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Histórias De Professores Agredidos No Exercício Da Profissão

Uns ficaram com as feridas cravadas no corpo. Marcas de dentes, pisaduras, cabelos arrancados. Outros trazem-nas guardadas na alma e não sabem como livrar-se delas. Histórias de professores agredidos no exercício da profissão. Por alunos e por pais. Relatos de quem vive com um trauma impossível de curar.

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A indisciplina escolar torna-se mediática por vagas. Ou porque um aluno filmou uma agressão e divulgou, ou porque surgem várias notícias sobre agressões a alunos/professores/funcionários, ou porque um professor agride um aluno, etc. O que se passa neste momento é um somatório de várias situações que têm levado a uma avalanche de notícias sobre indisciplina/violência escolar. Sendo o ComRegras um blogue que nasceu exatamente para abordar a temática da indisciplina, estas notícias/reportagens não podem, nem merecem ser ignoradas.

Partilho por isso a reportagem completa do Notícias Magazine, autoria da jornalista Ana Tulha.


Quando ensinar dói

É como um filme de terror a passar em loop. Ele a dar aula, os gritos a aproximarem-se da porta, a senhora esbaforida, aos berros, um chorrilho de insultos, uma funcionária a meter-se no meio, mais insultos, insultos do piorio. “Filho da puta, cabrão de merda, não sujo as minhas mãos em merda como você.”

Minutos feitos eternidade, o pânico a apoderar-se dele, tudo a olhar, as mãos a tremer, incontroláveis, os alunos “horrorizados”. Foi há dois anos. Para Sandro Gonçalves, 47 anos, professor há 25, é sempre como se fosse ontem. “Lembro-me perfeitamente de pensar: ‘Eu preciso deste trabalho. Esta mulher não me vai tirar este trabalho.’”

Então, por instinto, com um sangue frio que ainda hoje não sabe explicar, pôs as mãos atrás das costas. “Senão ainda diziam que lhe tinha batido.” E ali ficou, exposto, incrédulo, à mercê da violência de uma mãe enfurecida. “Não me bateu”, esclarece. “Mas acho que só não o fez porque uma funcionária se apercebeu e se meteu no meio.”

Dos insultos não se livrou. E tudo, conta, porque tinha chamado a atenção da filha da senhora, no decorrer de uma aula de Físico-Química. Porque “não queria trabalhar”. “Ela não tem mais nada e sai da sala.” Quando voltou, já no segundo tempo, trazia a mãe. Sandro não sabe exatamente o que a filha lhe disse. Sabe que a mãe vinha fora dela, “descompensada”, a gritar impropérios em catadupa.

E sabia, soube logo, que não se podia ficar. Por isso, assim que pôde, pediu a uma funcionária que chamasse a polícia. E apresentou queixa-crime na hora. Mas a mãe enfurecida ainda não tinha desistido. Mais de duas semanas depois, apresentou-se numa esquadra para fazer queixa do professor da filha. Jurava que naquele 19 de outubro de 2017 o docente a tinha agredido. E cuspido.

Em tribunal, ficaria provado que não. Que naquele dia de pesadelo na Escola Secundária Passos Manuel, em Lisboa, Sandro até tinha as mãos atrás das costas. Já a encarregada de educação acabou condenada por denúncia caluniosa e injúria agravada, com uma pena de 1440 euros de multa (convertíveis em 160 dias de prisão em caso de não pagamento). Mais custas do processo. Um vislumbre de paz numa narrativa de assombro.

Sandro Gonçalves, professor há 25 anos, foi insultado pela mãe de uma aluna (Orlando Almeida/Global Imagens)

“Agora já consigo ter um raciocínio com fio condutor, mas só Deus sabe como andei. Uma pessoa ouve falar, sabe que pode acontecer, mas nunca se está preparado para uma situação assim.” Os dias que se seguem, então, são de desassossego puro. “Num primeiro momento tive medo, sim, porque ainda por cima eu vou a pé para a escola. Pensava sempre qual era o dia em que me ia acontecer alguma coisa. Depois fui digerindo.” Mas as marcas ficam. Ficam sempre. Mesmo que passem anos.

Brites Marques, 58 anos, 36 deles como professora de Educação Musical, sabe-o bem. Em 2006, na Escola EB 2/3 de Maceda (Ovar), onde ainda dá aulas, foi violentamente agredida pela mãe de um aluno com quem se tinha desentendido. A memória não se desvanece. Os pormenores também não. A repreensão ao aluno que estava a fazer desenhos na mesa, a forma como ele lhe sapateou a mão, os dedos dele marcados na pele (até porque, apesar de ter apenas dez anos, praticava judo), ela a agarrar-lhe os braços para o levar à Direção da escola, o menino a pedir desculpas em frente à turma e o problema aparentemente resolvido.

Mas não. A mãe haveria de pedir uma reunião com a professora e ela haveria de aceitar (“hoje não ia”, garante). Foi aí, na presença da então diretora da escola e do diretor de turma, que o caso resvalou para uma violência sem precedentes. “Entrou logo a matar, com palavrões e ameaças, a dizer que eu tinha dado sapatadas ao filho e o tinha arrastado como um saco de batatas.” Os berros eram tantos que a dada altura desistiu. Levantou-se e encaminhou-se para a porta. “Foi aí que ela partiu para a agressão.”

Os minutos que se seguiram foram de pesadelo puro. Murros, pontapés, cabelos arrancados à força. Dentadas também, umas quantas, ao ponto de ter ficado com a roupa rasgada e a marca dos dentes cravada na pele. Tudo perante o “pânico” da diretora da escola e do diretor de turma. Para piorar, a agressora trancou-a na sala. Foram minutos de um terror sem fim. “Depois consegui empurrá-la e a senhora lá caiu. Mas foram precisas três ou quatro pessoas para a segurar.” Foi então que Brites cedeu ao pavor. Entrou em taquicardia e teve de ser assistida pelo INEM.

Mas não se ficou. Foi à luta e, na barra do tribunal, conseguiu que a agressora fosse punida. Perto de quatro mil euros de indemnização, posteriormente reduzidos para metade. A docente, que também chegou a estar acusada de agressões, foi absolvida. Mas não há sentença que apague um episódio assim. Nem as sombras que vêm com ele.

“Marcou-me muito. Tive uma depressão muito grande. Mesmo curando, nunca passa completamente.” O relato das consequências é pesado. “Comecei a transpirar das mãos, tal era o medo de me cruzar com a senhora. E tive muitas noites mal dormidas. Durante muito tempo, quando ia dormir sonhava com aquilo. Ainda hoje fecho os olhos e vejo-os. Fiquei marcada para sempre.”

Professora Brites Marques, agredida pela mãe de um aluno em 2006, em Ovar (Leonel de Castro/Global Imagens)

Ao ponto de ver a paixão pelo ensino sofrer danos irreparáveis. “Não deixei de ter o gosto por ensinar, mas não sinto o gosto por o praticar nesta altura. Eu invisto muito na profissão [ainda hoje, aos 58 anos, está a fazer um doutoramento em Ciências da Educação], sempre dinamizei muitas atividades na escola, mas às vezes dou por mim muito desanimada. E ainda hoje, quando vejo uma situação de violência, me lembro daquele episódio. Fico muito receosa.”

“Um problema crescente”

As feridas de Brites são as mesmas de outras dezenas de professores. Centenas, talvez. Ninguém sabe ao certo. Porque os últimos números oficiais que há datam do ano letivo 2010/11. Nesse ano, segundo dados do Observatório de Segurança em Meio Escolar (OSME), houve perto de 140 agressões a professores. Entretanto, a atividade do OSME foi suspensa. E o rasto dos números foi-se perdendo.

Sabe-se, isso sim, que os casos se vão sucedendo. Que em fevereiro uma professora da Escola Básica da Torrinha, no Porto, foi agredida à porta do estabelecimento por uma encarregada de educação. Que em abril um docente da Escola Básica Francisco Torrinha, também no Porto, foi atingido a soco e pontapé por um aluno de 12 anos. Que em maio um aluno de 14 anos bateu numa professora e numa funcionária na Escola EB 2/3, em Abação (Guimarães). E que no mesmo mês uma docente da Escola Básica do Campolinho, em Valadares (Gaia), foi agredida pela mãe e pela avó de uma aluna.

Todos estes casos aconteceram em 2019 e foram noticiados pelo JN. Mas, garantem professores e sindicatos, os episódios noticiados são apenas a ponta do icebergue. Pelo país fora, haverá muitos outros, abafados por medo e vergonha. Por vezes, pelas próprias escolas.

“É um problema crescente [o das agressões a professores], que se tem vindo a agravar”, atesta Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares. “Lidamos cada vez mais com situações complicadas, que passam essencialmente pela falta de respeito que alguns alunos têm em relação aos professores. E há professores que têm medo de ter uma atuação mais rigorosa, porque temem as consequências.” Também a Federação Nacional de Educação (FNE) reconhece o problema. “A sensação que tenho, pelo que nos vai sendo transmitido pelos professores, é que se há escolas em que estes problemas não se passam, há outras em que são diários”, conta Pedro Barreiros, vice-secretário-geral da FNE.

Susana Costa Pinto, advogada do Sindicato dos Professores da Zona Norte, conhece estes relatos de trás para a frente. Em 30 anos da profissão, quase sempre ligada à área da educação, já lhe passaram pelas mãos dezenas de casos de agressões contra professores. “Passam-se coisas gravíssimas nas escolas”, alerta.

“Há casos de professores atingidos puxados pelos cabelos, atingidos com objetos, murros, pontapés, agressões graves. Mesmo contra os diretores das escolas. Há muitos casos de professores que têm de ser assistidos no hospital.” O sigilo profissional impede-a de mergulhar a fundo nos detalhes. Mas conta que, no geral, os problemas no primeiro ciclo são mais com os pais e no terceiro mais com os alunos.

Foi o caso de Marina. Professora há 40 anos, está há uma vida numa escola do centro do país (o apelido da docente e o nome do estabelecimento de ensino ficarão omissos, para salvaguarda dos mesmos), onde assumiu o cargo de coordenadora do gabinete de apoio aos alunos. Estava por isso habituada a tratar de casos de mau comportamento. E foi precisamente a tentar resolver um desses episódios que deu de caras com o lado mais negro da indisciplina.

Ao deslocar-se a uma sala de aula, para ajudar a solucionar um problema, deparou-se com um aluno provocador, sentado de pernas abertas, reclinado para trás, numa “postura de desafio”.

Enquanto isso, fazia comentários para o lado, provocando gargalhadas aos colegas enquanto Marina falava. “Tu vais pôr-te direito e vais-me deixar falar”, intimou-o. Mas ele repetia a graça. Fê-lo três vezes. Até que Marina o chamou para fora da sala, para lhe falar em privado. Aí, o desdém manteve-se. “Começo a falar com ele e ele vira a cara para o lado, com um sorriso irónico.” A docente não desiste. Tenta virar-lhe a cara na direção dela. O pesadelo começava aí.

Fora dele, o aluno, de 15 anos, sacudiu-a e empurrou-a (ao ponto de andar vários metros para trás). Depois, ainda voltou a agarrar-lhe os braços e a sacudi-la. Nisto, a campainha assinalou a hora de saída. E um magote de alunos deu de caras com aquele cenário. Mas, durante uns momentos, ninguém reagiu. “Apareceu depois uma miúda, que acho que é prima dele, a agarrar-lhe os braços.”

A polícia chegou. E Marina nem hesitou em avançar com uma queixa. Dois meses depois, em julho, foi chamada para prestar declarações, mas o caso continua por resolver. “Levei o caso a tribunal mais para servir de exemplo, para aquele aluno perceber que há atitudes que não se podem ter”, esclarece. E se o veredicto ainda está por chegar, o trauma provocado pelo episódio não mais a largou.

“Fiquei em choque. Tanto que, neste ano, quando vi o aluno novamente, tive de ir vomitar. Não sei se alguma vez isto vai passar. Não tanto pela dor física que isto me provocou, mas pelo resto. Depois daquilo, durante muito tempo, sonhava com situações de violência na escola.” O relato sai-lhe amargurado, pesaroso, com a angústia de quem, após anos a fio de devoção incondicional, se sente tomada pela descrença e a impotência.

“O fenómeno da indisciplina é bem real e começa cada vez mais cedo. Quando comecei, havia respeito. Agora, não quero chegar ao ponto de dizer que somos a ralé das profissões, mas por vezes sentimo-nos como tal. Há pais que têm para connosco um comportamento completamente inaceitável.”

Por isso, mas também por um conjunto de outras circunstâncias que vai apontando (“não está certo explorarem-nos até ao tutano”, acusa), sente-se a chegar ao limite. “Pela primeira vez, estou a pensar recorrer a atestados médicos para preservar a minha saúde. Estou em exaustão física e emocional. Sinto que vou ter de parar a qualquer momento. Só não sei quando. Há uns anos ainda tinha por que lutar. Agora já não vejo nada.”

“Papel de palhaço”

O grito de alma de Marina, professora há 40 anos, é um retrato negro de uma profissão que, garante quem a conhece por dentro e por fora, tem vindo a definhar. Sandro Gonçalves, o professor que, em outubro de 2017, foi insultado de tudo à frente da turma toda, e que neste momento está em casa, de baixa, usa palavras fortes. “Houve um tempo em que um professor, dentro da escola, tinha um papel de autoridade. Agora tem um papel de palhaço. Acho que nunca vi a classe tão desmotivada. Os professores sofrem em silêncio e os miúdos não aprendem.”

Luís Lobo, membro do Secretariado Nacional da Fenprof, concorda que os docentes têm vindo a perder poder dentro da escola, identificando algumas causas. “Antes, todas as estruturas das escolas, direção incluída, eram eleitas entre pares, os próprios conselhos diretivos das escolas tinham funções deliberativas. Agora, são meros órgãos consultivos. Os fenómenos de indisciplina também vêm daqui. Um professor que não tem poder que capacidade tem de exigir alguma coisa? Hoje, é muito provável que um professor que mande um berro a um aluno tenha lá depois os pais a chatear. Funciona assim.”

O dirigente da Fenprof aponta ainda o dedo à sobrecarga horária (entre componente letiva e não letiva, um professor do segundo e terceiro ciclos trabalha quase 50 horas por semana, garante) e ao excesso de alunos por professor. “Há professores que para terem um horário completo chegam a ter nove/dez turmas. Isto representa quase 200 alunos por ano.”

Ora, defende Luís Lobo, esta sobrecarga traz um maior desgaste e uma menor capacidade de concentração, que por sua vez podem potenciar o agravamento da indisciplina. Já Manuel Pereira, da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, enfatiza o rombo que a imagem da classe tem vindo a sofrer. “Os professores não têm sido bem tratados. Tem sido construída uma imagem, ao longo de sucessivos governos, que nem sempre é abonatória. Isto depois paga-se caro. Hoje em dia, boa parte dos alunos não olha para a escola e para os professores como referências.”

Os problemas não ficam por aqui. Há também o envelhecimento (a classe docente portuguesa é mesmo das mais envelhecidas da OCDE, confirmou a organização em setembro do ano passado). E a falta de meios e de preparação das escolas para lidar com problemas que em muito extravasam a esfera do ensino.

O episódio ocorrido na semana passada, numa escola do primeiro ciclo do interior norte, é a prova disso. Um aluno com distúrbio de comportamento, que já tem acompanhamento médico e está medicado, bateu em várias professoras, porque lhe foi retirado o telemóvel (que não podia ter dentro da escola). O caso não foi divulgado na comunicação social, mas, por se sentir impotente face ao problema, uma das professoras envolvidas acedeu falar à “Notícias Magazine” sob anonimato.

“É um menino do primeiro ciclo, que já tem bastante físico e que não pode ser contrariado. Neste caso, começou a dar socos e pontapés a tudo o que lhe aparecia à frente. Tentámos segurá-lo mas foi o descalabro. Ficámos todas com pisaduras nas pernas e nos braços”, conta uma das docentes agredidas. A principal preocupação da professora é o bem-estar da criança, ainda assim. Até porque não se trata de um caso de indisciplina pura. “Quando fica assim, não o conseguimos controlar. Precisamos de apoio porque a situação está a fugir-nos das mãos. É um sentimento grande de impotência.”

O caso distingue-se de outros que há pelo país fora, em que as agressões se explicam quase só com a indisciplina. A sensação de impotência, essa, é a mesma de inúmeros professores.

Questionado pela “Notícias Magazine” sobre o tema, o Ministério da Educação condena “veementemente toda e qualquer agressão contra professores”, lembrando que “os encarregados de educação são também responsáveis por cultivar o respeito pelos docentes, pelo que qualquer agressão perpetrada por estes é altamente condenável”.

A tutela garantiu ainda que “quando se verificam casos desta natureza, há apoio [de ordem burocrática] para a apresentação de queixa-crime, sempre que solicitado pelas vítimas, e nos casos mais graves é assegurada a transferência do aluno agressor ou que tem familiares agressores para outras escolas ou encontrada forma de obviar que o docente agredido volte à mesma escola, em caso de trauma”.

A Fenprof aponta outras possíveis soluções. “O Ministério devia criar uma estrutura que desse aconselhamento aos professores, mas também que os acompanhe no plano jurídico e psicológico, porque são marcas difíceis de ultrapassar”, sugere Luís Lobo, que aponta ainda para uma espécie de “contratualização tripartida”, entre alunos, pais e professores, para responsabilizar todas as partes envolvidas. A FNE, por sua vez, pede mais autonomia das escolas e uma simplificação de tudo o que é carga burocrática para os professores.

Já Filinto Lima chama a atenção para a importância de tratar os docentes “com carinho”. “O exemplo tem de vir de cima. Dos pais e dos políticos que não tratam os professores com carinho. O próximo Governo terá obrigatoriamente de os tratar com carinho. Se não o fizer, pode estar a potenciar atitudes de agressividade por parte dos pais. Indesculpáveis, claro está.”

De resto, defendem dirigentes e sindicatos, para que o problema das agressões possa ser encarado de frente, é importante que se denunciem todos os casos do género. Também por isso, Brites Marques, professora de 58 anos que ainda hoje carrega as marcas de uma agressão ocorrida em 2006, deixa um recado, em tom de apelo, a todos os colegas que a possam ler. “Há muita vergonha. É quase como o que acontece com uma situação de violência doméstica. Mas é preciso denunciar. Hoje, ia à luta outra vez. É essa a mensagem que deixo a quem passe pelo mesmo: vão à luta, não se calem.”

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