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Família

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castigoO lusco-fusco da tarde chuvosa ampliava as sombras no gabinete. A dor de cabeça, ferrada há um bom par de horas, toldava-lhe o raciocínio e desfocava as letras, fazendo-as bailar na folha branca à sua frente. Desistiu, afastando o documento com um gesto resignado e começou a arrumar os papéis. Um suave bater na porta interrompeu a enumeração mental das tarefas por concluir.

A rapariguita entreabriu a porta com embaraço e, com os olhos baixos, resmungou: “mandaram-me vir aqui”. Levantou o braço e acrescentou com brusquidão: “isto é para si”, entregando-lhe umas folhas amarfanhadas pela zanga e pela transpiração.  Aceitou, reticente, o convite para se sentar e permaneceu de olhos baixos e semblante cerrado. Nem mesmo para dizer o nome desamarrou a expressão, arremessando um “Natacha” seco e raivoso.

 “Ó Natacha, estou aqui a ler estas participações disciplinares e vejo que te portaste mal em várias aulas. Ora o ano lectivo começou há pouco e já aqui temos um belo molhinho de ocorrências.” A Natacha mirou impassível, com os olhos semicerrados e fez um esgar desdenhoso. “Pois é”, remordeu, abreviando o assunto. “Ao que leio aqui, foste mal-educada na sala de aula, disseste palavrões perante os professores e os colegas e hoje mesmo bateste numa aluna mais nova e ainda insultaste a funcionária que tentou impedir-te. Que me dizes a isto?”

Virou a cabeça com firmeza e apertou os lábios numa linha fina e azeda, mostrando o intuito claro de encerrar as conversações. “Bem, Natacha, já é muito tarde e estamos ambas cansadas, por isso vamos combinar uma hora para conversarmos amanhã, está bem?” E, perante a inutilidade de aguardar anuência, acrescentou de seguida: “amanhã, às quatro, quando acabares as aulas, vens aqui ter comigo ao gabinete. Vai-te lá embora.”

Mais tarde, já no supermercado, deu por si, desnorteada em frente ao expositor dos legumes, a mente ainda apossada de vidas em conflito, à procura de alívios que tardam, de caminhos que tenta abrir à força de teimosia. Sacode a cabeça inconscientemente para afastar os pensamentos e começa a ensacar os alimentos de que necessita.

Vozes alteradas arrancam-na às suas conjecturas. Uma mulher grita: “já te disse que não, parva de m*rda!” “Parva és tu! Nunca fazes nada do que eu te peço, és mesmo estúpida!”, responde-lhe um timbre acriançado. As pessoas imobilizam os gestos e entreolham-se com assombro. As vozes ecoam pelo supermercado, num registo cada vez mais estridente. “Ó filha da p*ta, sai-me da frente, qu’eu ainda cego e enfio-te a garrafa do azeite pelos cornos abaixo! Não me venhas práqui apoquentar, qu’ eu não tenho saúde, vai melgar a p*ta que te pariu!” Do corredor dos enlatados irrompe uma mulher alta e encorpada, seguida de perto por uma outra, mais franzina e muito mais jovem, que brada: “és tu, és tu! A p*ta que me pariu és tu!” A mulher olha em volta e toma finalmente nota da plateia involuntária no corredor central. Queda-se por instantes, a ponderar se há-de também dizer duas ou três coisas àqueles basbaques. Por fim recua, consumida e impaciente, e vocifera: “olha, sabes que mais, minha estúpida? Vou-me embora e já não compro nada, que não estou para te aturar! Não há bolos, nem jantar, nem o c*r*lho!” E abalou determinada por ali fora, seguida de longe pela Natacha, queixosa e atarefada a refundir no bolso do blusão um pacote de bolachas meio comido.

MCEstendal

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3 COMENTÁRIOS

  1. Sabem o que eu penso após uma leitura de artigos excelentes como este? Fico naquela posição semelhante á do catequista que é ouvido quase exclusivamente por pessoas com uma Fé inabanável . O mesmo se passava em reuniões convocadas pela comissão de pais do liceu que o meu filho frequentava , quando havia problemas e onde só apareciam pais de comportamentos exemplares reproduzidos pelos filhos. Os verdadeiramente necessitados de um diálogo , duma palavra esclarecedora para ajudar a corrigir o que estava errado com os seus filhos não apareciam nem diziam porquê ..
    É estranha esta sensação. Evidentemente estes temas até devem ser periodicamente repetidos ,são muito importantes . Obrigada

  2. Concordo totalmente com a M de Lourdes. Quando nos deparamos com situações destas, ficamos com a noção que as coisas nunca acontecem por acaso e que às vezes não fazemos ideia das vidas por detrás destes garotos.
    A escrita é, como sempre, soberba.

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