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Fazemos Tudo Pela Profissão Docente

Não admito a ninguém a afirmação de que não fazemos tudo e muitíssimo mais do que a nós compete

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Interessante ler tanta opinião sobre tudo e mais, que aos professores diz respeito. Sendo eu professora quase, quase a entrar em modo férias, sinto-me legitimada a ter uma opinião. Estou neste momento exausta e aguardo ansiosamente pela última reunião. Sim, maioritariamente, os professores sofrem de burnout, ou seja um profundo cansaço emocional e mental. Não será por acaso que os vários estudos assim o confirmam. Nem são necessários estudos, digo eu, basta entrar numa escola e observar a maioria dos docentes. Só um cego não vê.

No entanto, constato que a cada ano tudo se complica mais e mais. Mesmo sabendo o estado em que se encontra o envelhecido corpo docente, cada vez mais se exige uma permanência na escola que ultrapassa o que seria correcto; uma carga horária com tudo e mais alguma coisa que pode ser atribuído até ao último segundo; turmas com um número de alunos insustentável; um exército de papéis a triplicar e que volta a triplicar virtualmente, não vá o vento levar a papelada. Uma componente não lectiva, dizem, sem nexo ou utilidade de maior. Podia continuar a desenrolar um novelo que não ia ter fim. A sensação que fica ao terminar mais um ano lectivo é preocupante. Olhando o desfilar de professores pela escola nestes dias, dou-me conta dos braços caídos ao longo do corpo, o semblante carregado de dúvidas e desalento, as mãos fechadas de uma forma nervosa e um olhar vazio, perdido num horizonte que desconhecem, num futuro que assusta.

Este é o desvario que nos consome aos poucos todas as esperanças de mudar o mundo. Somos professores sim, mas somos gente também. Gente que está a perder o norte e se sente cada vez mais só. Não concebo por isso como se possa desfiar um rosário de mentiras sobre a nossa profissão e se saia impune; não aceito que se tratem os docentes como mentecaptos insanos, quando são os cidadãos mais bem formados deste país, não fossem estes a formar todos os outros; não admito a ninguém a afirmação de que não fazemos tudo e muitíssimo mais do que a nós compete, mesmo com energúmenos a destratarem constantemente a nossa profissão, mesmo sem condições físicas e psicológicas, mesmo contra tudo e todos, continuamos a fazer o impossível para que haja educação pública.

Recuso categoricamente todo e qualquer discurso, escrito ou falado, que desvalorize um professor(a). Sou intolerante à ignorância e falta de respeito. Aconselho vivamente a frequência de formação a todo e qualquer individuo que não a teve em casa e não deu valor aos seus professores. A falta de ‘chá’ provoca-me urticária bem como o mau uso da razão e do poder. Sou a favor de direitos e de deveres, sendo que, quem não cumpre os últimos não deve ter os primeiros.

Maria do Rosário

Professora do 2º Ciclo do Ensino Básico

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