Início Escola Identidade de Género | “Os Professores (…) só têm um lado: o...

Identidade de Género | “Os Professores (…) só têm um lado: o dos seus alunos, o de todos os alunos”

1274
2

É com orgulho que informo que o ComRegras passará a contar com a análise exclusiva do professor Santana Castilho aos inquéritos lançados por esta casa. A reflexão, o debate, a pluralidade de opinião são a nossa aposta e a nossa marca. Santana Castilho é um promotor dessa mesma análise e reflexão, um pensador, mas também alguém que apresenta um rumo e uma alternativa. Vejo-o como uma das vozes mais respeitadas pelos diferentes agentes educativos e alguém que coloca sempre a Educação à frente de todo e qualquer interesse.

A questão colocada foi sobre o tema quente da semana, a Identidade de Género. Ficam os resultados e a análise do professor Santana Castilho.

Identidade de Género

Pediu-me o Colega Alexandre Henriques uma análise aos resultados que obteve para um inquérito que dirigiu aos professores neste blogue e um pequeno comentário sobre o tema. À pergunta “concorda que os alunos escolham o WC e balneário que pretendem frequentar?”, 70% responderam “não”, 22% “sim” e 8% escolheram a opção “não sei/não tenho opinião”. Tomando por referência tudo o que sobre a matéria foi dito, ouso opinar que a pergunta não terá sido a mais feliz, que as respostas “não” interpretam o senso comum e as “sim” traduzem a anuência ao direito de escolha por parte das crianças e adolescentes a que me vou referir no comentário que se segue.

A complexidade da vida de crianças e adolescentes intersexo ou transgénero e de suas famílias, quantas vezes marcadas por um sofrimento de que não temos a mínima noção, merecia um tratamento bem diverso daquele que a interpretação de uma lei da AR, primeiro, e de um despacho regulamentador de dois membros do Governo, depois, suscitou. Especialmente quando algumas dessas reacções têm origem em instituições e personalidades com particulares responsabilidades sociais e políticas.

O confronto de ideias com argumentos válidos é essencial na vida democrática. A pronúncia sem conhecimento é lamentável. A deturpação dos factos e a disseminação de falsidades é sórdida. Sobre o que está em causa tenho ouvido e lido exemplos que se encaixam nesta trilogia catalogadora.

No Twitter, Rui Rio acusou o Governo de ter feito “um despacho de perfil bloquista, semeando a confusão nas escolas”, disse que o assunto foi tratado “com leviandade” e “pouco respeito pelas crianças” e recomendou a leitura de um artigo lamentável, de Laurinda Alves, publicado no “Observador” sob o título “Minorias de estimação”.

O deputado do CDS/PP João Gonçalves Pereira, também no Twitter, referiu-se ao tema, ilustrando com imagens pornográficas duas frases: “Isto é o que a esquerda socialista e a extrema-esquerda querem nas nossas escolas” e “Escola bué moderna. Vota Bloco”.

Francisco Rodrigues dos Santos, líder da Juventude Popular, prometeu deduzir uma ação judicial caso o despacho não fosse suspenso.

Uma petição pública, que rapidamente ultrapassou as 20 mil assinaturas, glosou a ideia, falsa e que não pode ser retirada da leitura do despacho, segundo a qual a escolha das casas de banho e balneários das escolas deixava de estar relacionada com o sexo dos alunos.

Entendamo-nos: aqueles instrumentos legais procuram dar segurança mínima e protecção legal a crianças e jovens transgénero ou em processo de mudança de sexo, ajudando-os na fruição de um direito básico e protegendo-os de discriminações vexatórias.

As crianças e adolescentes intersexo nasceram com características, quer no que toca à sua genitália, quer no que se relaciona com os respectivos órgãos internos, que não correspondem à dicotomia clássica masculino/feminino. As crianças e adolescentes transgénero vivem conflitos psicológicos graves entre corpo e psique, traduzidos por uma identidade oposta àquela que o sexo lhe atribuiu. Não se trata de diletantes. São pessoas com problemas sérios, a que só uma sociedade bruta não atende. É cobarde, é desumano, que existam responsáveis políticos a reduzir tudo ao que apodam de “ideologia de género”.

Os professores, profissionais que mais podem contribuir para construir um futuro mais equânime e por isso mais justo, só têm um lado: o dos seus alunos, o de todos os alunos, abraçando mais estreitamente os que mais sofrem.

Santana Castilho

COMPARTILHE

2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pela escolha de Santana Castilho, um dos mais lúcidos, certeiros e corajosos comentadores da casa portuguesa. Há muito deveria ser o Ministro da Educação deste país para pôr ordem no galinheiro. E claro, mais uma vez acerta em pleno no comentário que faz ao inquérito. Sem dúvida que o não reflete o senso comum dos professores, para o qual foram atirados pelos sucessivos ministérios da educação, empenhados na sua mediocridade em sobreocupar os professores em tarefas inúteis e improdutivas, não fossem eles correr o risco de sair desse universo kafkiano e passar a ser livres pensadores e trabalhadores intelectuais, como seria de esperar e o país urgentemente precisa, elevando a um patamar superior a sociedade portuguesa.

  2. Julga mesmo que 70% dos professores participantes no inquérito se opõem à aplicação deste despacho porque são insensíveis ao drama de uma minoria dos seus alunos? Há muito tempo que os professores lidam – e bem – com casos destes e com os casos de muitas outras minorias que existem nas escolas e a quem talvez ninguém tenha dado realmente importância além dos professores.
    Os professores não precisam de uma legislação que os obrigue (essa agora!) a terem compaixão dos seus alunos que sofrem.
    É estranho, para mim, que, alinhando com o texto do despacho, tenha colocado o foco nessa questão, parecendo ignorar aquilo que não acredito que ignore, e que na verdade muitíssimas pessoas já compreenderam: que este despacho se inclui na agenda da implementação da teoria de género nas escolas portuguesas.
    Como é que se justifica que venha dizer que há pessoas «a reduzir tudo ao que apodam de “ideologia de género”»? Essas pessoas estão erradas? Não estão a ver bem o que se passa? Estão “a reduzir”? É que as citações seguintes, próprias, como certamente sabe, daquilo a que se tem chamado “ideologia de género,” foram tiradas do despacho de que falamos: «direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género»; «jovens que realizem transições sociais de género»; «uma identidade ou expressão de género que não corresponde à identidade de género à nascença»; «personalidade da criança ou jovem em processo de transição social de género, conforme a sua identidade autoatribuída»; «género autoatribuído»; «ultrapassar a imposição de estereótipos».
    Por acaso ignora que “ultrapassar a imposição de estereótipos” significa ensinar desde cedo às crianças que ser homem ou mulher é uma imposição social, da qual se devem libertar; que todos nascemos sexualmente neutros, e que aquilo que venhamos a sentir-nos com relação ao sexo constitui uma “identidade de género”, que será a nossa enquanto não mudarmos para outra?
    Não é fácil ver como isto abre o caminho à confusão em crianças e jovens? Não ouviu falar do aumento brutal do número de suicídios em adolescentes após a imposição da teoria de género em vários países do mundo?
    Por acaso ignora o que se passa em países que vão mais adiantados do que nós neste processo? Não sabe que na Suécia já se pede a legalização da necrofilia, que é ter relações sexuais com cadáveres? Que na Holanda se apoiam com petições públicas os pedófilos? Porque há todo o tipo de “géneros” – já foram descritas dezenas deles – e, uma vez que se saltou para fora da realidade, não há maneira de estabelecer um limite à aberração.
    Não queremos esta ideologia ensinada às nossas crianças! O Governo, de acordo com a Constituição da República, não tem o direito de ensinar essa ideologia, nem nenhuma outra; não foi referendada; não estava no programa do governo.
    O povo não a quer! Foi por isso que não a referendaram; foi por isso que publicaram isto à socapa, tal como fizeram com a lei anterior, que permite este despacho.
    Não passarão!

    (Paulo Geraldo)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here