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Humildade e respeito

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pais autoritariosRegresso aos comportamentos escolares, às situações de tensão que, em sala de aula e em contexto educativo, são, genericamente, apelidadas de indisciplina.

Há dias o Alexandre (o editor do ComRegras) questionou-me do porquê de eu não falar de causas, de soluções sobre aquilo que me mói na escola por onde ando, a indisciplina. Mói por que sou o diretor da turma que tem estado envolvido em inúmeras situações e vicissitudes de âmbito disciplinar.

Torna-se-me algo complexo e delicado falar de causas. A nossa tradição judaico-cristã leva-nos a, ao falar de causas, procurar culpados, algo ou alguém a quem possamos apontar o dedo e, dessa forma, aligeirar as nossas consciências, aliviar as nossas responsabilidades. Como se, ao apontar-se um culpado, se diluíssem as circunstâncias que estiveram na origem da situação ou do acontecimento que deu origem a culpados e a inocentes, objetos e sujeitos, dardos ou alvos. Situação algo comum quando se aborda a dita indisciplina escolar.

Costumo dizer que numa relação, como é a de ensino aprendizagem, não há um culpado, mas culpados, não há uma razão, mas razões. Muita das vezes, inclusivamente, ultrapassam os elementos diretamente envolvidos que mais não são que o ponto de saída e ao mesmo tempo de confluência de outras circunstâncias que desencadearam estados de espírito, sentimentos, ações e reações e que ali, num momento e numa situação, se confrontam e desaguam.

Contudo, há elementos que, sem serem generalizáveis, têm sérias implicações na alteração das relações de sala de aula e, de forma imediata, nos comportamentos de alunos e professores, naquilo que muitos designam como situações de indisciplina. Falo, entre outros factores, dos sentimentos de humildade e respeito que durante muito e muitos anos “foram os valores centrais que garantiram a ordem que colocava tudo no seu devido lugar” (maravilhosa citação/retrato social retirado de Antunes, 2015; “Regressos Quase Perfeitos”, p.38, Edições Tinta da China).

Se for verdade o que muitos apregoam, da alteração dos valores que nos orientam, este será certamente um elemento a considerar no processo de reconversão das ideias e das  relações não apenas de sala de aula, mas que nesse contexto adquirem um peso distinto. Se assim for, torna-se algo idiota, peço desculpa mas não encontro outra expressão, apelar ao reforço da autoridade dos professores, à crescente criminalização e penalização de atitudes e relações escolares. Designo como idiota por que, se não se respeitam pais ou as forças policiais, não é por se acentuar a autoridade legal dos professores que irá existir respeito ou encontrar soluções para a indisciplina. Por outro lado e como outra alternativa, não deixa de ser menos descabido apelar-se a uma crescente psicologização dos comportamentos juvenis para resolução de situações de desinteresse, alheamento e indiferença relativamente àquilo que as disciplinas impõem, ao que os professores transmitem ou ao que a escola e as políticas educativas exigem. Psicologização que mais não é que atirar para os profissionais da saúde infanto-juvenil aquelas que deviam ser as (propostas) soluções escolares e pedagógicas para a indisciplina (melhor, para os comportaments desadequados). Dá conta da limitação e dos condicionalismos que cerceiam tanto a capacidade dos professores como as possibilidades organizacionais identificarem e implementarem respostas (não são soluções). 

Tem-se assim, que não há formação que resista à indisciplina escolar, pois não se pode combater a febre sem que se saiba qual ou quais as suas origens. Em ações de formação sobre indisciplina sobram os docentes que criticam do seu despropósito, que é teoria, que não se adequa, que os formadores estão descontextualizados ou fora da realidade, que são “académicos”. Querem soluções imediatas e instantâneas que não há.

A formação deve ser outra e centrada para algo onde poucos, muito poucos têm olhado, para a dinâmica de sala de aula (currículo, em primeiro lugar, didáticas, logo de seguida, relações sempre).

A perda da humildade e do respeito enquanto valores que colocam ordem no caos social, implica, ao nível da escola, a alteração de dinâmicas de sala de aula, do trabalho docente, da relação entre professores e alunos. Sem isso, sem essa alteração, não há quem resista, nem os alunos percebem o por quê do pensamento matemático ou da história de pedras e mortos (como um aluno me disse recentemente), nem os professores que esgotam a paciência e a si mesmos, em processos de (des)controlo da sua sala de aula.

Manuel Dinis P. Cabeça

outubro, 2015.

2 COMMENTS

  1. Não resisto em dizer ao meu colega de blog que temos de ser corajosos e denunciar as causas da indisciplina na Escola. As causas são muitas, efetivamente, mas impõe-se identificar as mais importantes.Talvez num tempo próximo consiga voltar ao tema na minha rubrica, para abordar as implicações ligadas á saúde infantojuvenil.

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