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Greve, professores, sindicatos e …desencontro.

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A última greve de professores (dia 11 de Dezembro) apontou como revindicações: aplicar medidas de prevenção e segurança adequadas à gravidade da crise pandémica; rejuvenescer a profissão (aposentação e pré-reforma); eliminar os abusos e ilegalidades nos horários de trabalho; aprovar regimes justos de vinculação e concursos; impedir a imposição de filmagens e transmissão de aulas presenciais… Eram tantas e, sobretudo, tão básicas as reivindicações. Em pleno século XXI ainda é preciso eliminar os abusos e ilegalidades nos horários de trabalho? Até parece que a Escola Pública está de pantanas. A desmoronar. E, um destes dias, professor terá sido uma profissão. Exagero ou nem por isso…

Não faltam razões para o protesto. Razões imperativas para o protesto. De deitar abaixo a mais renitente indiferença. Até o mais estóico, disposto a encarar a adversidade como inevitável, fica perplexo quando o remetem para uma sala de aula sem qualquer distanciamento sanitário digno desse nome. Todavia, quando a degradação das suas condições de trabalho raia a indignidade, os professores parecem responder com inactividade, passividade, desinteresse. Respondem com uma adesão diminuta à greve de dia 11 de Dezembro. Aparentemente estão indisponíveis para o protesto. Aguardam resignados?

Ao contrário do suposto pela opinião pública, não é fácil a mobilização dos professores para as lutas laborais. São um conjunto de profissionais com práticas, quotidianos e interesses variados. É diminuto o espírito de grupo. E, particularmente, notória a aversão ao conflito.

Uma parte significativa dos professores é muito sensível a uma lógica burocrática – e não tanto “missionária” como já lhe chamaram – assente no cumprimento de práticas processuais consideradas necessárias ao sucesso educativo dos alunos. Tudo para não prejudicar os meninos! Esse consenso é o suporte do funcionamento das escolas. Cumpridas as regras do consenso estipulado, cada um pode desenvolver a sua actividade como melhor lhe aprouver. No limite, desenvolver práticas diversas.

Estou em crer, neste momento o quotidiano das escolas está atomizado como nunca antes. O discurso saudosista de alguns professores, remetendo para um tempo de companheirismo e entreajuda, é significativo. De resto, o modelo de gestão da Escola Pública em vigor, assente no poder unipessoal do Director, veio acentuar esse quotidiano através de uma partilha de recursos e benefícios não escrutinada e clientelar. Se antes a “corporação” contaria pouco, agora contam mais as prebendas distribuídas. Multiplicam-se as lógicas e as estratégias pessoais.

Voltemos à greve… Decretada para a penúltima semana de aulas, a greve de dia 11 de Dezembro coincidiu com uma semana, por norma, ocupada com a realização de testes. É certo, ao longo do período terão sido recolhidos elementos de avaliação vários, contudo, o teste é um elemento maior da avaliação. Fulcral no cumprimento das referidas práticas processuais. Assim, a sua não realização é passível de prejudicar os meninos. Censurável. Dezembro não era tempo de greve.

Haverá quem encontre neste texto um discurso desajustado. No limite, um ataque aos professores. Nada disso. Dispenso a auto-flagelação. Assumo, isso sim, alguma nostalgia da escola de outros tempos, menos burocrática, com decisões partilhadas e órgãos de gestão eleitos democraticamente. Onde comunidade educativa não era uma expressão vã e vazia, antes se materializava, por exemplo, em grupos de teatro ou música compostos por alunos, funcionários e professores. Naquele tempo apetecia fazer coisas.

Talvez porque havia memória de como e quanto custara a construir a Escola Pública democrática em que trabalhávamos. E essa memória dava-nos, simultaneamente, consciência da nossa força e horizonte de esperança. Director era ainda uma palavra maldita. Valorizávamos a participação nas tomadas de decisão e insistíamos em ser interventores nos processos. Era impraticável o “faço o que me mandam, limito-me a cumprir ordens”. Enfim, havia professores tão avessos aos desmandos quanto apostados em melhorar o mundo. Hoje há menos.

Gente desta, com espirito crítico e inconformado, haverá de olhar para os sindicatos com insatisfação. Dispensa o discurso de comiseração, não se fica pelo “são tantos que só causam desunião”, aprendeu a identificá-los. Gente desta fica incomodada é com o possível anquilosamento das estruturas sindicais. Os quadros dirigentes parecem não se renovar, as propostas de luta tendem a perder eficácia, e, particularmente, as organizações aparentam alguma falta de sintonia com os seus representados. Carecem de vitalidade? Talvez seja necessário reformular práticas. Reinventar as formas de organização. E haver sindicatos dispostos a esse esforço.

Contrapor as justas razões do protesto ao desencontro de professores e sindicatos pode ser um exercício interessante e necessário, mas de limitado alcance. Melhor será aprender com o caminho, procurar alternativas e insistir. Ou podermos prescindir da Escola Pública?

Luís Miguel Pereira

2 COMMENTS

  1. Provavelmente, os professores estão além de tudo mais, cansados do Mário Nogueira. Já é altura de a FENPROF se reinventar. Estou cansada de ler, ouvir a opinião publica a dizer mal dos professores cada vez que o Nogueira aparece nos meios de comunicação. Os professores não são o Mário Nogueira

    • Tivemos aí a greve e temos tido outras acções de luta do STOP, um sindicato novo formado por dissidentes da Fenprof e empenhados, justamente, em reinventar o sindicalismo docente. Quantos professores aderiram? De certeza que o problema é mesmo o Mário Nogueira?…

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