Início Escola Fazer greve, porquê? Também porque o ministro mente.

Fazer greve, porquê? Também porque o ministro mente.

8117
13

Para começo, e não é razão pequena, porque sinaliza ao governo de esquerda (que eu apoio, por princípio, e por isso critico) que está a governar mal.

A greve não vai resolver nada de imediato. Os profs e o setor de educação tem a fama de serem eleitorado dos partidos do governo. Mas o proveito tem sido pouco (até face ao resto do setor público). E o que se diz por aí sobre devoluções tem sido muito exagerado.

Tendo sido colocado um grupo de amadores diletantes em assuntos de Educação, a mandar no problema administrativo mais complexo do país (o seu sistema educativo), a prestação tem sido uma desgraça: concursos mal geridos e a desrespeitar direitos das pessoas (e a atirar as culpas para cima das vítimas), trabalhadores auxiliares em falta, trapalhadas nos manuais, abordagens em mau ângulo estratégico (por exemplo, como dizia o Paulo Guinote, há dias, em vez do PTE, porque não um PHE – um plano humano da educação?).

As agressões têm mais de10 anos

Podemos, como docentes, ter muitas diferenças de opinião entre nós, mas creio que todos concordamos que, desde que tomou posse Maria de Lurdes Rodrigues e na sua sequência, a governação da educação tem sido um atabalhoamento só e que um dos traços tem sido fazer de nós os inimigos (uns carregam mais, outros disfarçam mais). A Autoridade Nacional de Proteção Civil e a sua confusão visível, com tão dramáticas consequências, é uma amostra pequena para comparação das confusões políticas e administrativas que grassam no ME.

Os mandantes (que tenho dificuldades em dizê-los “governantes”) preferem a hipertrofia da discussão curricular (e da sua alegada flexibilização), feita nas nuvens, com razoável folclore e com menosprezo do estudo real dos problemas de funcionamento das escolas. Governam para implementar teorias mal fundadas e não para resolver os problemas. Acham, aliás, que o problema é os professores precisarem de mais formação e que é em nós e na nossa insinuada vetustez e arcaísmo mental, que reside a crise do sistema. Nada sobre os pais que não educam, sobre a indisciplina larga e tolerada, sobre carências socio-económicas dos alunos ou falta de recursos, falta de participação e de organização nas escolas.

Somos governados com mitos e castelos nas nuvens

Tais mandantes acreditam no mito do que dizem ser autonomia, desregrada e deixada ao abandono dos tiranetes locais (que pouco de bom tem trazido, para lá de aumento da papelada) e esquecem que, se ouvissem mesmo os professores, como se ufanam de ouvir os alunos, talvez melhorassem as abordagens.  Não iriam ouvir o que gostam, mas ouviriam verdades, que, encaradas, talvez resultassem melhor que os seus castelos no céu. E ouvir os professores não é ouvir o Conselho das escolas (na verdade, conselho dos diretores). A desordem, desorganização, abusos de poder e enterramento em papeis inúteis grassam, mas o ministro e seus auxiliares continuam a fantasiar sobre a escola do futuro e novas alfaiatarias (pelo menos é o plano de marketing do momento, a escola-alfaiate, diz o ministro). Que os alfaiates perdoem a tais marteleiros….Querem escolas de olhos bonitos, com computadores luzentes e ideias prá-frentex, mas esquecem-se que, para isso, precisam de cuidar dos intestinos do sistema: essas coisas malcheirosas e que criam dores de cabeça, como salários, desburocratização, distribuição do poder (sem descentralizações atamancadas ou terminando a criação de tiranetes) ou queixas de trabalhadores. E já agora, para quando os computadores funcionarem, com internet que não seja para lesmas…

Será que quem me lesse, sem ser professor, acreditaria, por exemplo, que, no nosso sistema educativo, não há uma definição legal inequívoca de aula (tempo letivo)? Imaginem que na Saúde não se sabia o que era uma consulta ou na Polícia o que era um patrulhamento?

Como ninguém sabe o que é um tempo letivo, tudo o pode ser e esmifra-se melhor os professores. É essa a lógica de solução dos problemas: esmifrar. Diz o dicionário: “Extorquir dinheiro” e para os lados do Minho, terra do ministro e minha: “Rasgar ou desfazer em pedaços. = ESFORRICAR”

Realmente “flexibilizar o currículo” é capaz de ser ocupação bem mais divertida para as meninges governantes que negociar as bases de organização do tempo de trabalho de uma função com mais de uma centena de milhar de trabalhadores. Mas nada se fará sem meter as mãos nos reais problemas.

Por isso, fazer greve, na sua aparente inutilidade e falta de efeito, é uma forma de ser ouvido para ver se estes senhores e senhoras do Governo (acolitados pelos agentes de voz passiva, BE e PCP) acordam para a vida…

Prejuízos….um dia por conta de dezenas de euros por mês…

E não me venham com a conversa de que prejudico os alunos. Uma greve é mesmo isso. Algo que existe para perturbar e mostrar zanga. O prejuízo não vai ser muito (um dia), bem menos que o que algumas pseudoatividades da pretensa escola flexível ou “turmas mais” e projetos variados, de tipo recreativo e de base frágil, irão trazer à real aprendizagem. E, por mim, até podiam ser mais dias: os alunos ganhavam mais, se a greve fosse bem sucedida em produzir mudanças reais, que seriam boas para eles. E creio que iremos fazer mais dias nos tempos próximos.

Além disso, do ponto de vista clássico, do que seja uma greve salarial, só tenho motivos para a fazer: se não tivesse havido congelamento e cortes, com perto de 22 anos de carreira e 45 de idade, estaria agora a ganhar cerca de mais 500 euros brutos mensais e teria uma redução de tempo letivo de 2 horas (que não valia nada porque, insisto, ninguém sabe o que é tempo letivo e é basicamente tudo o que algum diretor mais afoito, ache que cabe num horário).

Mas faço greve por outros motivos menos egoístas: porque o Estado desrespeita os contratados (e não sou contratado mas lembro-me como era), adia os direitos dos mais velhos à reforma ou penaliza os doentes, lançando suspeições, que não prova, sobre os motivos da quantidade de faltas e fazendo propaganda bacoca de que vai “moralizar”. Além disso, acho imoral que os assistentes técnicos e assistentes operacionais façam greve (descontando um dia ao seu salário mínimo) e fechem as escolas, dando efeito à greve, e os professores, que tem mais a ganhar, se encostem à greve dos outros.

Acima de tudo, faço greve porque, falando de moralidade, o Ministro mente. Enlevado nas fantasias da escola do século XXI, acha que todos nós somos lorpas. Especialista em ideias vagas sobre o sistema de ensino disse há dias que “Os professores não serão prejudicados face aos outros trabalhadores em funções públicas no descongelamento de salários”.

Se precisa mesmo que lhe expliquem porque não é isso verdade, será que está bem no lugar que ocupa?

Perdeu-se, por uns tempos, um muito bom cientista, para ganhar um muito mau ministro.

13 COMENTÁRIOS

  1. A partir do momento em que a arqui-criminosa Maria de Lurdes Rodrigues entrou para o Ministério da Educação, o Ensino em Portugal afundou completamente.
    Deixou de haver democracia nas Escolas e o descontentamento dos professores passou a ser uma constante.
    Sem trabalhadores (neste caso, professores) satisfeitos, o trabalho não rende.
    A implementação dos directores escolares foi a promoção dos incompetentes, dos não-professores, pois, antigamente só iam normalmente para tarefas burocráticas os que não sabiam ser professores dentro de uma sala de aula. Estes foram PREMIADOS. O lixo foi PREMIADO!!!

    E tudo com um objectivo: levar os professores à exaustão.
    Para serem obrigados a pedir a reforma antecipadamente, com um corte brutal no valor da pensão.

    Enganam-se os governantes cínicos que assim pensam. Razões economicistas, dirão…
    Não. Os professores não se irão governar com um pouco mais do ordenado mínimo se se reformar aos 60 anos.
    Ele irá cair no ‘burn-out’, na depressão… e entrar em baixa prolongada.
    Sofrerá.
    E acabará por sair mais caro ao Orçamento.
    Os economicistas falharam. Os directores escolares incompetentes e inúteis (se não o fossem demitir-se-iam) irão levar até ao fim a sua tirania. Serão odiados por todos aqueles que agora lhe sorriem por conveniência.
    A maldade é paga com cinismo.

    Um professor que se reformou quando a arqui-criminosa Maria de Lurdes Rodrigues entrou!!!

  2. Partilho da mesma opinião, estão aqui descritos nestas palavras razões suficientes para fazer uma greve e 100%, por isso acho que devemos fazer greve mas uma greve em que nos façamos ouvir e que estejamos todos unidos porque caso contrário não adianta faze-la…fazer greve com 1000 professores enquanto 2000 estão a trabalhar, nunca iremos a lado nenhum….

  3. Eu não faço greve porque me mentem.
    ” meu pai, minha mãe mentiu, meus amigos mentem, meus filhos mentem , minha mulher mente, eu minto”, não faço greve porque sim.. e porque não…
    Faço greve para fazer sofrer,faço greve para fazer doer, faço greve para fazer sentir o meu desagrado, faço greve para demonstrar a minha força….
    Como acima descrito , só faço greve em dias de processamento de salários, para assim retardar o pagamento dos vencimentos (assim todos sentem os efeitos), só faço greve setorial (só dos administrativos) porque sei que os hospitais deixam de ter consultas,os tribunais deixam de ter atendimento, as finanças não atendem ao balcão, as escolas deixam de atender os alunos e também os ministros deixam de ter quem atenda telefones, aponte mensagens transcreva ofícios etc. Os administrativos não precisam de mais nenhum grupo de trabalho para negociar. Eu só quero fazer sentir a minha falta (administrativa) e não preciso dos outros para tal ( bastam-me os meus colegas administrativos), só os administrativos paralisam o Pais.

  4. Eu até que gostaria de fazer greve. Mas efetivamente não me é dado esse direto. Tendo apenas turmas dos cursos profissionais, tenho de dar as aulas e ponto final.

      • Sim. Pode ser descontado no ordenado e fazer o trabalho na mesma acumulando umas horas extraordinárias que não lhe vão pagar. Quem vai querer fazer greve nessas condições?. Já trabalhei nessa trafulhice dos cursos ensino profissional e é outra maneira de nos tirarem os direitos todos…

        • Não tem que fazer nenhuma hora extraordinária. Muitas vezes os cursos acabam antes do ensino regular… E mesmo que acabe ao mesmo tempo, o professor só fica de férias no final de julho…

          • Eu não queria chegar a esse ponto, mas tu sabes como eu sei que as pausas do Natal e Páscoa não são férias para os professores… O argumento de não fazer greve por ter profissionais é apenas mais uma desculpa.

  5. Temos que ir para a rua para ganhar visibilidade e explicar muito bem, para que as pessoas entendam o que está em causa e percebam como podem ser prejudicadas também! Ir para a rua, fazer vigílias, quantas vezes forem precisas. Organizar grupos para se revezarem. Organizar grupos por áreas geográficas para que se fale sempre de nós. Se não nos quiserem ouvir, temos que encontrar formas de chamar à atenção. Penso que as greves não resolvem grande coisa.
    Não se trata apenas de trabalhadores desmotivados. Trata-se de atentados à saúde e à dignidade.O burnout está a acelerar. Eu estou de baixa por isso. Ao fim de 32 anos quase sem atestados, não aguentei mais o trabalho interminável, o barulho de 30 pessoas dentro de uma sala de aula, a indisciplina de cada vez mais alunos. Foi tão rápido, logo no início do ano. É tão assustador deixar de conseguir fazer tarefas simples. Uma destruição interna, neurológica, que só o tempo poderá remediar. Serei considerada mais uma preguiçosa e parasita do Estado. Mas afinal, quem anda a explorar quem?

  6. Aqui fica uma proposta para outra forma de luta: continuamos a dar aulas, aplicamos fichas de avaliação que corrigimos e entregamos aos nossos alunos. Só não entregamos a nota que “congelamos” nos nossos registos. Ficaríamos todos a lucrar: não nos é retirado dinheiro, não temos de repor aulas (porque quem faz greve não recebe esse dia,mas sabe que, na aula seguinte, vai dar a aula que não deu), os alunos continuam a aprender (e até estudariam mais na incógnita das notas) e os encarregados de educação seriam a força de pressão no ME, pois quereriam saber, de forma legítima, as notas dos filhos… É só uma ideia…

  7. Com todo o respeito, a ideia sofre do defeito de não ser exequível…. não há base legal para fazer isso. Numa sociedade democrática há formas legais de protesto (petições, manifestações, greves, recurso aos tribunais, comunicação com os deputados, etc) e depois há formas selvagens (cortes de estrada sem aviso, greves selvagens, prática de atos ilegais). Não entregar notas (sem ser através de greve às reuniões) é um ato ilegal. O resultado seria problemas para quem se metesse nisso. Porque raio andam a inventar coisas para o protesto que hão-de fazer e não aderem ao protesto que já está a ser feito…. Respeito quem não faz greve, porque não quer e acha mal. Gostava de os convencer do contrário mas respeito quem pensa diferente e não se mete na greve dos outros como eu não me meto no seu não fazer por decisão esclarecida. Mas acho desprezível quem vem dizer que “até fazia se fosse amarelo”, ou “se não lhe doesse a barriga”, ou “se a greve fosse assada ou cozida…”

    Os Deolinda é que apanharam isso bem…

    https://www.youtube.com/watch?v=us9dIcLjfKM

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here