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Happy hour

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Sentada à janela a apanhar o solinho morno de fim de dia, a menina Isabelinha folheava, sem olhar, a revista de eventos sociais que tanto apreciava. A menina Isabelinha considerava que o fim do dia à sua janela era infinitamente melhor do que as vidas esfusiantes das celebridades. Deslumbrava-a o fervilhar da sua rua.

Happy HourAs crianças a regressar da escola, coladas à passada impaciente das mães, as mochilas obesas a deslizar pelas costas. Os vizinhos velhotes, a quem ninguém punha os olhos desde a excursão matinal ao centro de saúde, parecem experimentar agora um inusitado prazer em visitar a mercearia do Sr. Abílio, onde acorrem em magotes vagarosos, como se convocados telepaticamente por uma misteriosa força superior.

As mãos bonitas das mulheres correm, hábeis, a colher dos estendais a roupa que penduraram antes da labuta. As conversas saltam de janela para janela, de um prédio para o outro. Sabem-se notícias dos doentes, tecem-se críticas às condições atmosféricas, avalia-se o grau de humidade das toalhas turcas e elabora-se sobre a carestia da vida. A rua enche-se de vozes que pairam entre os prédios como pássaros e que transportam consigo reflexões filosóficas acerca dos insondáveis mistérios da vida em geral e da dos vizinhos em particular.

O senhor coronel Lacerda, do quarto esquerdo, já desceu ao átrio para verificar a caixa do correio, hábito diário que, estranha e invariavelmente, coincide – mais minuto menos minuto – com a chegada da Shirlei, a brasileira colorida da tabacaria, a quem o senhor coronel atira um sorriso sonso, logo seguido de um pestanejar baboso que a escolta ao longo do primeiro lanço de escadas como a gosma de uma caracoleta.

A menina Isabelinha nunca viveu noutro sítio. É daquele primeiro andar alto e soalheiro que observa, com requintes de fã obsessiva, o pulsar único da sua rua. Às vezes, quando o calor e a tardança do estio o justificam, a menina Isabelinha vai buscar uma cerveja fresquinha e um pires de tremoços e para ali fica, consoladinha, como uma espectadora assídua e incansável de um musical arrevesado mas bem produzido e resistente à erosão dos anos.

MC

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