Home Rubricas A geração Peter Pan

A geração Peter Pan

398
0

Falar sobre educação, um tema tão polémico e actual, apresenta uma dificuldade acrescida. Educar implica uma enorme panóplia de ferramentas, de estratégias e de engenhos que só descobrimos quando são necessários. Não quer isto dizer que sejamos iguais uma vez que os desafios, apesar de serem idênticos, apresentam muitas variáveis.

Qualquer educador deseja que o seu educando se transforme num adulto bem resolvido e capaz de enfrentar aquilo que a sociedade lhe proponha. É sabido que somos imperfeitos mas tentamos sempre melhorar e com o trabalho em conjunto os resultados podem ser animadores.
O que vou relatar é precisamente o contrário do que se pretende e este é o espaço adequado para o fazer. Este mau exemplo é o resultado prático da falta de respeito, de consideração e sobretudo de valores, em que a nova geração de adultos se enquadra. Quero deixar bem claro que um caso não faz um todo e que as pessoas podem mudar a sua conduta. No entanto é tão grave que deve ser partilhado para evitar mais erros futuros.
Esta é a história de Ana, nome fictício, que depois de concluir o ensino secundário e ter entrado no ensino superior, decidiu dar outro rumo à sua vida. Foi uma aluna regular, nunca tendo ficado retida e, acima de tudo, interessada em tudo o que tinha para aprender. Começou a trabalhar em part time, no secundário e fez o seu pé de meia. Tinha em mente um determinado curso e entrou para o mesmo. A universidade é bem diferente do secundário e nem todos conseguem acompanhar.
Depois de um ano terminado, optou por outra área que também não a satisfez. Teve a coragem suficiente para admitir que não era aquilo que queria e tomou outra decisão. Abriu um negócio. A experiência que tinha ganho a trabalhar foi de extrema utilidade e foi colocada em prática, da melhor forma que sabia. Correu bem e estava satisfeita. Além do seu, criou mais outro posto de trabalho. Uma autêntica mulher de negócios.
Esta semana foi surpreendida por uma carta oficial sobre um assunto que desconhecia por completo. Uma coima, de valor bem elevado, por algo que nunca lhe passaria pela cabeça. A carta estava bem documentada e não tinha como contra argumentar. Reportava-se a uma situação ocorrida há mais de 6 meses e que a ex-funcionária tinha sido responsável.
Uma das funções atribuídas era encerrar a loja e deitar fora o lixo, o que não parece apresentar grau de dificuldade de maior. O que aconteceu foi que colocou documentos identificativos, de menor importância, mas sem serem devidamente acondicionados, à vista de todos. Os eco-pontos têm uma abertura mas nem isso ela teve em conta. No chão, sem mais nem menos. Alguém terá reportado à Câmara e um fiscal tomou conta da ocorrência.
Esta situação é muito grave. Confia-se nas pessoas, porque são adultas, na sua noção de responsabilidade e depois os resultados são estes. Não teve a menor consideração nem respeito pela sua empregadora. Não há profissionalismo nenhum a exercer seja o que for. Agora a Ana tem de assumir a responsabilidade pelo que aconteceu e pagar o que não devia. Onde está o bom senso? Isto não se ensina só na escola mas também em família e no dia a dia.
Esta pessoa foi muito negligente e irresponsável deixando quem a empregou numa circunstância muito pouco agradável. Esta atitude demonstra uma total ausência de valores. Mas que sociedade ésta que estamos a formar? De inúteis e incompetentes? De eternas crianças que não querem aceitar que cresceram? Colocar o lixo num recipiente é tão óbvio e mesmo assim não foi capaz de o fazer? Mas o que passa pela cabeça destas pessoas?
Uma entidade patronal não é uma mãe ou um pai que tem de andar sempre a ver o que os filhos fazem. Um adulto tem de ser responsável pelos seus actos e ser rigoroso e cumpridor. Interrogo-me sobre o que terá acontecido mais e que ainda possa “saltar” para a Ana. Ela não merece e nem se pode defender. Assume e honrará o compromisso, como tem feito desde sempre. Não é justo nem está correcto. Posso colocar algumas hipóteses sobre a ocorrência mas são meras especulações e não me compete, tão pouco.
Recordo uma conversa de uma mãe sobre a sua filha. Queixava-se que não gostava do emprego que tinha, que era muito duro ( nas suas palavras ) e que merecia mais. A filha nunca tinha concluído o ensino obrigatório mas “sonhava” com um cargo superior. É basicamente assim que se está a pensar neste momento. Não interessa o que sabem mas sim o que querem. Muitos querem o céu, o impossível. Todos os trabalhos são honrados e devem ser bem executados.
A geração Peter Pan está aí e não é nada bom. Este exemplo é uma consequência da permissividade, da laxismo, do desculpar porque é pequeno. Era uma adulta e devia ter noção de responsabilidade. Não sei por onde andará agora e o que fará mas se continua com a mesma atitude é dramático. Ninguém quer executar as chamadas tarefas “menores” mas elas são necessárias. Uma sociedade só pode sobreviver se todos trabalharem em conjunto, para o bem comum.
Proponho um mero exercício: imaginemos que os trabalhadores que recolhem o lixo deixavam de trabalhar. Rapidamente este se acumularia, o cheiro seria nauseabundo e tornar-se-ia insuportável circular nas ruas. Muito em breve as doenças tomariam de assalto a sociedade e seria uma catástrofe. Agora retiremos todos aqueles que trabalham nos supermercado. Depois de esgotadas as mercadorias nas prateleiras seria o caos, já para não falar nos roubos que seriam permitidos porque os caixas não existiam. Como seria?
Mais uma vez reforço a ideia de que todos os trabalhos são honrados e que devem ser desempenhados com afinco e profissionalismo. Cada profissão tem o seu lugar e o seu valor. Numa escola estão representadas várias actividades profissionais que são executadas por pessoas diferentes. Sabendo que os assistentes operacionais estão em deficiência, podemos ter uma pequena ideia de como seria um mundo sem todas as peças da engrenagem.
Margarida Vale

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here