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“Gadgeholics”

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DIZ-ME COMO NAVEGAS…

É cada vez mais difícil controlar o que crianças e jovens fazem com tablets e smartphones, redes sociais e aplicações. Diálogo tecnológico e em família é um bom ponto de partida.

apple-app-storeAs notas do 10.º ano não foram as melhores e a Matemática nem chegou à positiva. A mãe de Filipe, quase 17 anos, ficou furiosa e decidiu que – entre outras consequências – durante o verão não haveria internet lá em casa e o computador estaria inacessível. Mas o adolescente não ficou especialmente incomodado. “Na verdade, eu já estou online mais tempo no telefone” (leia-se smartphone) e não ter computador, especialmente numa altura em que não tenho trabalhos para fazer, faz pouca ou nenhuma diferença. Se a minha mãe ler isto é que é pior!” diz, entre risos.
Há poucos anos, retirar o computador e o acesso web a alguém a partir dos nove ou dez anos seria provavelmente razão para, no mínimo, um ataque de nervos. Hoje já não é bem assim. “Os dispositivos móveis de dimensões reduzidas multiplicaram-se, hoje rivalizam com os fixos e os portáteis maiores e acredito que futuramente vão ultrapassá-lo”, afirma Tito de Morais, fundador do projeto “MiúdosSegurosNa.Net”.

Se há universo em constante mudança, esse é o das chamadas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Novos dispositivos, plataformas noticiosas, múltiplas redes sociais e de partilha de dados, incontáveis aplicações são recebidas de forma ávida e utilizadas rapidamente e de forma altamente competente pelas novas gerações. O estudo “Net Children Go Mobile” (ver caixa) é uma das mais recentes análises sobre o tema e os resultados mostram uma realidade em que “os smartphones estão a tornar-se uma parte fundamental dos ecossistemas mediáticos habitados pelas crianças”. Por outro lado, “cerca de 95 por cento dos jovens utilizadores de dispositivos móveis usam a internet todos os dias, contra 62 por cento dos que não possuem smartphones ou tablets”.
Lara, 12 anos, não se lembra da última vez que passou um dia “sem ir ao Facebook ou ao  Snapchat”. “Acho que já não sabia viver sem isto” confessa, apontando para o tablet que tem numa mão e o smartphone que tem na outra. “Os meus pais bem me dizem para não estar sempre a teclar, mas é difícil…”


Novos meios, velhas preocupações
De acordo com o mais recente relatório da rede EU Kids Online – que estuda o uso da internet pelas crianças e jovens europeus – Portugal está na liderança no acesso ao universo online. O nosso país é conhecido por ser um “early adopter”, isto é, vivemos numa sociedade que utiliza rapidamente as novas tecnologias e as integra na vida quotidiana, sendo que este é um fenómeno especialmente visível nas novas gerações.
A net está cada vez mais no quarto, na rua, na praia, em todo o lado, 24 horas por dia e sete dias por semana. É a grande ferramenta de socialização e estrutura boa parte da vida dos mais novos. É o mundo onde surgem os novos ídolos e as novas tendências, onde se fazem e desfazem amizades e namoros, onde se experimentam grandes alegrias e as mais profundas tristezas.

“Eu e o meu grupo de amigos estamos sempre a experimentar coisas novas”, garante Filipe, que acrescenta: “quem compra ou descobre uma coisa nova está ‘lá em cima’ e espalha isso pelo pessoal”. Por sua vez, Lara diz ser adepta das aplicações. “Há apps para tudo e gosto muito disso. É das coisas mais fixes de se ter um smartphone e estão sempre a aparecer diferentes. O meu pai até diz que não percebe como é que consigo usar tudo ao mesmo tempo!”
O ritmo acelerado e crescente em que o mundo das TIC se move é, precisamente, um dos motivos para o desassossego de muitos pais. “Frequentemente, os adultos confessam que se sentem ultrapassados pelos acontecimentos, com dificuldades em compreender o que se passa e desconfortáveis com a sua incapacidade de detetar riscos e proteger os filhos”, reconhece Tito de Morais. “Perante isto, costumo dizer que se a tecnologia é evolutiva, as preocupações são as mesmas de sempre”, acrescenta.
O advento das tecnologias móveis veio lançar novas achas para a fogueira da inquietação parental. “Acompanhar o uso de dispositivos que podem ser utilizados em quase todos os locais e circunstâncias é, certamente, mais difícil. Mas é possível”, garante Tito de Morais.
“O discurso da alta permeabilidade das novas tecnologias por parte das crianças e dos jovens e dos riscos que correm é absolutamente do mundo adulto”, afirma, por sua vez, Daniel Cardoso, investigador da Universidade Nova de Lisboa e membro da equipa portuguesa da EU Kids Online. “Se formos a ver, a rádio e a televisão foram, a seu tempo, olhadas dessa forma e certamente que isso continuará com as tecnologias futuras”. Mais do que discutir capacidades ou incapacidades, para o mesmo especialista “o importante é fomentar, seja qual for a geração, a literacia para os novos media”.

Saber é poder
Os investigadores nacionais do EU Kids Online são parceiros da Associação para o Planeamento da Família (APF) num projeto que, nas próximas semanas, vai colocar as TIC ao serviço da educação para a sexualidade (ver caixa). E é precisamente este tema que Daniel Cardoso escolhe para exemplificar o que significa literacia digital e como é possível promovê-la em família.
“É mais que evidente que sendo os novos media parte fulcral da vida das novas gerações, são um recurso óbvio quando se fala de curiosidade, de procura e a sexualidade não é exceção”, recorda. E, “tal como aconteceu com todas as gerações, os pares são também muito importantes. Mas, mais uma vez tal como aconteceu no passado, nem todas as fontes são fidedignas e merecedoras de crédito. É aí que pode ser decisivo o papel dos adultos”.
De acordo com os dados nacionais do EU Kids Online, 13 por cento das crianças e jovens referem, em inquérito, ter já visto material online de natureza sexual. Em paralelo, apenas quatro por cento dos adultos admitem saber que os seus filhos já tiveram esse tipo de experiências. “Há aqui uma discrepância interessante que nos leva a falar de uma espécie de evitação adulta na abordagem destes temas”, refere o investigador da Universidade Nova de Lisboa. “Se os adultos não têm, ou não querem ter, uma perceção do que se está a passar, a tarefa de mediação fica muito mais complicada”, adverte. Por outras palavras, a literacia digital começa com os pais. “Ter conhecimento para distinguir a qualidade de fontes e plataformas e fazer uma análise crítica das mesmas” é, de acordo, com Daniel Cardoso, meio caminho andado. “A literacia digital não é só manipular equipamentos e dispositivos, tirando partido das suas capacidades técnicas. É também, e principalmente, saber destrinçar conteúdos e selecionar o que aparecem como sólidos”, diz, por seu turno, Tito de Morais.

O segundo passo no caminho deste “saber dos novos tempos” é transmitir essas capacidades a crianças e jovens. “Certamente que, em muitas situações, os mais novos estão mais à-vontade com aspetos técnicos e os adultos só terão a ganhar se admitirem isso. Em contrapartida pais e até avós, estão mais capacitados para identificarem situações desafiantes e de risco e fazer o respetivo alerta. E isso consegue-se com uma cultura de diálogo no interior da família”, conclui. “Não é possível viver sem estar exposto e sem correr riscos e esta é uma realidade também no universo digital. O que é, sim, possível, é utilizar ferramentas para avaliar criticamente as situações em que nos encontramos e reagir de forma adequada. Ao promovermos junto das crianças e dos jovens meios de autonomia, independência e capacidade de análise, não estamos a evitar que se deparem com situações menos boas. Até porque isso é impossível. Estamos, isso sim, a capacitá-los para as gerirem da melhor forma”, remata Daniel Cardoso.

Sofia Henriques de Carvalho (2015). ” Diz-me c

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