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Férias

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brigas irmãosO autocarro vai cheio. Paira no ar abafado o cheiro intenso a fim de dia de trabalho em tarde de calor. A mulher percorre, a custo, alguns centímetros do corredor do veículo. O braço livre ampara os dois garotos colados a si. Com pequenos sopros, tenta afastar do rosto alguns fios de cabelo transpirados e peganhentos. Fareja discretamente o seu próprio braço levantado, receosa de estar a contribuir para o odor acre que encharca o ar.

É sempre a mesma coisa, pensa, este misto de sudação e angústia, todas as vezes que há reunião de pais. Fartinha daquela gente, dos olhares críticos, da condescendência doutoral de quem não a conhece de parte nenhuma. Crianças indisciplinadas e conflituosas? Que é lá isso, pensa, enquanto acaricia as cabecitas e sente sob os dedos a escovinha rente que desbastou os caracóis rebeldes e desalojou a enésima praga de inquilinos indesejados. Era o que faltava, continua a remoer, enquanto respira com força, como fera a resfolgar. Meninos desobedientes e sem regras? Total indiferença perante a autoridade do adulto? A sério? Mas quem é que aquela gente pensa que é? 

Uma voz pequenina afasta-a da cisma. “Mamã, olha, há ali lugares! Vamos sentar, mamã! Vamos sentar, mamã!” “Eu também quero, deixa-me passar primeiro, deixa-me passar primeiro, saiiiiii da frente”, riposta outra, ainda mais infantil.

“Esperem, não pode ser, não vêem que não podemos passar? Há muita gente, as pessoas lá perto do lugar é que se vão sentar. Estejam sossegados.”

“Nããããoooo! Nós queremos sentar! Nós queremos sentar! Vamos para lá”. A cantilena a duas vozes ecoa no autocarro e, num repente, já as mãozitas soltaram o vestido da mãe e os pequenos pés, de delicadas botas ortopédicas, pisoteiam implacavelmente o populacho, a caminho do longínquo lugar vazio. “Esperem, venham para aqui já”, lança-lhes com um vigor fingido, a camuflar o embaraço que sente.

Mas já o mais velho está a chegar ao almejado lugar, onde se deixa cair com estrépito, abalroando todos à sua passagem. Revolta-se então o mais pequeno, que também quer sentar-se; puxa o irmão infrutiferamente pela camisola, grita-lhe impropérios e atira-se com ousadia à refrega, esbracejando em todas as direcções. Ainda lhe diz para ter cuidado a senhora balofa do assento contíguo, que já levou, por simpatia, dois ou três tabefes; mas é rapidamente silenciada com um mimoso “cala-te, tu não mandas em mim. És munta gorda. E cheiras mal”.

A mãe encolhe-se, numa tentativa desesperada de desaparecer na multidão. As gotículas de transpiração estão agora tingidas do rubor das faces. “Porra para as férias”, rumina, “nunca mais acabam”.

MC

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