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História, perfil e práticas

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O presente texto surge (ainda) na sequência do debate sobre o perfil do aluno para o século XXI e da configuração curricular que se lhe pressupõe. Tem uma ideia que o atravessa, ou melhor, duas ideias Uma primeira assente na reconfiguração da ação política e educativa de sucessivos governos. Uma segunda ideia sobre o local, na necessidade de, em cada escola, se definir o perfil do seu aluno (como do seu professor), se estruturarem metodologias de trabalho individualizadas e diferenciadas (face ao coletivo). É pela dimensão da História (que os discursos carregam e que o local assume na sua cultura) que cruzo uma e outra ideia em processo assumido de (re)construção local do currículo.

Em termos políticos, mas não só, há um constante início. E não se trata de processos de reconfiguração, trata-se mesmo de inventar, de criar, como se fosse a primeira vez, como se fosse este o ponto/momento de chegada. O presente é o êxtase em si, sem nada por trás. Em termos de ação política não sei se pela sofreguidão de deixar marca, se pela demarcação de  discursos, faz-se tábua rasa de muito (ou de tudo) o que está para trás. Anula-se, pelo discurso e pela retórica, tudo o que se fez e procura-se um “renascer, adquirir um eu diferente e mais atraente”, numa espécie de disputa de ideias como de argumentos. O presente ganha preponderância, vale por si, como se fosse único e não tivesse sido resultado do que lhe ficou para trás.

Os tempos que correm não estão feitos para as ciências sociais, menos ainda para a História. As ciências sociais requerem tempo, relações, modos, o delinear de uma estratégia. Estão assumida e cientificamente orientadas para os processos, para que os resultados não sejam um fim em si mas fruto do que está para trás – processos, relações, estratégias e opções. Os tempos que correm estão orientados para os resultados, para um fim em si. O modo de ação do presente desvaloriza o que está para trás, como aqui se chegou. Desvanece, por outro lado, o futuro, como se o presente se prolongasse, se distendesse e fosse ele mesmo, futuro.

O local, a escola individualmente considerada, em contrapartida vive de processos de sedimentação. É fruto de uma cultura que se alimentou ao longo do tempo, de gerações, de pessoas. É feita da profusão de imagens que sobre ela se depositam, em pequenas camadas justapostas. Ideias feitas de professores, dos alunos, das relações, dos amores e dos desamores ali vividas, naquele espaço em concreto, que se sentiram. A escola é feita de tempo, por muito que se diga que não há tempo que nos chegue. É este tempo que faz com que o imprevisível das relações se torne ajustável ao quotidiano, porque olhamos à longa duração. É o tempo que torna governável a aleatoriedade dos comportamentos escolares (e não só), porque se diluem na turma seguinte, na continuidade e não num presente que nos atormenta.

Entre a pretensa fluidez de políticas e argumentos de governo, que nos impõem a modernidade como salvação e o presente como futuro, e a cultura e manutenção de uma história local estão as práticas. Práticas que se orientam pelas normas nacionais, mas que as recriam em processo de adaptação e contextualização local. É aqui, neste processo de re criação local (tendo com um dos seus filtros a história e as culturas locais), que reside a segurança e a garantia de futuros. É aqui, na ação local de re criação de processos e modos de ação escolar e educativa, que as escolas devem assentar e aproveitar experiências, práticas, modos de fazer e de ser para definir o perfil do seu aluno ou as estratégias curriculares de ação. É na valorização do que é nosso, do feito e existente que se deve definir e começar a (re)construir o futuro. Saiba-se valorizar o local, as suas práticas e culturas e, essencialmente, os seus atores. são únicos.

Manuel dinis P. Cabeça

Coisas das aulas

13 de março, 2017.

1 COMMENT

  1. A discussão sobre qual é o perfil do aluno que pretendemos ter e como podemos ter cidadãos bem sucedidos na sua vida pessoal, social e profissional é algo extremamente necessário. O que é que queremos que os nossos alunos saibam fazer quando saírem do ensino obrigatório? Podemos discordar das propostas feitas, mas era bom perceber em que pontos exatamente discordamos…é alguma das competências enumeradas que não concordamos ser fundamental? São os descritores operacionais que não estão bem? É o quê exatamente? É que invocar constantemente o saber criado na prática sem o usar para discutir um documento em concreto parece-me completamente inútil. A discussão estava aberta e era suposto ser construtiva, para que tivéssemos todos um documento final excelente, com que todos ficassem contentes e que assegurasse a tal estabilidade na educação que tanto desejamos. Mas para isso é necessário que as pessoas e instituições realmente leiam e discutam os documentos e as ideias e queiram colaborar.

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