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Hoje não à escola (*) – Joana Marques

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(*) O título, ao contrário do que possa parecer, não está errado. Hoje o Governo resolveu dizer não à escola, o que garantirá trabalho extra ao copydesk de texto deste e doutros jornais, quando os cronistas do futuro enviarem textos intitulados “oje naum á xecóla”. “Que exagero!”, dirão. E claro que têm razão.

Não serão 15 dias sem aulas a comprometer uma geração inteira. Mesmo que esses 15 dias surjam na sequência de um ano em que as aulas presenciais também escassearam. O problema não está no momento presente. Está a montante, e a jusante, e em todos os outros conceitos que aprendemos nas aulas de Geografia, quando existiam.

Que no dia 22 de janeiro de 2021 toda as escolas, do Norte ao Sul do país, tenham encerrado (tirando o St Dominics, em Carcavelos, que achou que podia fazer só mais um exame presencial, como quem passa no semáforo amarelo com o vermelho já a cair), não é uma decisão polémica por aí além. Mais dia menos dia, mais 14 mil infetados, menos 300 infetados, todos acabaríamos por aceder à inevitabilidade do encerramento. Fora um negacionista ou outro, claro, o que até é estranho, visto que não parecem valorizar o que se aprende na escola, pelo menos em Ciências. Não é o facto de fecharem as escolas que aqui contesto, não sou nem daquelas mães que acham que as crianças ficarão traumatizadas para sempre com isto, nem das que acham um flagelo ter de aturar os miúdos fechados em casa (e só Deus sabe como são enervantes!, mas é quase insultuoso falar do “drama do teletrabalho” com crianças à perna quando há tanto médico e enfermeiro que adorava estar em teletrabalho longe daqueles horrores).

Sei que para muitas pessoas são, de facto, dramáticos os lockdowns, e pensei que nunca falaríamos deles no plural, já que António Costa garantiu que o país não aguentaria uma segunda edição deste filme, mas foi mais ou menos na mesma altura em que garantiu que “no início do próximo ano letivo, aconteça o que acontecer, vamos assegurar a universalidade do acesso às plataformas digitais para todos os alunos do Básico e Secundário”. O vírus até nos deu uma trégua, respeitando aquele clássico atraso em qualquer obra portuguesa, e não veio atrapalhar logo em setembro. Deu-nos tempo. Tempo suficiente para fazermos asneira, um pouco como acontece com os nossos filhos enquanto nós participamos numa reunião por Zoom.

O Governo não partiu o candeeiro com uma bola da Doutora Brinquedos mas incentivou a malta a brincar ao Natal e sobrecarregou os Doutores de verdade (não confundir com os “médicos pela verdade”, esses têm tido uns dias descansados). Agora é preciso agir. Mas a especialidade deste governo, ou não fosse constituído por cidadãos portugueses, é mais reagir. Reação rápida que, em Março de 2020, foi até elogiada. Somos o povo n.º1 no desenrasque. Aliás, acho que é a palavra que mais nos identifica, esqueçam lá a “saudade”.

No primeiro confinamento geral conseguimos estudar para o teste em cima do joelho e passar, mas depois passámos dois períodos inteiros sem pegar nos livros e chumbámos. Este Executivo não tem maturidade para ser encarregado de educação: em nove meses de gestação não se habituou à ideia de que vinha aí uma enorme responsabilidade. Agora que ficou com o menino nos braços (e nós a braços com os meninos), não sabe o que fazer. Agora é tudo ou nada e, estupidamente, acreditámos que íamos ter tudo. Ou pelo menos estudo, o famoso #EstudoEmCasa, que deu uma linda hashtag há uns meses. A fixação do Governo, nesta 1.ª fase parece ser, por um lado, convencer-nos de que isto se resolve em 15 dias e, por outro, comprar uma guerra com os estabelecimentos de ensino privados, agitando a bandeira da igualdade. Seria desigual que agora uns pudessem ter aulas à distância enquanto os outros gozam férias forçadas.

Mas não foi desigual, nestes meses, que alunos de colégios tenham podido assistir a aulas em casa, quando ficaram em isolamento profilático, enquanto na escola pública tal não foi possível? E não é desigual que uns tenham condições para a prática desportiva e outros tenham de correr num pavilhão que mete água? Não é desigual que uns tenham aquecedor e outros tenham de levar edredom para a aula de Inglês? E outros nem sequer tenham aula de Inglês porque não há professor? Este “velho normal” já não importa, só no “novo normal” é que importa combater os desequilíbrios. É como ter uma escola só com 200 vagas, e 250 alunos inscritos. Claro que não vamos excluir 50. Vamos construir mais um edifício? Não. Vamos demolir a escola. Problema resolvido.

Humorista

Fonte: JN

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