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Familiar De Professor Admite Processar Estado Por Morte De Docentes

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A Federação Nacional de Professores (Fenprof) denunciou, nos últimos meses, a morte de quatro professores enquanto estavam a trabalhar e a situação pode agora levar a uma queixa contra o Estado português.

“Um dos familiares admite processar o Estado português e, se isso acontecer, a Fenprof vai prestar apoio jurídico.

Também estaremos disponíveis para apoiar familiares dos outros professores, porque isto pode não ter que ver com estas pessoas em particular mas com situações ditadas pela carga de trabalho enorme a que os professores estão sujeitos”, afirmou ao CM Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof.

A estrutura sindical vai também enviar uma participação ao Ministério Público, no sentido de que sejam averiguadas as circunstâncias das mortes.

“Não podemos ficar com esta dúvida sobre se estas mortes se ficaram ou não a dever às situações de exaustão que afetam quase 80% dos professores, como revelou um estudo da Universidade Nova”, afirmou Nogueira, acrescentando: “Entre março e junho morreram quatro professores em pleno exercício da atividade profissional e vamos pedir ao MP que sejam feitas diligências para apurar as causas das mortes”.

O estudo a que se refere Nogueira, feito a pedido da Fenprof, foi coordenado por Raquel Varela, da Universidade Nova de Lisboa, e revelou que 78% dos docentes vivem em exaustão emocional, o chamado burnout.

Para Filinto Lima, presidente da Associação de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, “os sindicatos não são donos dos professores e deve haver respeito pelas famílias”, numa alusão à eventual necessidade de vir a exumar corpos.

“Os sindicatos deviam conseguir reduzir a componente letiva a partir dos 40 anos, e que aos 60 se possa optar por não dar aulas, exercendo apenas outras atividades na escola.

Iria reduzir o burnout”, disse, frisando que “só os médicos podem relacionar as mortes com o cansaço dos professores”.

Nogueira espera mais denúncias 
Mário Nogueira acredita que nos próximos dias poderá haver mais denúncias de mortes de docentes devido à exaustão emocional.

O dirigente sindical revelou que a Fenprof tem recebido várias queixas de docentes e familiares sobre o excesso de trabalho nas escolas.

Rosa sentiu-se mal mas não teve tempo de ir ao médico
Rosa Maria Guilherme, 49 anos, era natural de Oliveira do Hospital e dava aulas de Inglês na EB 2/3 de Manteigas. Entrou em colapso durante uma aula, a 13 de março. Lecionava 7º, 8º, 9º, 10º e 11º anos.

Foi levada ao Centro de Saúde de Manteigas, dali para o hospital da Guarda e posteriormente para Viseu, quando se percebeu que se tratava de uma situação muito grave.

Chegou já em coma e morreu, vítima, ao que tudo indica, de um AVC hemorrágico. Segundo colegas “já se teria sentido mal dias antes, mas estava comprometida com o seu trabalho e não teve tempo para ir ao médico”.

Marina morreu depois de corrigir mais de 60 provas 
Marina Pereira Cabral, de 50 anos, residia no Fundão, de onde era natural, mas dava aulas na Escola
Secundária Campos Melo, na Covilhã, para onde se deslocava diariamente.

Morreu a 15 de junho, em frente ao computador, quando se preparava para lançar as notas das mais de 60 provas que acabara de corrigir.

Para além de dar aulas, Marina Pereira Cabral também chegava a dar explicações particulares a estudantes com mais dificuldades, na Covilhã e no Fundão. Centenas dos seus antigos alunos fizeram questão de marcar presença no funeral, no dia 17 de junho.

Elizabete morreu em casa quando via testes 
Elizabete Cristina Rodrigues Almeida, 45 anos, residente em Estarreja, de onde era natural, era professora de línguas na EB 2,3 em Fajões, Oliveira de Azeméis.

Morreu no dia 3 de junho, em casa, quando corrigia testes. A docente deixou uma filha e um companheiro, também ele professor. A comunidade escolar de Fajões uniu-se numa homenagem a Elizabete Almeida, sendo celebrada uma missa em sua memória.

Também a EB 2,3 de Estarreja, onde Elizabete deu aulas, veio a público lamentar a morte da docente. A notícia do falecimento motivou várias reações de amigos e colegas.

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1 COMENTÁRIO

  1. Respeito pelos professores é reconhecer que são seres humanos. O facto das suas tarefas não estarem todas plasmadas no seu horário leva a abusos, inclusive dos diretores e da tutela. Uma avaliação competitiva que elimina o espírito de corpo na profissão faz o resto. Uma forma dos familiares e amigos prestarem tributo a estas vítimas, que se juntam a outras que caíram anonimamente no passado, é lutarem para que o sobretrabalho acabe e denunciarem os abusos contra professores. Não contamos com a inteligência moral de quem governa, mas devemos testar as instituições públicas para que se evidencie se funcionam ou não, e se retirem as devidas ilações.

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