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Há mais de um ano que ouço falar neste estudo…

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No dia 18 de julho saiu esta notícia no DN.

PROFESSORES NÃO TÊM FORMAÇÃO PARA LIDAR COM A INDISCIPLINA NAS SALAS DE AULA

Há um défice de formação para lidar com a indisciplina em Portugal, de acordo com um estudo que está a ser desenvolvido pela Universidade do Minho e que contou com a colaboração de três mil professores. 60% dos participantes, muitos no ensino há várias décadas, afirmaram nunca ter tido qualquer formação específica para lidar com este problema, que até ao 25 de Abril de 1974 era resolvido através da aplicação de castigos severos com réguas e canas-da-índia. A situação agrava-se quando 85% dos participantes consideram que a indisciplina “aumentou significativamente, ou muito significativamente”, nas salas de aula nos últimos cinco anos.

UMINHO_-_LOGO_2Este estudo começou a ser feito há mais de um ano e foi apresentado na Assembleia da República no passado mês de maio, numa conferência sobre “Indisciplina em Meio Escolar”. A mesma conferência onde o ComRegras foi citado pelo Vice-Presidente da ANDAEP, Filinto Lima, e que foi publicada aqui. Portanto, a notícia de 18 de julho do DN é uma não notícia, o que não é novidade, pois basta estarmos atentos aos telejornais para assistirmos a várias notícias em loop. A novidade neste caso foi dar uma não notícia com mais de um mês e meio de atraso…

Sobre o estudo propriamente dito, eu vi o seu inquérito e respondi ao mesmo. Em maio já tinham respondido aproximadamente 3500 professores, uma amostragem curta tendo em conta o universo docente, mas infelizmente a adesão voluntária para responder a inquéritos desta natureza está pelas ruas da amargura… Se este estudo continua a ser desenvolvido, certamente que não deve ser à custa do mesmo inquérito, tal não faria sentido tendo em conta que já passou um ano desde o seu início. Continuo a aguardar as conclusões finais deste estudo, que considero muito relevante, mas infelizmente tarda em terminar.

Ao menos esta notícia serviu para que o blogue Atenta Inquietude, fizesse uma análise bastante lúcida sobre a indisciplina em Portugal e que vale a pena ler.

INDISCIPLINA ESCOLAR. PROBLEMAS NOVOS, SOLUÇÕES NOVAS

Segundo um estudo em curso realizado pela Universidade do Minho envolvendo 3000 professores, 60 % dos participantes revela não ter recebido formação específica para lidar comproblemas de indisciplina na sala de aula. Cerca de 85 % considera que a ocorrência de episódios de indisciplina aumentou nos últimos cinco anos.

Os professores inquiridos referem (por esta ordem) a família, as políticas educativas, os alunos, as direcções de escola e os próprios professores como factores contributivos para situações de indisciplina

Outros estudos sugerem que uma parte bastante significativa do tempo dos professores em sala de aula é gasta na gestão do comportamento dos alunos em detrimento das tarefas de ensino.

Algumas notas.

Em primeiro lugar julgo que importa clarificar o que está em causa. Permitir, por exemplo, que um telemóvel toque na sala de aula ou outros comportamentos desadequados em sala de aula ou na escola serão indisciplina, insultar, humilhar, confrontar fisicamente um professor, comportamentos frequentes de agressão ou roubos a colegas configuram pré-delinquência ou delinquência e comportamentos disruptivos podem ainda estar ligados a perturbações de natureza psicológica.

A escola não pode ser responsabilizada e considerada competente por e para todo este universo de problemas nos comportamentos dos mais novos. Para situações de pré-delinquência ou perturbações do comportamento pode, evidentemente, dar contributos mas não assumir a responsabilidade pelo que importa clarificar a análise.

Centremo-nos então na indisciplina escolar que considero matéria de competência da escola e matéria de responsabilidade de toda a comunidade, incluindo os pais, naturalmente, e todas as figuras com relevância social, por exemplo, não se riam, políticos ou jogadores de futebol.

O Estatuto do Aluno, no qual o MEC depositava públicas esperanças que me pareceram, desde sempre, sobrevalorizadas e desadequadas face aos seus conteúdos e à realidade das escolas e comunidades actuais, qualquer que seja, é um regulador, melhor ou pior, mas nunca A solução e, pela mesma razão, nunca será A causa da indisciplina. Daí a minha reserva face aos discursos do MEC acreditando que do lado de fora da escola os problemas se resolverão.

Parece-me também de referir que todas as figuras sociais a que se colam traços de autoridade por exemplo, pais, professores, médicos, polícias, idosos, etc., viram alterada a representação social sobre esses traços. Dito de outra maneira, o facto de ser velho, polícia, professor ou médico, já não basta, só por si, para inibir comportamentos de desrespeito pelo que importa perceber o impacto destas alterações nas relações entre professores e alunos.

As mudanças significativas no quadro de valores e nos comportamentos criam dimensões novas em torno de um problema velho, a indisciplina. Daqui decorre, por exemplo, que restaurar a autoridade dos professores, tal como era percebida há décadas, é uma impossibilidade porque os tempos mudaram e não voltam para trás. Pela mesma razão, não se fala em restaurar a relação pais – filhos nos termos em que se processava antigamente e falar da “responsabilização” dos pais é interessante, mas é outro nada.

Um professor ganha tanta mais autoridade quanto mais competente e apoiado se sentir. O apoio aos professores é um problema central no que respeita à indisciplina mas não só.

Assim sendo, o MEC não pode desenvolver políticas que socialmente deixem o professor desapoiado, que comprometam o clima e a qualidade de trabalho nas escolas e, simultaneamente, afirmar que vai restaurar a sua autoridade e promover a sua valorização social. Também por isto se questiona a incompetente constituição de mega-agrupamentos e de escolas e turmas com dimensões excessivas, variável associada à indisciplina escolar.

É também importante reajustar a formação de professores. As escolas de formação de professores não podem “ensinar” só o que sabem ensinar, mas o que é necessário ser aprendido pelos novos professores e pelos professores em serviço. Problemas “novos” carecem também de abordagens “novas”.

Parece também importante a existência de estruturas de mediação entre a escola e a família o que implica a existência de recursos humanos qualificados e disponíveis. Veja-se o trabalho dos GAAFs apoiados pelo IAC, experiências no âmbito da intervenção da Associação EPIS ou iniciativas que algumas escolas conseguem desenvolver e que permitam apoiar os pais dos miúdos maus que querem ter miúdos bons e identificar as situações para as quais, a comprovada negligência dos pais exigirá outras medidas que envolvam, eficazmente e em tempo oportuno as CPCJ.

Um caminho de autonomia, com a alteração desejável dos modelos de organização e funcionamento das escolas e na gestão curricular, deveriam permitir que as escolas, algumas escolas, mais problemáticas tivessem menos alunos por turma, mais assistentes operacionais com formação em mediação e gestão de conflitos ou ainda que se utilizassem, existindo, professores em dispositivos de apoio a alunos em dificuldades.

Por outro lado, os estudos e as boas práticas mostram que a presença simultânea de dois professores é um excelente contributo para o sucesso na aprendizagem e para a minimização de problemas de comportamento bem como se conhece o efeito do apoio precoce às dificuldades dos alunos.

As dificuldades dos alunos estão com muita frequência na base do absentismo e da indisciplina, os alunos com sucesso, em princípio, não faltam e não apresentam grandes problemas de indisciplina.

Os professores também sabem que na maior parte das vezes, os alunos indisciplinados não mudam os seus comportamentos por mais suspensões que sofram. É evidente que importa admitir sanções, no entanto, fazer assentar o combate à indisciplina nos castigos aos alunos e, eventualmente, nas multas e retirada de apoios aos pais, é ineficaz, é facilitista na medida em que é a medida mais fácil e mais barata, é demagógica porque vai ao encontro dos discursos populistas que aplaudem a ideia do “prender” do “expulsar” até ficarem só os nossos filhos.

O problema é quando também nos toca a nós, aí clamamos por apoios.

Os discursos demagógicos e populistas, ainda que bem-intencionados, não são um bom serviço à minimização dos muito frequentes incidentes de indisciplina que minam a qualidade cívica da nossa vida além, naturalmente, da qualidade e sucesso do trabalho educativo de alunos, professores e pais.

Zé Morgado (2015). “INDISCIPLINA ESCOLAR. PROBLEMAS NOVOS, SOLUÇÕES NOVAS”. http://atentainquietude.blogspot.pt/, 18 de julho.

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