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(In)Disciplina escolar e formação docente

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Formação de Professores

Uma das grandes apostas deste 21º governo, na área educativa, passa por cruzar duas dimensões essenciais à vida da escola. Por um lado, a promoção do sucesso escolar, por outro, a formação docente. Entre um e outro, qual ponte que une duas margens distintas, a questão da dinâmica de sala de aula, na qual a (in)disciplina escolar sobressai.

A primeira, sucesso escolar, é ainda uma das grandes fragilidades da escola. É, para mim, difícil entender a vida social e democrática (da escola, em primeiro lugar, mas também do contexto social de uma democracia do século XXI) sem que exista pleno sucesso. E este pleno sucesso não tem de ser igual e o mesmo para todos, na mesma área e da mesma maneira. Pode passar apenas e simplesmente pela circunstância de cada aluno ser capaz de definir, em consciência (isto é, com o apoio da família, de docentes como de técnicos educativos), o seu percurso pessoal e escolar.

A segunda, a formação, é fundamental não apenas para que os docentes consigam perspetivar e ser capacitados ao desenvolvimento de processos de diferenciação, como o de pensar o seu contexto, as suas práticas, a sua organização, as suas relações pedagógicas. A formação é essencial não apenas para que se perspetivem outros modos de ação (coletiva e individual) mas para que se pensem outros modelos (desde logo de docente como de aluno), se concebam outras ideias sobre o papel e os objetivos e as funções de uns e de outros, se perspetivem outras estratégias e uma outra relação de sala de aula, com a escola.

Para a concretização da estratégia de governo foi designado um coordenador nacional com a responsabilidade de articular sucesso escolar com as dinâmicas de sala de aula – coisa fundamental para o sucesso da medida. Foi definida e montada a estratégia de formação, que passa por formar formadores de formadores, instituindo-se uma lógica de rede que pode dar os seus frutos. Como, tudo o indica, se discute o modo da sua implementação que poderá passar pela apresentação de propostas e projetos a implementar nas escolas/agrupamentos.

A disciplina escolar foi – e bem, em meu entendimento – uma das áreas acolhidas para a formação. Perante esta opção, tenho de destacar um risco e uma oportunidade, tipo verso e reverso da formação sobre esta matéria em concreto.

A formação sobre indisciplina (aqui recorro ao conceito mais comum nas escolas) corre o sério risco de ir à procura de uma mezinha mágica, qual poção do druida Panoramix que outorgue autoridade e poder ao docente de calar os alunos, de incentivar nestes últimos o gosto pela escola e o prazer por mais de uma dúzia de disciplinas. Ou que (e não menos importante) crie e promova sentidos e lógicas do trabalho escolar, que a escola não seja apenas um espaço de depósito de pais atarefas ou espaço de pensar as novas estruturas familiares ou sociais. No âmbito de um possível projeto (ou contratualização de medidas de promoção do sucesso) o risco que esta formação pode desencadear relaciona-se com a passagem da dimensão pedagógica e escolar da indisciplina para o campo da saúde, seja por via da psicologia, seja por via dos apoios educativos. Este risco, já o escrevi noutros lados, passa por psicologizar o trabalho escolar, retirando-lhe aquela que é, no meu entendimento, a sua grande mais valia, o grupo em detrimento do indivíduo.

Contudo, tenho de reconhecer previamente e para memória futura, a possibilidade e oportunidade que esta contratualização pode proporcionar às escolas e aos docentes. Será uma excelente oportunidade de afirmar a escola como espaço social e profissional, caso exista uma efetiva oportunidade de se discutirem sentidos e propósitos da organização do trabalho docente à luz de contextos e objetivos do século XXI. Como o será se esta contratualização passar por envolver as pessoas (docentes, alunos, estruturas educativas, pais/encarregados de educação, contextos sociais) e visar pelo menos o médio prazo. Neste caso, os contextos que assim o fizerem podem-se tornar casos de sucesso e de estudo.

Conhecendo minimamente a área, o risco é o de descairmos para a dimensão mais psicológica da (in)disciplina escolar (remetendo ao aluno grande parte, quando a exclusividade, das responsabilidades) e o estabelecimento de redes locais de pensamento e ação se ficar pelo papel. E falo essencialmente pelas bandas por onde ando.

Manuel Dinis P. Cabeça

11 de abril, 2016

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