Home Rubricas Indisciplina na Escola – Uma Abordagem Parcelar e Politicamente Incorreta

Indisciplina na Escola – Uma Abordagem Parcelar e Politicamente Incorreta

179
2

OpiniãoE ao fim de 15 meses de ComRegras, recebo o 1º artigo sem o pedir, 15 meses… Espero que seja o início de uma nova fase, uma fase em que professores, pais, assistentes operacionais e quiçá alunos, queiram falar publicamente sobre o que lhes vai na alma. Vou dizer isto até ao último dia do ComRegras, ou da minha participação nele. Este espaço é vosso e a sua riqueza são as diferentes opiniões/visões sobre a (in)disciplina e a educação em geral.

Tem a palavra Agnelo Figueiredo, um pouco em complemento (digo eu) ao artigo do Bravio Indisciplina – O contributo do Ministério da Educação.

Indisciplina na Escola – Uma Abordagem Parcelar e Politicamente Incorreta

Tem-se dito que o aumento da indisciplina na escola está ligado aos mandatos dos últimos ministros da educação, Maria de Lurdes e Nuno Crato. Trata-se, todavia, de uma conclusão simplista para um problema com origem remota e progressão insidiosa.

Para nos situarmos na raiz do problema, temos de voltar aos tempos que se seguiram à Revolução de Abril de 1974, quando as forças “progressistas” ocuparam todos os lugares de decisão da administração e da comunicação social e encetaram um processo de ataque sistemático a todos os símbolos de poder e de autoridade; até cantar o hino nacional era visto como “reaccionário”; a única autoridade legítima era, então, a autoridade popular revolucionária, protagonizada pelas “vanguardas esclarecidas”.

Os setores mais atingidos foram o das forças de segurança e o dos professores, já que, nem uns nem outros, podem desempenhar cabalmente as suas funções sem que lhes seja reconhecida autoridade. O caso dos professores assumiu especial visibilidade social com a sucessão de saneamentos de docentes. Eu próprio, na altura estudante universitário, assisti de perto ao saneamento de um professor da Faculdade de Ciências de Coimbra que chumbava muita gente; como o homem se recusou a sair pelo seu pé, foi trazido sentado na cadeira e deixado no passeio. Embora mais raros, também no ensino secundário houve saneamentos.

A ideia que então se difundia era a de que os professores eram os guardiães dos valores reacionários que reproduziam junto dos alunos e que, por isso, deviam ser “reeducados”. Foi assim que, já na condição de jovem professor, fui submetido a algumas tardes de “reciclagem” revolucionária, conduzida por um pelotão do COPCON do Regimento de Infantaria, sentado no chão do ginásio, lado a lado com colegas e alunos, igualizados, ouvindo a prédica do alferes.

Esta campanha abalou seriamente a credibilidade da classe docente, desvalorizando-a.

Concomitantemente, surgiu o fenómeno da massificação do ensino e da consequente e necessária expansão da rede escolar, o que obrigou ao recrutamento de muitos e muitos professores, quantas vezes sem a mínima vocação e ainda menor preparação.

Esta realidade levou a que a já degradada imagem social dos professores viesse a sofrer uma ainda maior erosão, fruto da fraca qualificação dos quadros docentes, situação que se foi arrastando ao longo dos anos.

Assim, ser professor, outrora profissão reconhecida e respeitada, passou a ser vista como um escape para quem não conseguia outro emprego, com consequências devastadoras ao nível do prestígio da classe.

Esta sucessão de factos teve como consequência o agudizar da degradação da imagem socioprofissional e a perda quase total de autoridade do professor, mormente em contexto de sala de aula.

Mais tarde, com a aprovação do Estatuto da Carreira Docente e a inerente instituição do horário de 35 horas, a profissão docente caminhou para a proletarização. O professor, que até então regia 22 horas semanais na escola e geria autonomamente o seu trabalho individual – quase como um profissional liberal – viu abertas as portas para o cumprimento de uma “componente não lectiva” que, mais tarde, veio a servir para as mais estapafúrdias tarefas.

Em cima de tudo isto, não pode olvidar-se a acção dos sindicatos, com especial ênfase nos comunistas. Reivindicações absurdas, na maior parte das vezes ditadas por agendas partidárias, levaram a “conquistas” inolvidáveis. Foi assim com as reduções do trabalho por antiguidade, por exemplo – duas horas a menos por cada quatro anos de trabalho – tendo chegado a haver professores – muitos – cujo horário completo não excedia escassas 8 horas de aulas semanais mais 4 de delegado de grupo ou equivalente. Ao mesmo tempo, conquistaram-se “mil e uma” justificações para faltar ao serviço sem qualquer penalização. E, para culminar, ganhou-se uma carreira de progressão automática que permitia chegar ao topo em qualquer coisa como 27 anos, auferindo-se um vencimento generoso, comparativamente falando. E, desgraçadamente, as vistosas manifestações sindicais gritando impropérios e injúrias a todo e qualquer governante ou magistrado, amplamente transmitidas pelas televisões em horário nobre, a entrar pelos olhos dentro de alunos e pais.

Foi assim que, lenta mas inexoravelmente, o professor passou a ser visto como um calaceiro malcriado, bem pago, que não raro deixava os alunos sem aulas sem se dignar sequer a avisar.

Ora, quem é que respeita um tipo destes?

E há disciplina sem respeito?

… …

E foi neste contexto que chegou ao Ministério a D. Maria de Lurdes Rodrigues. O resto já todos sabem.

Pode consultar mais opiniões da rubrica Tem a Palavra

Enviem as vossas opiniões para [email protected]

2 COMMENTS

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here