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(H)À Educação: “Se eu sei que não gosto de tomate, porquê provar?”

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“Mas se eu sei que não gosto de tomate, porque querem que prove?” – perguntou o Tiago quando participou numa atividade que pretendia fomentar o gosto e interesse por fruta e vegetais. A investigação mostra que é preciso provar repetidamente. Como fomentar a prova repetida de alimentos que as crianças não gostam? Um grupo de investigadoras do CIDTFF, da Universidade de Aveiro, explica na rubrica (H)À Educação.

Lisa Afonso, Sara Aboim, Patrícia Pessoa, Xana Sá-Pinto

Apesar da importância do consumo de fruta e vegetais, muitas crianças recusam estes alimentos. Em resposta, muitos adultos usam estratégias que a investigação mostra serem ineficazes: deixam de os oferecer ou pressionam a criança a comer, com frases como “não sais da mesa sem comer a sopa toda”. Mais do que incentivar o consumo, há que incentivar o gosto e, para gostar é preciso provar. E a investigação mostra-nos que é preciso provar repetidamente. Então, como fomentar a prova repetida de alimentos que as crianças não gostam?

A pergunta do Tiago tocava este ponto fundamental. Baseado em investigação no âmbito da educação alimentar, o projeto ‘Sabor da Diversidade’ ajuda a lidar com esta recusa.

Neste projeto apresentamos às crianças do 1º CEB quatro variedades de tomate e convidamo-las a classificarem o seu sabor para responderem à pergunta “Diferentes variedades de tomate têm o mesmo sabor?”. De seguida pedimos-lhes que expliquem as diferenças que observam e que as testem com atividades experimentais.

Neste cenário, a prova do alimento reveste-se de um interesse adicional para a criança, mais lúdico e menos associado à necessidade de consumo. Para a maioria das crianças que não gostavam de tomate, este incentivo foi suficiente para provarem. Para os que se recusaram a provar, a diversidade apresentada e a pergunta que fazíamos foi essencial.

Assim, à pergunta do Tiago, respondemos perguntando: “Não gostas de tomate, mas já provaste todas estas variedades?” Para algumas crianças, esta pergunta foi suficiente para despertar a curiosidade e a vontade de provar. Mas não para o Tiago. Para ultrapassar a recusa, pedimos que nos falassem de alimentos relativamente aos quais a sua preferência tivesse mudado. Ouvimos vários exemplos: “Eu não gostava de feijão preto e agora gosto”, “Eu não conseguia comer canja e agora adoro”.

Usando estes exemplos, discutimos a importância de provar um alimento diversas vezes, salientando que as preferências mudam ao longo da vida. Esta discussão resultou com alguns alunos, mas o Tiago ainda não estava convencido. Oferecemos-lhe então poder de escolha e controlo sobre a prova que realizaria; poderia escolher a variedade, o tamanho do pedaço a provar e as suas características (com/sem “pele”, com/sem sementes). O Tiago cortou então uma minúscula porção de tomate e meteu-a à boca. “Afinal não é assim tão mau” declarou. Depois, sozinho, provou e classificou as 4 variedades de tomate.

Na segunda sessão quando os alunos se preparavam para planificar e executar experiências para testar as hipóteses que haviam colocado na sessão anterior, o Tiago correu a mostrar-nos a lancheira muito orgulhoso. Na nossa atividade tinha descoberto que gostava muito de tomate cherry e começou a consumi-lo regularmente ao lanche. Olhámos umas para as outras felizes: para o Tiago a nossa abordagem tinha funcionado! E de facto, os nossos resultados, publicados na revista internacional Public Health Nutrition em outubro de 2020 , mostram que não foi só com o Tiago.

Esta abordagem aumentou significativamente a preferência e o interesse de provar tomate. Quer conhecer o resto da história e saber mais sobre a atividade que desenhámos e que promoveu o gosto e vontade de provar vegetais? É professor e gostaria de trabalhar connosco fomentando o gosto por frutas e vegetais enquanto realiza com os alunos atividades experimentais? Então visite o nosso site em https://sabordadiversidade.wordpress.com/ e contacte-nos!

Lisa Afonso, Sara Aboim, Patrícia Pessoa, Xana Sá-Pinto

Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro

Email: [email protected]; [email protected]

Fonte: Universidade de Aveiro

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