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Faltam Expressões no 1.º ciclo

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Artigo escrito para o jornal Público.


Os vossos filhos têm Expressão Dramática, Musical, Físico-Motora e Plástica no 1.º ciclo, sem ser em atividades extracurriculares? Sabiam que é obrigatório os alunos usufruírem de pelo menos três horas semanais de Expressões Artísticas e Físico-Motoras no 1.º ciclo e em tempo de aula?

É isso que acontece nas escolas dos vossos filhos?

No ano letivo passado, quando surgiram as provas de aferição no 2.º ano de escolaridade destinadas às Expressões, aconteceu um fenómeno muito interessante. Foram vários os pais e diretores que se queixaram e questionaram o Ministério da Educação de como iriam fazer a prova de Atividade Física sem terem o material necessário. Lembro-me particularmente de ver uma diretora na televisão, manifestamente chateada e indignada, questionando o absurdo de não ter condições para realizar a prova.

Absurdo foi ver essa diretora e outros que tal que, indiretamente, assumiram o incumprimento do programa do 1.º ciclo, que desrespeitaram as orientações do Ministério da Educação e, acima de tudo, que ignoraram a importância das Expressões e as fases sensíveis que os alunos atravessam entre os 6 e os 10 anos de idade.

Absurdo foi, semanas antes da prova, lembrarem-se que as Expressões afinal existem, apressarem-se em aulas “treino” para depois da sua realização voltarem ao esquecimento do costume.

Enquanto professor, compreendo que o programa do 1.º ciclo é extenso, é desproporcionado (mérito de Nuno Crato), não dá tempo para tudo e, ainda por cima, durante alguns anos houve exames no final do 4.º ano que levaram os professores a dar preferência ao Português e à Matemática. Afinal, os exames eram quem mais ordenava nas escolas do 1.º ciclo.

Enquanto professor, compreendo que falta(va) material e infraestruturas para lecionar as Expressões com a dignidade e exigência que merece e necessita.

Enquanto professor, compreendo que existem certas áreas que socialmente são vistas como mais importantes e que, por isso, é natural que os professores abdiquem de outras que são vistas como de segunda ou de terceira…

Mas, enquanto pai, cidadão deste país e também enquanto professor, não consigo compreender como é que existem docentes que, depois da prova de aferição do ano passado, depois de se queixaram e exigirem condições, voltaram ao silêncio do deixa andar, do voltar ao antes, ao antes que motivou tantas queixas.

Enquanto pai, cidadão deste país e também enquanto professor, não consigo compreender como é que existem diretores que voltaram ao silêncio cúmplice, aceitando o incumprimento de algo que é tão obrigatório como o Português ou a Matemática.

Enquanto pai, cidadão deste país e também enquanto professor, não consigo compreender como é que o Ministério da Educação e a Inspeção-Geral da Educação aceitam que tal seja assim, depois de terem conhecimento de comunicados de várias associações, denunciando que continuam a existir escolas que não cumprem a legislação.

Enquanto pai, cidadão deste país e também enquanto professor, não consigo compreender como é que a Escola ignora o facto de Portugal ser o quinto país com a maior taxa de obesidade da OCDE em crianças e jovens até aos 15 anos e que na prova de aferição de Expressão Físico-Motora, mais de um terço não atingiu os objetivos mínimos nos jogos infantis.

Não tenho dados sobre o número de alunos que não usufruem do que lhes é devido, mas sei que o problema existe e infelizmente conheço casos concretos. Por isso comecei este artigo com perguntas para que quem lê estas linhas diga se a sua realidade me dá ou não razão.

Sei que muitas escolas e professores cumprem com o que lhes é exigido e este artigo de opinião não é justo para eles, mas não devia haver dúvidas, não devia haver um único caso em que um currículo não seja efetivamente cumprido.

Sou da opinião que o 1.º ciclo é o mais importante de todo o Ensino Básico, é onde se colocam os alicerces de todo o edifício da aprendizagem. Os alunos não podem continuar a chegar ao 2.º ciclo sem as bases essenciais para o cumprimento do seu programa.

Termino com um apelo à comunidade educativa – exijam, exijam o cumprimento da matriz do 1.º ciclo, exijam as condições para o seu cumprimento, exijam que a Escola Pública não deixa ninguém para trás, exijam que a Escola Pública não ignore uma área curricular fundamental para o desenvolvimento social, físico e cognitivo das nossas crianças.

A Escola Pública não são apenas os alunos, a Escola Pública não são apenas os professores, a Escola Pública somos todos nós e todos nós temos a obrigação de não pactuar com este silêncio.

Matriz Curricular do 1.º Ciclo

Alexandre Henriques Professor, Pai e autor do Blogue ComRegras

13 COMMENTS

  1. O certo é que se empobreceu o currículo com a ditadura do “Eduquês” criando um mar de analfabetos funcionais. Alunos que desconhecem o próprio corpo e as suas potencialidades físicas e criativas. Alunos que nos chegam ao 5º ano cada vez com maiores dificuldades de motricidade fina Em Ed. visual e Ed. Tecnológica), sabendo apenas mexer com o indicador e o polegar. Embruteceram-se as nossas crianças para quem a simples tarefa de dobrar uma folha ao meio se torna num drama porque os dedos são muitos e atrapalham. Como conseguem rivalizar ser competitivos, por exemplo, com os orientais que com 5 anos de idade já fazem origamis complicadíssimos?

    O grande problema destas áreas é que são altamente específicas e requerem o apoio de professores especializados na apresentação de conteúdos e, especialmente na correta aplicação prática. Considero que os professores do 1º ciclo fazem um dos mais extraordinários trabalhos dentro do ensino, mas não têm de ser especialistas em tudo, assim como eu também não sou, porque há áreas que, naturalmente, não domino.
    O ensino partilhado em sala de aula como se pratica nos países mais desenvolvidos seria muito benéfico para uma aprendizagem integral das crianças. Já o fiz no nosso Portugal a trabalhar com colegas do 1º ciclo com excelentes resultados que, lamento, por critérios economicistas, não tiveram seguimento. a formação integral do indivíduo vem desde a antiguidade grega e foi desprezada nos últimos tempos em Portugal, em contraciclo com o que está a acontecer noutros países lá fora.

    Este enorme crime do afunilamento do currículo só no Português e na Matemática ira pagar-se muito caro no futuro… e lamentavelmente que o irá pagar serão os nossos filhos.

    • Juntaram-se à volta da carçaca,
      Cada um mais prazenteiro:
      ”Embora seja tua a pacaça
      O meu dente é mais certeiro…”

      Digo-te que carne tanta, desaproveitas,
      Digo-te por amizade, por cuidado,
      E esse osso… o das costelas direitas,
      Não se encontra bem rilhado…

      Chega-te pois para esse lado!
      Tu que és curto de vistas,
      O animal será esfacelado
      De bocadinho, a bocado…
      Mas tudo por especialistas…

      És necrófago generalista,
      Não te lanço culpa ou pecado,
      Mas digo-te, sem ser paternalista,
      Que o cadáver não está bem trinchado…

      Sem te querer lançar feitiço, ou pena,
      No fundo não és culpado,
      Mas para rilhar presa tão plena,
      Não foste pela natureza, dotado…

      Fica assim a natureza em defeito…
      Nesse espaço onde manobras…
      não te quero contrafeito…
      Mas quando olho esse teu jeito…
      Vejo que és animal de sobras…

      Por não saberes onde é cabeça e rabo…
      Trincas sempre na moda…
      Mas o grosso deste gado ,
      Que me parece um bom bocado,
      É para ser trinchado,
      Por quem sabe da poda…

    • Diga-me, por favor, nome desses países ”mais desenvolvidos” e como é a matriz curricular dos mesmos… Como se processa, nesses países mais desenvolvidos, essa cooperação entre especialistas e professores generalistas?

  2. Vou dar o exemplo dos Açores em que a matriz curricular do 1.º ciclo está a ser cumprida, os alunos para além dos tempos destinados à expressão dramática plástica e musical que são dadas no tempo letivo, têm dois tempos semanais de educação física dado por um professor da área e um tempo semanal dado pelo titular de turma. Este ano os alunos do 2.º ano também têm alguns tempos de expressão plástica, dado por um professor da área coadjuvado com o professor titular de turma. Talvez seja um exemplo a seguir.

  3. Pois é! Os professores formados em Ensino da Música e em Desporto /via Ensino, em Artes dão AEC, que têm que ter carácter lúdico, não podem ser avaliadas, é tudo a brincar … e depois o professor do 1.º ciclo tem que cumprir o programa das expressões como se fosse um especialista em todas e cada uma dessas áreas! Quem estará mais habilitado para ensinar a fazer a cambalhota, o pino ou seja lá o que for? O professor do 1º ciclo ou o professor de educação física? Quem poderá ensinar melhor a tocar um instrumento, fazer batimentos rítmicos… o professor do 1º ciclo ou o professor de música?
    É como um doente cardíaco ser tratado por um médico de clínica geral apesar de ser visto por um cardiologista que nada pode fazer a não ser dar-lhe uns conselhos de como fazer uma vida saudável! O médico de clínica geral é que é o responsável pelo doente!
    Ou seja! Desperdiçam-se recursos porque assim são pagos a tuta e meia, nas AEC. Na verdade esses professores deviam era estar a dar aulas aos meninos do 1º ciclo. No mínimo deviam estar a coadjuvar os professores do 1º ciclo.
    Mas neste país é tudo assim! Quem manda, não pergunta nada a quem está no terreno.
    Acho tudo isto um absurdo!

  4. Esta matriz é um bom exemplo como uma especialização precoce para além de formar “péssimos” cidadãos, não forma concerteza bons alunos. Os bons alunos, tal como os bons em qualquer coisa, devem ser desenvolvidos ao longo dum processo que lhe permita, quando adultos escolherem o que querem ser, mas também terem as ferramentas técnicas, científicas, atitudinais que lhes permitam responder às incertezas da vida ou, melhor dizendo, à única certeza que é o facto de cada vez mais a vida ser muito incerta e exigir grande capacidade de flexibilidade e adaptação às mudanças que cada vez ocorrem com mais velocidade e constantemente. Como é possível em crianças dos 6 aos dez anos estarem sujeitas a 15,5 horas em 24,5h a somente duas disciplinas, sejam elas quais forem? Como é possível os alunos terem somente três horas semanais, ao critério do professor, para cumprir todas as áreas das expressões? Como é possível continuarmos com essa mentir de chamar à Educação Física uma Expressão? Expressão de quê? Só se for daquilo que os professores ensinam (ou deveriam ensinar) e o que os alunos aprendem…mas assim todas as áreas são “expressões”….
    Deixemo-nos de conversa: definam lá mas é a carga curricular para a Educação Física: 3×30 minutos de tempo útil para os dois primeiros anos e 3×45 minutos para os dois últimos anos; criem um grupo novo para o primeiro ciclo (como fizeram a Inglês) com professores com formação, vontade e capacidade e comecem a trabalhar……as nossas crianças precisam, as nossas crianças merecem e o país só ganha com isso. Já perdemos muito tempo……….

  5. Para quem gosta tanto de flexibilidade querem tudo ” marcadinho” nos horários e bem definido, principalmente a EF… Tudo a bem dos alunos , claro !!!

  6. Negligência, Alexandre Henriques ? Quem é negligente? Os colegas do 1º Ciclo? Olhe que ando há algum tempo nestas coisas, e por experiência com os meus filhos, o que verifico é que há é muito trabalho… Não me parece que acusar colegas, que são exatamente iguais aos restantes professores dos outros ciclos, seja uma boa ideia para a classe… Mas vivemos numa democracia…
    Por outro lado tenho visto os melhores exemplos neste ciclo (eu pessoalmente) . No pré escolar, então… conheço histórias absolutamente extraordinárias de profissionalismo… Crianças que chegam à escola sem qualquer autonomia, inclusive motora, e vejo os colegas, e as colegas, a fazerem verdadeiros milagres… A darem o pão e a educação que anda completamente ausente de alguns lares…

    • Eu não tenho uma posição corporativa no ComRegras. Defendo e critico quando acho que o devo fazer. Os professores do 1º ciclo são essenciais no processo de ensino e são vítimas de uma série de injustiças. Porém, considero a postura de alguns negligente, sim, assumo o que digo. Existem vários motivos, mas um deles é a desvalorização que fazem às expressões com a cumplicidade dos diretores.

      • Concordo com as expressões a cargo dos professores titulares de turma… Nunca concordarei que haja professores coadjuvantes…. Afinal todos os professores do q. Ciclo estão capacitados para lecionar todas as disciplinas do currículo. Não lhe peçam é que façam mais do que os programas pedem.

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