Home Escola Hostilidade Aos Professores – Pacheco Pereira

Hostilidade Aos Professores – Pacheco Pereira

7817
6

Nem sempre acontece mas, desta vez consigo estar 100% de acordo com José Pacheco Pereira, inclusive no que diz sobre a avaliação, como já tive oportunidade de escrever em ADD – Proposta Para Debater!

Um texto a ler…


 

A hostilidade aos professores é evidente em muitos sectores da sociedade portuguesa. Manifestou-se mais uma vez no último conflito gerado pelas votações dos partidos na Assembleia atribuindo aos professores a contagem integral do tempo de serviço. Antes, durante e depois deste processo, a vaga de hostilidade aos professores atingiu níveis elevados, com a comunicação social a escavar fundo a ferida, com sondagens orientadas e uma miríade de artigos de opinião e editoriais.

Valia a pena parar para pensar, porque este movimento de hostilidade é mais anómalo do que se pensa, e acompanha outros, como o ataque aos velhos como sendo um “fardo” dos novos. Mostram que estamos a entrar numa cosmovisão social que implica um retrocesso enorme naquilo a que chamamos precariamente “civilização”. É preciso recuar muito para encontrar ataques aos professores, o último dos quais teve expressão quando a escola laica, em países como a França, foi um alvo importante da igreja, que tinha o monopólio do ensino.

Mas eu seria muito cuidadoso sobre as razões dessa actual hostilidade, porque ela incorpora aspectos muito negativos da evolução da nossa sociedade. É um caminho que muita gente está a trilhar, sem perceber que ele vai dar a um profundo retrocesso. E isso acontece muitas vezes na história: anda-se para trás quase sem se dar por ela, contando com a inacção, a apatia, ou a acédia, de quem deveria reagir. Como a democracia é uma fina película contra a barbárie e é apenas defendida pela vontade dos homens e não por nenhuma lei da natureza, mais vale prevenir com todos os megafones possíveis.

Há vários aspectos na actual hostilidade. Há uma agravante no caso português que tem a ver com a vitória muito significativa da ideologia da troika, que está longe de ter desaparecido e, nalguns casos, migrou para sectores que lhe deveriam ser alheios e não são: os socialistas, por exemplo. Disfarçada de “economia”, essa ideologia assenta numa visão pseudo-cíentifica, muito rudimentar e simplista, cheia de variantes neo-malthusianas, que se apresentou como não tendo alternativa, a nefasta TINA. Isto encheu-nos as cabeças e não saiu delas.

Essa ideologia centra-se na crítica do Estado, em particular do Estado social, e transforma os funcionários públicos em cúmplices de uma rede de privilégio, sendo descritos apenas como “despesa” excessiva. Vale a pena ensinar-lhes um pouco de história europeia e lembrar-lhes o papel do Estado desde Bismarck como instrumento para impedir sociedades bipolares de “proletários” e ricos, com a consequente conflitualidade social extrema. Acresce que esse processo criou à volta do Estado uma classe média, os tais desdenhados funcionários públicos, que não só funcionou como tampão como arrastou muita gente que vinha da pobreza e acedeu à mediania. A economia privada e o dinamismo das empresas, quando existiu ou existe, teve e tem igualmente esse papel, mas não chegou para criar este elevador social.

Portanto, gritem contra a função pública e os malefícios do Estado, que também existem como é óbvio, mas percebam que o pacote de não ter professores, enfermeiros, médicos, jardineiros, funcionário das repartições, leva atrás de si o ensino e a saúde pública, que são componentes essenciais do elevador social, o único meio de retirar as pessoas da pobreza, quer no privado, quer no público. Pais lavradores, que conheceram a verdadeira pobreza, filha professora primária ou funcionária pública, neto estudante universitário – sendo que o papel da educação é um elemento fundamental para esta ascensão.

Depois, há outros ingredientes. Os professores protestam, fazem greves, boicotam exames, fecham escolas, e hoje há uma forte penalização para as lutas sociais. Quem defende os seus interesses é penalizado e de imediato tem contra si muita comunicação social, o bas-fond das redes sociais e a maioria da opinião pública. São os enfermeiros, os camionistas, os professores, os trabalhadores dos transportes – manifestam-se, são logo classificados de privilegiados e egoístas. Os mansos que recebem migalhas no fundo do seu ressentimento invejam quem se mexe. Sem mediações, a sociedade esconde os que não precisam, e pune os que lutam. As greves hoje são solitárias.

O papel mais negativo é o da comunicação social, que se coloca sempre na primeira linha do combate ao protesto social. Despreza por regra os sindicatos, que considera anacrónicos, aceita condições de trabalho de sweatshop e ajuda a apagar e a tornar incómoda a memória de que o pouco que muitos têm no mundo do trabalho foi conseguido com muito sangue, e não ficando em casa a jogar gomas no telemóvel ou a coscuvilhar no Facebook.

Por fim, e o mais importante, há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala. É o que leva Trump a dizer que se combatia o incêndio de Notre Dame com aviões tanques atirando toneladas de água, cujo resultado seria derrubar o que veio a escapar, paredes, vitrais, obras de arte. É destas “bocas” que pululam nas redes sociais que nasce também a hostilidade aos professores. É o ascenso da nova ignorância arrogante, um sinal muito preocupante para o nosso futuro.

Os professores têm muitas culpas, deveriam aceitar uma mais rigorosa avaliação profissional, deveriam evitar ser tão parecidos como estes novos ignorantes, deveriam ler e estudar mais, deveriam ser severos com as modas do deslumbramento tecnológico, mas isso não esconde que têm hoje uma das mais difíceis profissões que existe. E que, sem ela, caminhamos para o mundo de Camilo. Não de Eça, mas de Camilo, do Portugal de Camilo. Verdade seja que isto já não significa nada para a maioria das pessoas. Batam nos professores e depois queixem-se.

Fonte: Primeiro Ciclo

Fonte: Publico

6 COMMENTS

  1. Notabilíssimo artigo de Pacheco Pereira. Até a questão da avaliação, de que o autor tem uma ideia errada, na minha opinião, se entende no contexto geral do texto…
    O ataque feito por Costa e companhia aos professores não tem paralelo , nem nos tempos de MLR… Tudo devidamente preparado , também na comunicação social, com uma série de mentiras deliberadas, que os inimigos habituais repetiram…
    Atacar os professores, como Pacheco Pereira bem explica, é ir bem mais longe num plano que visa destruir os pressupostos do Estado Social, aquele que permitiu, a paz na Europa nas últimas décadas… Mais estranho é quando esse ataque soez é perpetuado pelo PS , supostamente Social Democrata… Esta afronta é ainda mais grave porque quem devia defender os funcionários do Estado, nomeadamente a tutela ministerial, assumiu , de propósito, uma postura omissa para que os professores fossem linchados na praça pública . Quando deveriam enquadrar a questão, e não confundir a luta pelos direitos perdidos com a qualidade dos professores portugueses, quando deviam separar as águas e dizer que a Escola Pública tem conseguido, todos os estudos internacionais o dizem, resultados notáveis com um orçamento depauperado, preferiram que o ruído dos opina dores ignorantes fizesse caminho e as pessoas estabelecessem juízos errados sobre a classe docente…
    Os episódios de agressões a professores , que não aparecem todos relatados na comunicação social, e o silêncio absoluto do Governo sobre estas gravíssimas ocorrências, diz tudo sobre o desprezo , direi ódio, com que o primeiro-ministro, ministro e secretários de estado tratam quem ensina em Portugal…
    O derradeiro murro , que poderá derrubar definitivamente a Escola Pública e os professores, é a legislação produzida por este governo que passa pela secundarização dos conhecimentos, do papel do professor como guardião e transmissor desses conhecimentos; da ideia perigosa de que o conhecimento é algo de descartável pela chegada dos meios electrónicos: confundindo disponibilidade de informação com conhecimento… Essa proletarização absoluta dos docentes passa também por uma diminuição dos salários e a retirada de uma das prerrogativas essenciais dos professores: a sua autoridade e autonomia para a avaliação dos alunos e das suas aprendizagens: limitando todo processo educativo a uma burocracia colectiva onde a legislação retira qualquer poder de decisão sobre quem tem acesso a um patamar superior no percurso académico… Essa desautorização absoluta dos professores passa , obrigatoriamente, pela chamada flexibilização e por uma suposta escola inclusiva, que se preocupa mais com o processo , do que os resultados reais… Está pois montada uma grande farsa, não só em Portugal, que passa pela domesticação dos docentes, desvalorização do papel do professor e da escola ; culpabilização dos docentes e das escolas por não acompanharem os novos tempos e argumentado que as academias estão obsoletas… O mais grave( lá está, acesso a muita informação não é, de todo conhecimento) é que alguns embarcam nesta conversa digerindo-a sem nenhum filtro do que é a Política; o que é o Poder; como se está a organizar o mundo do trabalho e as relações de hierarquia; os serviços do Estado… Resumindo fazem o jogo do inimigo e gostam…
    O que se está a passar é muito, mas muito grave, o que se aconteceu na grande montra da comunicação social, sabem-no os docentes, já está há uns tempos dentro das paredes das Escolas onde já não passam de meros figurantes numa ópera bufa… Seria bom ouvir os professores sobre o que se tornou a sua participação nos Agrupamentos ou do que se passa no centro vital das decisões educativas: a avaliação dos alunos nos Conselhos de Turma… Nestes últimos os docentes podem aferir do alcance do ataque que os cerca: deixaram de ter qualquer palavra até no que pensam saber ou não saber sobre as aprendizagens dos seus alunos… Pior … são levados a acreditar que os alunos não progridem porque não usam metodologias adequadas , ou não usam todas as possibilidades que a Lei lhe confere para o sucesso escolar de alguns alunos… Esta mentira entrou nas Escolas Portuguesas e de toda a UE é um ataque inimaginável outrora , onde as supostas culpas de um insucesso educativo eram repartidos, por famílias, professores, distribuição de rendimentos e proveniência sócio-económica dos alunos e já agora, pelos próprios alunos…
    Os tempos não se adivinham fáceis …. quando se dorme com o inimigo!

    • Não podia estar mais de acordo consigo. A sua resposta é incomparavelmente melhor do que o texto que a motivou.

  2. Gosto muito especialmente do texto a azul. Mas gosto mesmo!

    Mas esta ideia de “uma mais rigorosa avaliação profissional” não a compro. Nada mesmo!

  3. Uma pergunta simples assim: como pode um estudante universitário actual aceder a uma carreira de Professor do ensino básico ou secundário. O que o atrai para essa carreira quando é adolescente? que curso ou cursos deve escolher? que formas existem de o atrair para essa nobre tarefa? gostava de obter uma resposta a esta questão tão simples e estruturante para o futuro do nosso país. Agradeço empenhadamente qualquer resposta que me possa ser dada.

  4. Avaliação profissional sim. Quando andava na escola nenhum professor falava de explicação aos alunos no primeiro ciclo… Reivindicar tempo de serviço retirado de acordo se houvesse justiça para aqueles que a semelhança dos senhores professores também foi retirado o mesmo tempo de serviço an cs

    • Quando andava na escola, não sei quando foi, mas não é preciso recuar muitos anos, Portugal era o país com a maior percentagem de analfabetos da Europa, com a mais baixa taxa de escolaridade. Nesse saudoso tempo uma larga maioria dos alunos não completava sequer o 1º Ciclo de Escolaridade, antiga primária, mais tarde até ao 6º ano de escolaridade…
      Nesse saudoso tempo Portugal comparava-se, em termos de qualidade geral de ensino, com os países do denominado terceiro mundo, e mesmo assim ficava mal… Neste momento Portugal compara-se com os países mais desenvolvidos do mundo e é aquele, dizem-no os estudos, que mais progressos tem feito ultrapassando países como, por exemplo, a Suécia, os Eua, etc…
      O que digo não é uma opinião são factos estudados… O ” achismo” português destrói a verdade… Normalmente fala-se sem dominar minimamente o que é a verdade, passando a nossa opinião, ou a impressão que ficámos do sistema ensino quando lá andamos, como algo de válido… Quando destruírem o Sistema Público de Ensino e o Sistema Nacional de Saúde aí é que vão ver como elas mordem… Da minha parte, por herança de família, estou-me borrifando tenho dinheiro para pagar o que for preciso, onde for preciso… assim como para os meus… Como muito bem expressa o Pacheco Pereira : continuem com essa conversa da treta e depois queixem-se!
      Qunto à avaliação profissional os professores já são avaliados … mas quem expressa uma opinião sem fundamentos, não deve adiantar muito argumentar , mais uma vez, com factos… A maior parte das opiniões que vamos ouvindo é construída a partir do que se ouve nas televisões com os comentadores de serviço… Admito, neste particular, que há uma grande falha no sistema educativo Português!

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here