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Farto de tanta “treta”!

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Já passou algum tempo desde o último texto que escrevi para o ComRegras e verifico que no panorama da educação nada se alterou. Estou cansado de tanta “treta” e, por isso, decidi abordar vários assuntos neste texto.

Sabemos que o número de alunos matriculados tem diminuído exponencialmente, ainda assim continuamos com políticas educativas ao estilo industrial, em que o valor humano é reduzido a uma lata de sardinhas e que coloca o professor como mero inspetor de qualidade.É patético que as turmas se mantenham grandes, quando estas continuam a diminuir.

Ainda mais, quando sabemos que essa “poupança” tem um custo que a escola ou os pais terão de pagar, quando mais tarde os alunos necessitem de aulas de apoio. E tudo isto se irá refletir na qualidade dos alunos que cheguem ao ensino superior.

Se olharmos para o percurso profissional dos docente, verificamos que muitos continuam a trabalhar longe de casa e das suas famílias, alguns já com muitos anos de serviço… É urgente mudar a forma criminosa como estão organizados os Quadros de Zona Pedagógica.

Os Ministérios da Educação têm gerido a educação de forma vergonhosa. Há falta de assistentes operacionais nas escolas e com o aumento dos prémios de seguros, para os acidentes nos recreios, voltaram a contabilizar o tempo do intervalo nos horários dos docentes. Isto faz com que o professor tenha de “pedir licença” ao Diretor para satisfazer as suas necessidades mais básicas, como seja comer e ir à casa de banho. No 1ª ciclo, trabalhamos três horas e meia sem pausa. É reprovável o tratamento que tem sido dado aos professores, e em especial aos do 1ª ciclo.

Os sucessivos governos têm usado a educação como um mealheiro, que é assaltado sempre que a Banca precisa de uns trocos para as suas borgas.

No 1.º ciclo existem muitas situações especiais. A escola está obrigada a disponibilizar o Prolongamento Escolar até às 17 horas e meia. Os diretores não recebem mais recursos nem têm autonomia, mas como sabem que os professores do 1.º ciclo são “generosos”, aumentaram para o máximo os Tempos de Escola e atribuíram funções letivas nessas horas. Isto revela como o 1.º ciclo tem sido destratado e humilhado pelos Ministérios das Finanças e da Educação, pelas direções das escolas e em especial por colegas do 1.º ciclo em funções nas direções dos agrupamentos.

Os Tempos de Escola são essenciais para a articulação, análise e exploração pedagógica das práticas e da supervisão. No caso do 1º ciclo, é o único momento disponível que o docente tem para realizar a articulação com os encarregados de educação e as famílias, que nestas idades é tão importante.

Sempre que o agrupamento não disponibiliza horas para a realização dessas funções e “prende” o professor a uma “falsa” componente não letiva, está a privar os alunos de terem professores mais conscientes do seu trabalho e mais bem preparados. Se analisarmos o horário de um professor, às “27 horas e meia” semanais de componente letiva, com o desgaste normal de acompanhar alunos entre os 5 a os 11 anos de idade, acresce as tarefas de componente não letiva individual para preparar e avaliar o trabalho, e as horas “extraordinárias” de coordenação/reuniões de ano ou de departamento (que, em muitos dos agrupamentos, também não são contabilizadas para TE (Tempo de Escola)), percebemos que algo está muito mal no 1.º ciclo.

Com cada vez mais docentes com idades entre os 45 e os 65 anos de idade, quem aguenta esta situação? Quem quer ser coordenador com estas condições? Só quem for doido!

A falta de uma organização escolar, baseada na eleição democrática e validada por toda a comunidade, como as Direções, tem servido bem os propósitos de quem governa. Este modelo de gestão, em que prolifera a intriga e a mesquinhez entre a classe docente, cria situações de grande contraste entre os agrupamentos e está a comprometer a qualidade dos professores e da educação em Portugal.

Quando há professores que desejam concorrer para outros agrupamentos de escola, mesmo que estejam mais longe da sua zona de interesse, porque não aguentam mais os pequenos ditadores ou os grandes incompetentes, diz muito da dinâmica desses  agrupamentos…

Durante a campanha eleitoral para as autárquicas, achei curioso ler uma notícia que relatava o descontentamento de diretores de escolas pela ausência de muitos professores por causa da campanha. Quantos desses diretores não seriam candidatos e utilizariam a sua rede de influência escolar para se promoverem politicamente? Porque é que queriam privar os professores de participar nesse momento que antecede as eleições? Porque é que não contrataram atempadamente os professores necessários para substituir os colegas que estariam em campanha? Pois, parece-me que muitos não estão habituados a ver os seus “subalternos” com ideias próprias.

A Escola deveria ser um pilar da democracia, mas está longe de dar esse exemplo!

Gonçalo Gonçalves

Professor do 1.º ciclo

3 COMMENTS

  1. Totalmente de acordo! Os professores de 1° ciclo são espezinhados… “esmifrados”… mas vejo uma grande… enooorme inércia por parte dos mesmos! Todos à espera que o outro faça algo! É o que sinto!

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