Home Rubricas Idade Do Armário: Há Fases E Fases

Idade Do Armário: Há Fases E Fases

Este período que medeia entre a infância e idade adulta é uma sucessão do que já existe, mas porque se cresceu não são aceites determinados comportamentos, acelerando-se o processo de transição para a idade adulta. O que é facto é que os comportamentos desadequados ocorrem em qualquer idade.

768
0

A adolescência é um processo da evolução humana tal como a infância, a idade adulta ou até a velhice. Tem as suas características, mas também todas as outras têm. Se é desafiante a idade do armário? Sim, mas todas as idades são e o ser adulto não é assim tão diferente.

Quando nascemos o temperamento acompanha-nos. Na sua multiplicidade de aspectos vai-se moldando ao longo do tempo com o ambiente que nos circunda. As formas como me vejo e como me vêem misturam-se e daí resulta alguém mais ou menos conhecido para todos. A idade do armário vai ondulando ao longo da vida porque nem sempre o que conheço de mim vai de encontro às minhas expectativas. Ao longo dos diversos acontecimentos de vida somos mais alegres, mais tristes, mais reservados, queremos estar em grupo ou queremos ir para o armário e não ver nem ouvir quem quer que seja. A grande diferença do adolescente é que vai para os seu quarto isola-se do mundo, e permite-se viver no armário durante o tempo que for necessário. De fora estarão aqueles que também desejavam ficar no armário de vez em quando e mantêm-se firmes para amparar esta “fase”.

A moldagem necessária para a transição da infância para a idade adulta passa pelo processo de aceitação do próprio pelo próprio e pelos outros. E muitas vezes pelo próprio não se aceitar a si mesmo, não consegue ver que o grupo o aceita. Mas isto também se passa desde a infância até à velhice, na necessidade de integração – todos necessitam de se considerar aceites. Quando o adolescente não se sente integrado é motivo de grande angustia que muitas vezes se manifesta através do isolamento, da raiva, atitudes de oposição ou mesmo de agressividade. O adolescente não aceita os pais, mas os pais também têm dificuldade em integrar esta “fase”, ao considerarem que para a idade que tem já se deveria comportar de outra maneira. Reportemo-nos agora ao adulto: quantas vezes temos atitudes desadequadas, impróprias para o consumo de todos? Muitas… Quer o adolescente, quer os pais, nescessitam de aceitação mútua, porque se ambos os lados remarem contra a maré ficam emocional e fisicamente desgastados.

Este período que medeia entre a infância e idade adulta é uma sucessão do que já existe, mas porque se cresceu não são aceites determinados comportamentos, acelerando-se o processo de transição para a idade adulta. O que é facto é que os comportamentos desadequados ocorrem em qualquer idade. Na infância nada se compara a uma boa birra para expressar as emoções, no adulto tantas vezes que somos desadequados e na velhice vamos todos ficar um pouco mais teimosos.  Por outro lado, também podemos contribuir para um prolongar da infância ao não permitir que os adolescentes adquiram autonomia. Será que deveríamos apenas deixar a natureza seguir o seu curso? Talvez. No entanto, nem tudo são “fases”. Há factos que não são normais em idade alguma e no que diz respeito à adolescência, por este aspecto de transição entre dois mundos, há que estar atento.

O facto de se considerar uma “fase” pode por vezes levar a que alguns sinais de profunda tristeza (pelos mais variados motivos) passem despercebidos. Sinais esses que poderão contribuir para estados depressivos e que no seu expoente máximo podem levar a tentativas de suicídio. Podem ser sinais tão simples, como cobrir demasiado o corpo com a roupa, evitando expor partes simples como os braços ou as pernas, onde estão por vezes sinais de auto-mutilação a ilustrar uma situação grave de sofrimento. Ou então afirmar a necessidade de desaparecer, morrer de forma recorrente pode ser um alerta de que algo não está bem e que não é apenas a dita “fase”.  Também o contexto das avaliações escolares deverá ser tido em conta, já que por vezes bons alunos podem reduzir o seu desempenho, não pela adolescência, mas porque existe algum transtorno do ponto de vista emocional. Há que explorar a situação quer através do próprio adolescente, quer junto dos professores e até mesmo junto dos colegas e amigos, já que estes últimos são muitas vezes os seus confessores e conhecem-no melhor que ninguém. Nem tudo são “fases” ditas normais. Neste aspeto os professores são excelentes aliados dos pais já que passam tempo com o adolescente e conhecem-no dum ponto de vista que os pais jamais têm.

A pressão social para ser e parecer o que queremos que os outros vejam pode também gerar ansiedade, quer no adolescente que, para além do contexto familiar, tem o escolar e social que pesam bastante na sua vida, quer para os pais que para além da gestão emocional familiar têm a vida profissional e social com as exigências que lhe são inerentes. Por vezes, apetece a todos terem um armário onde se esconder uns dos outros temporariamente até a tempestade passar.

Em todas a idades a Idade do Armário estará mais ou menos presente com um pico na adolescência. No entanto, há fases e fases e nem tudo entra na normalidade. Transformar fases da evolução humana, naturais, em etapas de desenvolvimento incongruentes seria como transformar uma estrada nacional numa auto estrada. Nem sempre o trânsito vai fluir da forma que se quer mas o que interessa também é o caminho que se faz, estando sempre atento a sinais desintegrados da paisagem.

Vera Silva

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here