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Greve Climática | Diretores Divididos Caso Os Pais Queiram Justificar A Falta

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Por vezes surpreende-me a capacidade que o ser humano tem de complicar algo que é claro como a água.

Hoje é dia de Greve pelo clima, os alunos estão (e bem) a mostrar o seu descontentamento pelas alterações climáticas que irão afetar principalmente as suas e futuras gerações. Aos professores, foi-lhes pedido para se juntarem à causa, fazendo a 345ª greve de que há memória (este número é fictício para quem não percebeu a ironia), em vez de utilizarem o seu dia de trabalho para consciencializar os alunos que não aderiram à greve, sobre as consequências das alterações climáticas.

O jornal Público perguntou a vários diretores se os alunos teriam falta, vários disseram que a greve implica a marcação de uma falta injustificada, enquanto outros enviesaram a “coisa”, permitindo a justificação da falta ao abrigo da “sensibilidade do tema”.

Espanta-me como é que diretores permitem algo que não está contemplado no Estatuto do Aluno, cedendo ao “porreirismo” de estar na moda ecológica, justificando-se com os princípios da Cidadania. Para quem não sabe, recomendo a leitura do artigo seguinte:

Quais os motivos que permitem justificar uma falta ao aluno e qual o procedimento?

A Cidadania deve ensinar aos alunos que as suas ações têm consequências, que assumir uma causa implica o sacrifício de algo e esse algo deve ficar registado com orgulho.

A minha filha ainda é um bocado nova para estas andanças, mas teria todo o gosto enquanto pai e cidadão deste planeta, de ver no final do ano uma falta injustificada, devidamente justificada pela pertinência e urgência do tema. Se eu lhe justificasse a falta, estaria a desvalorizar o sacrifício que ela fez, seja ou não um sacrifício menor e devidamente calculado.

Falamos tanto de Cidadania, falamos tanto em incutir aos nossos alunos/filhos a autonomia e independência necessária para integrarem a sociedade sem grandes dificuldades, quando na hora “h”, na hora em que eles tomam uma posição, alguns querem camuflar o ato, justificando uma falta e desvalorizando um dos atos mais nobres da conquista de Abril, a greve e as suas consequências.

Ficam duas notícia de hoje sobre o tema.


Faltas para os alunos grevistas garantidas, mas escolas estão com a causa do clima

Não é pela circunstância de a greve climática desta sexta-feira ser “global” e não apenas estudantil, que as escolas mudarão a sua posição: a maioria irá marcar faltas aos alunos que não comparecerem às aulas neste dia, mas se as ausências forem justificadas pelos encarregados de educação muitas estão dispostas, à partida, para aceitarem as justificações.

Foi o que sucedeu nas anteriores greves climáticas realizadas em Março e Maio passados. Quando um aluno “falta às aulas, as escolas não têm outra forma de actuar que não seja marcar falta”, adianta José Eduardo Lemos, director da Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa do Varzim.

É também uma forma de se protegerem para eventuais incidentes, justifica Rui Madeira, director da Escola Artística António Arroio, em Lisboa. Ao não marcar falta, assume-se que o aluno se encontra na escola e se ele não está e “é atropelado, o que é que acontece?”, questiona este professor.

José Eduardo Lemos aponta no mesmo sentido. Os alunos que fizerem greve nesta sexta-feira terão falta, avisa. Quanto à aceitação das justificações é algo que ainda irá ser ponderado, embora este director refira que nunca as aceitou se o motivo é uma greve: “Faz parte da educação para a cidadania assumir que se perde algo por uma causa. É o que se passa com os trabalhadores que fazem greve: perdem um dia de vencimento.”

“Se as faltas forem justificadas pelos encarregados de educação, serão relevadas porque existe uma sensibilidade para esta causa”, garante a directora do Agrupamento de Escolas de Alvalade, Dulce Chagas. Dos agrupamentos de escolas do Restelo, em Lisboa, Rodrigues de Freitas e Clara de Resende, no Porto, entre outrtos, vem a mesma garantia. Já a Escola Secundária Camões, em Lisboa, será a excepção. “Sexta-feira à tarde o número de aulas é muito reduzido, pelo que não haverá faltas”, indica o director João Jaime.

Os directores contactados pelo PÚBLICO não esperam, contudo, que esta questão seja um problema para muitos alunos, já que os sinais de mobilização para a greve desta sexta-feira nas escolas têm sido escassos. Contribuirá para isso o facto de muitos dirigentes das associações de estudantes do secundário, que geralmente são do 12.º ano, terem já transitado para o ensino superior e ainda não foram substituídos, refere o director da secundária Camões.

E quantos aos professores? A Federação Nacional de Professores, que é a maior estrutura sindical docente, bem como o Stop-Sindicato de Todos os Professores, entregaram pré-avisos de greve para esta sexta-feira. “Temos recebido muitos telefonemas de professores, mas como não somos nós que estamos a organizar a greve é difícil ter noção da mobilização que existe”, esclarece a assessora de imprensa da Fenprof, frisando que o pré-aviso de destinou apenas “a permitir que os professores que o queiram possam participar na greve sem terem faltas injustificadas”.

Movimento académico de fora

No ensino superior, as federações e associações académicas optaram por não oficializar o seu apoio à greve desta sexta-feira.  “A causa do ambiente também é a nossa bandeira, mas a greve às aulas nesta altura nãos e enquadra nos nossos planos”, justifica o presidente da Federação Académica do Porto, João Pedro Vieira, referindo contudo que algumas das associações de estudantes que integram a organização têm actividades previstas para esta sexta-feira.

Embora também não tenha oficializado a sua adesão à greve, a Associação Académica de Lisboa disponibilizou “apoio logístico” às acções programadas por alguns dos seus associados. É o que se passará, por exemplo, com a concentração marcada para o campus de Benfica do Instituto Politécnico de Lisboa (IPL), convocada pelas associações de estudantes das escolas do IPL e que conta também com o apoio da própria instituição, indica o vice-presidente da AAL, Rúben Sousa.

Para já estão confirmadas concentrações em 30 localidades espalhadas um pouco por todo o país. À excepção de Lisboa, em que o protesto está marcado para as 15 horas, quase todas as manifestações foram agendadas para o final da tarde, resolvendo-se deste modo o problema das faltas às aulas ou ao trabalho.

E dicas não faltam para quem quiser estar presente ou mesmo para os que não podendo estão de coração com a greve climática. A Amnistia Internacional, por exemplo, propõe que nestes casos se faça um cartaz (há várias sugestões) e se publique depois uma fotografia nas redes sociais. Algumas das frases sugeridas pela AI para serem pintadas a negro: Humanos pelo planeta;Salvem os humanos; O NOSSO futuro nas VOSSAS mãos.

Fonte: Público


Milhares protestam em Lisboa pelo clima: “Sim ao futuro”

A Praça do Cais do Sodré já estava cheia às 15h desta sexta-feira com milhares de pessoas ainda mal a concentração pelo clima tinha começado. Viam-se dezenas de cartazes em português e inglês. No megafone as palavras de ordem saem primeiro em inglês: “power to the people”, “power”, “people”. Ou em português: “não ao furo, sim ao futuro”.

Entre os manifestantes viam-se crianças que ainda se movem em carrinhos, estudantes de escolas internacionais, jovens pertencentes a organizações não-governamentais ou juventudes partidárias, estudantes de todas as idades, portugueses e estrangeiros. Poucas manifestações terão cruzado todas as faixas etárias como estas marchas. “Os jovens estão na rua, a luta continua”, gritavam. Pelas 16h15, estavam já a atravessar o Terreiro do Paço, a caminho do Rossio.

Tomás Chasqueira, de 17 anos, da associação EPA 66 – Estudantes pelo Ambiente — um movimento apartidário, ao contrário dele próprio que é do PCP — tem o megafone na mão. “O nosso movimento quer trazer à discussão as verdadeiras causas e a raiz dos problemas ambientais. O sistema capitalista é o verdadeiro responsável pela lapidação dos recursos naturais”, diz ao P3. Vir para a rua é importante: “Para que a juventude se mobilize por aquilo em que acredita e fomentar a mudança.” Na imensa massa de gente ouve-se “menos mentira, mais acção”.

Definida como um movimento “estudantil político-apartidário, descentralizado, pacífico”, a Greve Climática Estudantil — inspirada na greve que a activista sueca de 16 anos Greta Thunberg começou a fazer às sextas-feiras e que deu origem às “Fridays for Future” — instigou sindicatos, organizações da sociedade civil, autarquias, universidades a aderirem a este protesto sob o chapéu Salvar o Clima.

Querem abrir um debate sobre “justiça climática” — “porque existem responsáveis e os mais afectados são aqueles cuja palavra menos conta” — e exigem que este tema entre na agenda dos governos para que façam da resolução da crise climática uma prioridade. Acusam políticos e elites económicas de ignorar “a bomba climática que está prestes a explodir nas nossas mãos”.

A 15 de Março saíram à rua milhares de estudantes (a organização diz terem sido mais de 20 mil em Portugal, e mais de um milhão e meio em todo o mundo). Em Portugal as revindicações são, entre outras: encerrar as centrais termoeléctricas de Sines e do Pego (que produzem energia e ainda funcionam a carvão), acabar com as concessões petrolíferas e de gás que ainda existem em Portugal (e revogar a legislação que permite o lançamento de novas concessões); em relação ao gás natural proibir a importação daquele que seja obtido por fracturação hidráulica e travar a expansão do sistema de recepção, armazenamento e transporte; cancelar grandes projectos que impliquem aumento de emissões de gases com efeito de estufa; ter um sector público a liderar o processo de produção de energia a partir de fontes renováveis; implementar um plano de eficiência energética; electrificar o sistema de transportes; expandir a rede de transportes públicos nas principais cidades ou introduzir a gratuitidade dos transportes públicos durante a próxima legislatura.

“Ferramenta poderosa”

“A greve e a mobilização para as ruas é uma ferramenta poderosa para pressionar políticos e para conseguir alterar estruturas da sociedade que alimentam a crise climática (a forma como produzimos, como nos alimentamos e como nos transportamos, enquanto sociedade em geral, por exemplo)”, escrevem. “Cortar 50% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030 será a maior transformação que a humanidade já empreendeu, e é exactamente aquilo que a ciência nos diz ter de acontecer”. “Não fazê-lo é destruir as condições materiais que permitiram a civilização humana.”

Os activistas da Greve Climática Estudantil explicam a sua estratégia: “Enquanto estudantes temos escasso poder económico e alguns de nós nem sequer podem ainda votar. A verdade é que esvaziar uma sala de aula ou uma escola, recorrendo à greve, é uma mensagem colectiva poderosa. Estamos em greve às aulas mas não contestamos o estabelecimento de ensino em si, como seria de esperar de uma greve normal.”

O seu lema é “parar para avançar”: “Paramos porque o nosso futuro, de todas as gerações hoje vivas — pais, filhas, netas e avós — está a ser-nos roubado à frente dos nossos olhos. Paramos porque somos as últimas gerações que podem resolver este problema”.

Fonte: Público

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