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“Hoje vou falhar”

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Caro Alexandre

Eu sei que me comprometi contigo, que era suposto cumprir as regras que previamente acordamos e que eventualmente até esteja a defraudar as expectativas que os leitores do ComRegras têm para com esta rubrica, mas tive de tomar esta decisão. Vou falhar e não vou escrever nenhuma rubrica esta semana.

Estou na reta final da entrega do doutoramento… Tem sido difícil gerir este momento de stress com os cuidados aos filhos, as tarefas do quotidiano, com o trabalho diário na escola, com aqueles incidentes que acontecem (já te disse que fiquei sem o meu disco externo e todo o trabalho que lá estava? – felizmente já está resolvido). No meio disto tudo ainda dou formação ao sábado. Tenho dias em que acho que sou louca e que não vou aguentar. Nem sempre é fácil e tenho momentos em que me apetece desistir. Hoje estou a desistir do nosso compromisso. Não significa que seja para sempre, é só esta semana…. Alivia a pressão. Faz-me sentir melhor e mais capaz de enfrentar o resto. Resolvi expor-me assim e tenho a certeza que compreenderás.

Com estima,

Mónica

falhar_gritarAproveito para partilhar convosco uma história:

O Professor António chegou à sala de aula e enquanto aguardava que os alunos se sentassem, foi tirando o teste da sua mala. Estava muito satisfeito consigo mesmo, pois tinha a certeza que, sem descurar da exigência, tinha ali um teste acessível para todos os alunos.

Reparou no semblante da Margarida. Já andava assim há algumas semanas. Os seus pensamentos foram interrompidos pelo grito do Pedro, que se lamentava do Manuel, que terá dado um chuto na sua mochila ‘de propósito’. O Professor António lá mandou calar os alunos e relembrou as regras em dia de teste. “Que turma agitada esta… Hoje está ainda mais que o habitual”, pensou ele.

O professor começa a distribuir o teste. Quando chega à Margarida esta diz-lhe “Oh stôr, escusa de me dar o teste. Não o vou fazer!. Apesar da Margarida já andar com comportamentos desadequados há várias aulas, o Professor António não estava à espera daquela atitude. Mas o que se passa Margarida? Não vais fazer o teste porquê?”. “Porquê, porquê, porquê… Sempre o porquê! Toda a gente sempre a falar no porquê! Não me apetece! Não quero! Qual é o stress?!, retorquiu a Margarida. Começou a gerar-se um burburinho com alguns risos pelo meio. O professor não sabia muito bem o que fazer, pousou a folha do teste na mesa da Margarida e terminou de distribuir as restantes folhas aos alunos que ainda não tinham. Entretanto a Margarida continuava a reclamar que não ia fazer, que ia deixar em branco, entre outras frases que o professor não conseguiu perceber. Mandou-a calar mas o resto da turma não sossegava. Entre risos, colegas a incentivarem a Margarida a fazer o teste, comentários entre alunos copiando respostas sobre o teste que cada uma já tinha à sua frente… Tudo estava a deixar o professor com a sensação de estar a perder o controlo da turma. Já irritado dirigiu-se à porta, chamou o assistente operacional do piso e mandou a Margarida para fora da sala. “Era inadmissível a postura daquela menina. Tinha de aprender a saber estar … Que falta de modos. Bem merecia aquele ‘zero’ que ele lhe ia dar naquele teste”.

No Gabinete de apoio ao aluno, a estrutura que recebe os alunos com ordem de expulsão de sala de aula, estava a Professora Edite. Ela percebeu logo que a Margarida não estava para sermões, muito menos para cópias do Regulamento Interno. Com o objetivo de a acalmar e sem nunca a recriminar pelo seu comportamento, disse-lhe Margarida, não sei o que aconteceu mas tenho uma sugestão: que me dizes de escrever um texto para o Professor António, explicando os teus comportamentos. Não a mim, apenas ao teu professor que foi afetado com esta situação.”

A Margarida começou a escrever:

Caro Professor António

Eu sei que me comprometi consigo, que era suposto cumprir as regras que previamente acordamos e que vou deixar os meus pais tristes com isto quando souberem do que aconteceu, mas tive de tomar esta decisão. No intervalo decidi, ‘hoje vou falhar e não vou fazer o teste’.

Estou numa fase complicada na minha vida… Tem sido difícil gerir este momento de stress com os cuidados à minha avó que agora mora connosco, as tarefas de casa que tenho de partilhar com a minha mãe que trabalha 10 horas por dia, com as coisas da escola, com as cenas que acontecem todos os dias (já lhe disse que me zanguei com a minha melhor amiga, a Andreia? – felizmente já está resolvido). No meio disto tudo ainda ajudo o meu pai lá no café ao sábado. Tenho dias em que acho que estou doida e que não vou aguentar. Nem sempre é fácil e tenho momentos em que me apetece desistir. Hoje desisti do nosso compromisso. Não significa que seja para sempre, é só hoje…. Alivia a pressão. Faz-me sentir melhor e mais capaz de enfrentar o resto. Resolvi contar-lhe um bocadinho da minha vida e tenho a certeza que compreenderá.

Com estima,

Margarida

Mónica Nogueira Soares

 Psicóloga | Mediadora Familiar e Escolar | Formadora
mediação de conflitos

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