furos numa parede… com alicates….

E, como em todas as aulas, a definição de regras inicial (clara e rigorosa) é essencial para até me estar a ser agradável fazer este trabalho à distância.

As minhas regras pessoais não estão escritas e são flexíveis para ser relaxadas, se o comportamento correr bem, e ser agravadas, se correr mal. E estão sempre a ser lembradas, em repetição exaustiva. E não quero saber do que se passa na aula ao lado. Presencialmente também não quero.

E basicamente são estas.

(Nota: Na minha escola usa-se o Teams da Microsoft…não sei como seria noutras plataformas e eu percebo da tecnologia o básico que faz falta a um utilizador mediano)

1. Microfones e Câmaras dos alunos desligados.
2. Eu tenho a minha câmara ligada e o microfone também (por razões de pessoalização). Tentar gravar (sem autorização) dá direito a invetivas infernais.
3. Quem quer falar, usa um sinal convencional no chat (no meu caso, um F, que é como por um braço no ar). O chat é a forma de falarem comigo e excesso de mensagens dá ralhete.
4. Quem liga o micro para falar é porque eu disse para o fazer e a primeira coisa que diz é o nome para identificar.
5. Regularmente, ao longo da aula, dou 2/3 minutos para dúvidas e questões no chat (avanço devagar em explicações) e dou a palavra para questionarem (mas o processo de os alunos falarem é muito controlado). Mas já deu para fazer debates.
6. No fim da aula, dou tempo para dúvidas e faço uma ronda sequencial pelos alunos. Não dá para muito, mas o que se faz é bem aproveitado.
7. Atividades (tarefas), sempre na parte da plataforma a isso destinada (e, por isso, acho que dar computadores a todos devia ser prioridade já do Governo e evitava essas trapalhadas dos voluntários que vão a casa e do correio ou coisas mais abstrusas, como fazer fotos de trabalhos escritos à mão, etc).

8. Evito fazer coisas que nos testes se viu que corriam mal (certas ligações e links que paralisam a partilha de écran). Se quero que vejam um vídeo, não fico à espera de arrecuas: levam o link e veem, antes ou depois, ao seu ritmo, e falamos na aula.

Quem foge às minhas regras e põe emojis parvos no chat, por exemplo, sofre as consequências. As que eu consigo aplicar. Nunca desliguei micros (se não, para mostrar que o posso fazer, e nunca expulsei ninguém da aula, mas, saber-se que o posso fazer, é dissuasor).

Não consigo controlar o que os alunos têm em cima da mesa, nem se estão a falar por telemóvel com o micro desligado. Ou se estão a comer bolachas. Fui profissional de rádio e essa sensação de que não sei o que os ouvintes estão a fazer não me é estranha, nem me angustia muito. Não tenho a ambição de controlar o que não é possível.

E o tempo em que os ponho a falar individualmente, mas na sua vez, compensa a sensação, dando indícios que me levam a não me queixar de que andem mais desatentos ou desinteressados.

E respeito qualquer opinião contrária, mas esta é a minha do dia-a-dia que tenho vivido. E, para os comentadores simpáticos do costume, não é recado encomendado…

Não falo aqui dos problemas criminais de gente de fora que entra nas plataformas, etc…. Isso não são problemas pedagógicos. São assuntos criminais.

PS: Mais que a indisciplina, está a preocupar-me a quantidade de trabalhos copiados de sites, a falta de capacidade de usar ferramentas informáticas simples pelos alunos e a sensação de que muitos pais estudam e trabalham mais que os alunos. A conversa vai longa e havemos de falar mais desse assunto.

11 COMMENTS

  1. O autor do texto é o maior…
    É assim há sempre profs excelentes!

    É só líricos.
    1 não sabe que pode ser gravado sem ele saber, depois estar a comparar alunos do 2 ciclo com 3 ciclo e secundário é o mesmo que comparar erda com caramelo.

    Acorda pá … Vives na tua bolha.

    • Para o Julio…. O texto é muito claro ao falar dos limites da experiência individual. Ser gravado sem saber posso em qualquer circunstância da minha vida. Até numa aula presencial (e uma gravação áudio de um gravador numa mochila já foi admitida em tribunal). Trabalhei numa escola TEIP 7 anos e imagino o que os colegas dessas escolas estão a sofrer (ou, talvez não tanto, porque muitos alunos estudar em casa nem devem aparecer ou ter recursos para computadores). E quanto a viver numa bolha, antes ser acusado disso por quem não leu bem o texto do que aparentar ter uma no lugar do pensamento a comentar de forma malcriada textos de outros.
      E quanto a ser o maior, apenas por uma razão singela, é capaz de ter acertado sem saber ….chamo-me Luís SottoMAIOR Braga. Sou maior de nome…E esta, hein? Quando acabar o confinamento sugiro uma visita à terra galega do meu nome. Sítio bonito…e calmante.

  2. Apenas um breve comentário,

    Se a foto aqui partilhada com o texto é sua, apenas diria uma coisa…Estar em ensino à distancia não significa estar à vontadinha. À vontade sim, à vontadinha já não será a mesma coisa.
    Nada a dizer em relação ao texto, cada um saberá contar a sua experiência de ensino, durante esta pandemia, melhor do que ninguém. Já as aulas síncronas sentado na cama?! Não me parece, sinceramente, o melhor exemplo para ninguém. O exemplo tem que vir de cima e abre a porta a más interpretações. Quem te avisa, teu amigo é.

      • Mesmo assim, digamos que haveria imensas outras fotos para elucidar um momento de ensino à distância, já que é disso que neste texto se fala. Esta foto estará mais relacionada com uma reunião de amigos. Ou seja, imagem e texto deviam ter uma contextualização, tudo deveria estar interligado. Por um lado, fico mais descansado. Se é moçoila ou não, não me dei a esse trabalho. Mas é apenas um pormenor de comunicação.

  3. Caro Luís Braga, até o historial de rádio temos em comum.
    As minhas aulas têm corrido igualmente bem, e com alunos e 3º ciclo. Não há indisciplina, há microfones desligados quando alguém se estica, há controlo de entradas, saídas e chats. Há tempo para tirar dúvidas, há partilhas de ecrã quando necessário, e há trabalhos enviados por fotografia por quem ainda não tem condições para o fazer de outra forma.
    As minhas regras também são assim, flexíveis para alargar e para apertar… e funcionam.

  4. Não uso fitinhas verdes nos pulsos…. Ainda se fossem vermelhas…. E não leu bem o texto…. Eu disse expressamente que os alunos comigo têm todos as câmaras desligadas…. Ali estão todas ligadas. E, portanto, se tivesse abertura de espírito até podia interpretar como sendo o que não se faz….A imagem é de um banco de imagens. Realmente acha que os alunos não fazem isso? E se fizerem? saber se estão de pernas cruzadas em cima do colchão é mesmo a questão mais importante.
    Eu julguei que era se aprendem….

    • Caro anónimo,

      O processo educativo não tem só a ver com a aquisição de conhecimentos, digo eu que não percebo nada disto! Existem outros domínios que devem ser desenvolvidos. Um aluno que possa estar deitado numa cama ou sofá, reflete a sua atitude perante a aula e o professor. Estamos a falar de linguagem corporal. Se assim for, será de certeza um aluno pouco disponível para aprender. Essa postura será mais indicada para ver um filme ou estar na cavaqueira com os amigos no “fackbook”. Não lhe parece?! Sou da opinião que ao passarmos para o ensino à distância o saber ser/estar não se alteraram, ou não se deviam alterar, digo eu, que não percebo nada disto!
      Pergunto: os alunos na sua sala estão sentados em cima da mesa de pernas cruzadas?! Aprendem melhor? Se assim for…

      • «Estudo em casa», logo o aluno estuda onde quer; o professor não tem de saber onde o aluno estuda! O aluno pode estar na casa de banho sem que o professor saiba! O essencial no texto do Prof. Luís Braga é o seu modo de estar/ensinar e de ser/ensinar na sala de aula; na minha opinião, deveria ser essa a questão chave do debate, o resto , no contexto – repito no contexto- é acessório.

  5. Estou aposentado há alguns anos, contudo revejo-me no texto do Luís Braga. Há quem nasça com o destino marcado: ser professor. Abraço alentejano, apesar de não o conhecer pessoalmente

  6. Luís, não o conheço pessoalmente, mas concordo plenamente sendo essa também a minha forma de encarar este ensino à distância.
    Neste, com noutros assuntos, estou com o colega. Vivemos uma época de subserviência pior que antes da suposta “Liberdade” critica e de pensamento autónomo…

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