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Filhos de abril, ditadores em potência.

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Nasci em 1977 e por isso tive a sorte de nascer em liberdade. Costuma-se dizer que só damos valor às coisas depois de passarmos por elas e todos aqueles que, como eu, nasceram sem amarras, apenas podem imaginar os tempos da ditadura. Por isso não é de estranhar que a minha geração, bem como as atuais crianças e adolescentes, encarem a liberdade como um dado adquirido. E aquilo que é adquirido, inato e quotidiano, passa despercebido e tem tendência a ser desvalorizado.

DitadoresO 25 de abril, é por isso visto por muitos de nós como um feriado “porreiro”, no qual não temos de trabalhar ou estudar. Sim, sabemos o seu significado mas não refletimos sobre isso, apenas usufruímos dele… A realidade é esta e só com muito esforço se conseguem convencer crianças e jovens a interessarem-se por algo que em nada vai mudar as suas vidas, nas próximas… vá… 24 horas! (isto segundo o prazo razoável de futurologia dos nossos jovens)

A geração de abril, criada nas amarras da ditadura, com os seus cravos soltou-se, rejubilou e floresceu. De uma forma compreensível quis dar aos seus filhos aquilo que não pode usufruir na sua juventude. Porém, até que ponto não se deixou levar por um protecionismo excessivo, levando longe demais o grito de liberdade? Terão esses pais afastado e banido, tudo e todos os que queriam encaminhar, travar, controlar, aqueles que nasceram em liberdade? Terão esses pais sucumbindo à tentação de fazer justiça pelas próprias mãos, numa tentativa (in)consciente de vingança, tentando equilibrar os pratos da balança, deixando seus filhos sem controle, sem correção… sem educação?

Uma coisa é certa, os filhos de abril não trazem fantasmas na bagagem, verbalizam as suas frustrações e discordâncias sem pudor, exigindo os seus direitos, chegando mesmo ao ponto de confundir liberdade com libertinagem.

Por isso assistimos hoje a pais que não se calam, substituindo o “sim senhor” pelo “porquê senhor?”. São pais difíceis, que exigem tudo e de todos, que culpam os outros pelos seus insucessos e pelos insucessos dos seus. Porquê? Porque continuam na sua bolha protetora, a bolha repelente do “não”, a bolha que desfila no tapete vermelho da (des)educação…

E como qualquer pai, este tenta reproduzir as “boas sensações” que sentiu enquanto criança e enquanto jovem, permitindo, protegendo, apaparicando e mimando o seu rebento até mais não. Sorriso atrás de sorriso, consentimento atrás de consentimento, o ditador vai nascendo, alimentando-se dos “sins”, do “eu quero”, do “eu tenho”, do “eu preciso”, etc…

Mas quem não tem uma ligação próxima com o ditador em potência, e também ele usufruiu dos “sins” compensadores de um passado fechado, tem agora alguma dificuldade em ficar calado quando é contrariado e é posto em causa…

Hoje, a escola reflete as diferentes gerações e as suas diferentes educações. Hoje, a sala de aula tornou-se um palco de “guerra” onde os pequenos ditadores tentam impor a sua lei, reagindo como qualquer ser, racional ou irracional, que está habituado aos seus ritmos, às suas vontades, ao “eu”, “eu” e “eu”… o choque geracional está aí, é inevitável!

Estão certamente a pensar que “eu não sou assim”, como o autor deste texto também o afirma que não é assim, mas até que ponto não somos mesmo assim? Até que ponto não contestamos tudo e todos, ultrapassando muitas vezes as regras mais básicas da cidadania coletiva? Seja na forma como conduzimos, ou na forma como nos mimamos com subterfúgios materiais, prevalecendo o nosso egoísmo sensorial, tecnológico em vez do afetivo e familiar…

Nós, filhos de abril, somos o futuro deste país. Somos pais, professores e filhos, somos toda uma rede social de uma democracia que muitos afirmam madura mas que é dominada por “gentes” imaturas. Precisamos de controlar egos, refletir se os nossos “eus” ultrapassam os “teus”, se as nossas vontades são ajustáveis, coabitáveis.

Termino com um princípio que me tem norteado a vida toda e que na minha humildade partilho com vocês. A minha liberdade é a minha responsabilidade…

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3 COMENTÁRIOS

  1. Uma excelente reflexao de uma Pessoa nascida ja em tempo de Liberdade. Sendo evidente que tem toda a razao no que escreve, este facilitimo em que V.se encontram ee culpa nossa pais no pos 25 de Abril. Tentamos V.facilitar tudo e faciltamos em demasia. E hoje ficou o pensamEnto reduzido a muito pouco essencialmente em tempo. 24 horas antes 24 horas depois. Temos todos que ajudar a pensar mais. Mais

  2. Alexandre, como Pais façam um pouco diferente do que nós V/.fizemos, e façam com que os V/ filhos fiquem mais interessados em tudo do que hoje tantos, mais crescidos, estamos – o nem estamos!!!!!!!!

    .
    E deixem os avos sê-lo com os netos, mas sendo sempre V/ a “mandar!” nos V/ filhos.

    Abraço Alexandre do

    Augusto

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