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Huxley, nós e a pandemia – Santana Castilho

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O Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, descreve uma sociedade futura (Estado Mundial) onde, em nome da eficiência e da eficácia, a governação substituiria os dinamismos sociais e as emoções humanas por ciência e tecnologia. São abolidos pais, mães e família e a procriação natural dá lugar à procriação artificial, que programa as crianças, desde o nascimento, para o desempenho de um papel pré-determinado na sociedade. Os embriões são objecto de tratamentos hormonais estratificados, para gerarem líderes ou simples trabalhadores braçais, com capacidades intelectuais intencionalmente reduzidas. Huxley antecipou a manipulação subliminar dos comportamentos humanos (como é actualmente feita por complexos algoritmos de inteligência artificial) e mostrou, premonitoriamente, aonde nos pode conduzir o endeusamento da tecnologia. Do mesmo passo, e já no campo do debate das ideias, sublinhou que a distopia apresentada no livro se concretizaria pela concentração do controlo e da riqueza. Referindo-se ao aparecimento da televisão, atribuiu-lhe capacidade para influenciar a vertente racional do homem e difundir ideias únicas, submetendo todas as dimensões da vida a imposições autoritárias.

Caminhamos para isto, 90 anos depois? Não sei, mas é grande a perplexidade com que olho para uma sociedade maioritariamente resignada à amputação da sua liberdade e a um controlo silencioso que a impede de pensar e questionar criticamente. Tal como Huxley temia, vejo muita verdade afogada em mares de irrelevâncias, genericamente aceites. Esse novo normal anti-humano de que nos falam, e que muitos já aceitam como realidade, propõe, afinal, a aceitação de uma distopia permanente, assente na cultura do medo, servida pela informação superficial em detrimento do conhecimento profundo e pela abolição de fronteiras entre vida profissional e vida privada. A dignidade e a liberdade da pessoa, individualmente considerada, está a ser constantemente menorizada pela imposição de obrigações sociais (veja-se o passaporte covid em processo) que o novo Grande Irmão filantropicamente nos oferece. Agora para nos proteger da covid-19, no futuro, quem sabe, da vinculação aos outros, das emoções, da sarna ou dos piolhos.

The Great Reset, conceito abordado no seio do Fórum Económico Mundial a este propósito, é uma espécie de acordo social (sem o nosso acordo), via identificação electrónica, que reduzirá a nada qualquer protecção da nossa intimidade e engordará os lucros das organizações que vendem dados sobre todos os aspectos das nossas vidas. Uma elite autoproclamada, que nós conhecemos sem conhecer, terá acesso à nossa conta bancária (enquanto tivermos algo nosso), ao nosso historial médico e a toda a nossa vida (que quer pôr ao exclusivo serviço da vida dela), que passará a ter uma evolução indexada ao nosso comportamento social (à boa maneira chinesa). Numa palavra, trata-se de uma estratégia de vigilância e controlo universal, por recurso à inteligência artificial. O apressar deste caminho está a ser bem servido pelas consequências da covid-19, cuja gestão substituiu racionalidade por medo e a análise ponderada custo/benefício das medidas tomadas por submissão aos palpites dos novos astrólogos. Esta projectada eliminação de qualquer controlo democrático é proposta (imposta), naturalmente, em nome da pegada do carbono, da conservação da natureza e da incontornável quarta revolução industrial.

Na mesma linha, Google, Facebook e Amazon reúnem de há muito torrentes de dados, que submetem a poderosas ferramentas de inteligência artificial, para construir estratégias manipulatórias do comportamento de todos nós, com objectivos comerciais, políticos ou outros, as quais incluem a censura (tenho amigos mais jovens, que não conheceram a comissão de censura do meu tempo, que me mostram estratégias para driblar os censores dos tempos modernos: os gurus de Silicon Valley).

A pandemia, melhor dizendo, as medidas para a combater, estão destruindo as economias locais e ditarão uma cascata de resgates de empresas e países endividados. O preço da salvação, o mesmo de sempre, chama-se perda de soberania e de liberdade.

Público

 

1 COMMENT

  1. Quase que concordaria com tudo, exceto quanto à crítica em relação à forma como se combate o COVID. O COVID mata, e se não houver vida ou o amor das pessoas que amamos, vivas, de pouco importa a liberdade. Não brinquemos em serviço. A questão da censura veio complexificar-se no mundo atual, face a novas experiências da humanidade. A ideia romântica: “não concordo contigo mas morreria para que possas continuar a defender as tuas ideias”, pode resultar numa ingenuidade suicida. Há ideias que não têm sustentação possível, seja qual for o exercício de retórica para as defender, nascem de distorções e aberrações, não têm ingresso na arena do debate: defender a morte de negros? defender a morte de judeus? defender a morte de idosos? defender a morte de deficientes? defender o genocídio de um grupo? e sei lá que outras coisas loucas que os humanos conseguem congeminar. Sim, é preciso ter a coragem e a inteligência moral de não confundir liberdade com prostituição da liberdade e assim como aceitamos limites para a ação, também há ideias que não podem ser divulgadas como ideias, porque não o são, são aberrações. E não é uma questão de gosto ou de cultura. O relativismo absoluto é autofagia. O limite não está assim tão esbambeado.
    Muito mais grave é de facto, a entrada sorumbática e indolente que todos estamos a fazer no mundo de Huxley , aqui e agora. De facto a informática que deveria ser uma libertação para o ócio, para a reflexão e para a criatividade, está a empurrar-nos como flautista de Hamelin, para dentro da caverna de Platão. Os críticos ficarão a gesticular sozinhos como Velhos do Restelo, enquanto a crítica passa a língua morta. Será que a Robótica nos salvará? para já descemos pelos nossos próprios pés a escada para a escravatura. e nisto SC tem toda a razão.

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