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I online – A violência entre os adolescentes (Mário Cordeiro)

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A VIOLÊNCIA ENTRE ADOLESCENTES

mario cordeiroÉ um tema que recorrentemente salta para as páginas dos jornais, sendo abordado muitas vezes de modo emotivo, superficial e baseado em casos com os quais amiúde se pretende generalizar e fazer lei.

Ouvem-se vozes de que o mundo juvenil está “podre” e as causas seriam muitas, da deseducação que os pais dão à degradação da escola, passando pela internet ou pela crise. Mas será assim?

Sempre houve violência no mundo e não consta que, em números absolutos, haja mais agora do que antigamente. O que mudou foram coisas essenciais: os casos são mais bem conhecidos, vêm para a comunicação social (às vezes ad nauseam e com objectivos comerciais), são motivo de conversas de café (porque a nossa curiosidade mórbida é insaciável), são publicitados nas redes sociais, enfim, não passam desapercebidos; depois, a violência não é tão aceitável como antes – o mundo é mais humanista, os direitos dos cidadãos tendem a ser inquestionáveis e a resolução dos conflitos pelo diálogo uma preocupação crescente. Acresce que as vítimas se calam menos, aceitam menos e reagem.

Apesar de, na minha opinião, haver menos violência, é verdade que temos assistido a alguns casos entre adolescentes, e um caso que seja já é de mais.

Um dos aspectos mais preocupantes dos casos recentes tem a ver com a falta de empatia, ou seja, a ignorância do sofrimento do outro, o que é do domínio da psicopatologia. Treze minutos de tortura sem que os agressores sintam compaixão é muito grave, para lá de tudo o resto. Usar de uma violência extrema por um motivo que as próprias autoridades designam como “fútil” custa a crer. 

Onde estão, pois, as raízes da violência? Alguns factores são conhecidos; ter sido vítima de violência, estar habituado ao seu uso, designadamente no meio familiar ou escolar, o que leva a que se fique imune aos seus aspectos chocantes e revoltantes, e por fim crescer numa cultura de desrespeito (que começa em actos do quotidiano, muito antes dos que depois fazem as manchetes).

É assim fundamental educar no sentido de uma via pacífica para a resolução dos conflitos, estímulo do diálogo, desenvolvimento da capacidade de argumentação, combate ao narcisismo e à omnipotência, e fazer da cultura da paz a contrapartida da violência. Os comportamentos éticos e “fazer as coisas bem feitas” não são atitudes de betinho, mas sim uma exigência civilizacional e própria de um Estado democrático.

Finalmente, uma criança que cresce num ambiente onde grassa a violência crescerá imune a sentimentos de culpa. As primeiras estaladas ou injustiças magoam e chocam, as segundas aguentam-se, as terceiras já não fazem mossa e a partir daí até pode desenvolver-se um gosto sadomasoquista.

Quanto às redes sociais, não creio que sejam causas da violência entre jovens, mas sim uma forma de os agressores se exibirem, revelando as suas facetas narcísicas e ânsia de protagonismo fácil. Por outro lado, a enorme ampliação do caso, tornando-se perene e partilhado por milhares de pessoas, acaba por ser um dado novo e mais uma violência para a vítima.

Não culpemos a tecnologia nem façamos dela o mau da fita; ela existe para bem da humanidade, e com ela conseguimos patamares científicos, humanistas e civilizacionais incalculáveis. Aliás, nestes casos mais recentes foram usados murros, pontapés e bofetões ou espancamentos com barras. Nada que não existisse na idade das cavernas. A brutalidade intrínseca e natural do bicho-homem é que, quando não está devidamente domesticada ou salta a despropósito, é a verdadeira causa de tudo isto.

Mário Cordeiro (2015). “A violência entre adolescentes”. http://www.ionline.pt/, 19 de Maio
Imagem de: adolescentes39.blogspot.com

1 COMMENT

  1. Gosto deste texto. Penso que a base esta na prevenção e na construção positiva na escola e na família, apostando numa sà convivência.

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