Início Editorial Falhas amadoras de um ensino que se apelida profissional.

Falhas amadoras de um ensino que se apelida profissional.

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O ensino profissional é fundamental para a sociedade. Nem todos têm de ser doutores e engenheiros e o país precisa de mão de obra qualificada para a realização de trabalhos mais práticos digamos assim. Existem muitas escolas profissionais de qualidade por este país fora, escolas criadas para o efeito, com condições e professores orientados para este tipo de ensino. Que continuem e que sirvam de modelo para as restantes.

Como sabem o governo (o anterior também) quer apostar no ensino profissional, quer até abrir uma via para o ensino superior, algo que me faz alguma confusão pois sempre encarei o ensino profissional como algo direcionado para a integração imediata no mercado de trabalho, logo após a conclusão do ensino obrigatório.

Esta aposta – na ordem dos 50% até 2020 – não é assim tão inocente, o financiamento do ensino profissional tem o apoio da União Europeia e certamente que daria muito jeito ao governo reduzir a sua despesa no campo da educação. A colocação deste tipo de metas não faz muito sentido, a orientação escolar não é algo que se possa medir, por isso criar objetivos específicos com data e tudo, é um pouco como fazer uma previsão meteorológica lá para 2020…

O ensino profissional em Portugal é uma segunda escolha, não deveria ser, mas é, os alunos encaram-no como tal, os professores olham-no como um ensino inferior e nas turmas populam alunos com retenções no currículo e problemas comportamentais.

Em Portugal, os alunos que saem fora da “forma” tradicional (ciências e letras) são vistos como alunos inferiores, menos capazes e são tratados como tal. São diferentes, é verdade, mas são melhores do que muitos só que em áreas que não têm o estatuto dos intelectuais…

Os alunos que frequentam um curso profissional, são castigados com uma carga letiva superior ao ensino regular. A burocracia roça o ridículo, são os módulos, as faltas, os termos, as recuperações, tudo faz carburar o “complicómetro” escolar. Para quê? Chegamos ao ponto de um aluno que vai representar a sua escola, ou que simplesmente fica doente, por exceder a cota dos 10% de faltas por módulo, é obrigado a fazer uma prova de recuperação, mesmo que as faltas estejam justificadas. Mas que sentido é que isto faz? Para quê sobrecarregar alunos e professores? Quem é o génio que inventou isto???

Mas um dos maiores problemas no ensino profissional está na falta de preparação dos professores, sim… sei bem o que estou a escrever e por favor leiam até ao fim…

Já referi que o Ministério da Educação tem uma obsessão para mudar tudo, os cursos profissionais não escapam a esta “criatividade”. A quantidade de cursos e módulos “estranhos”, onde os professores fazem pela vida para arranjar materiais para se prepararem devidamente, é um fartote…

Querem um exemplo? Eu vou ter que lecionar um módulo de “body and mind” no curso de desporto (que permite aos alunos ter grau 1 de treinador de futebol). Eu nunca tive qualquer formação sobre “body and mind”, muito menos na faculdade e não tenho qualquer curso de treinador de futebol, sou sim especialista em Educação Física, via ensino, não de rendimento. Desenrasco-me? Claro que sim… mas se estou a ensinar 29 alunos não deveria eu dominar o que ensino como ninguém?

Agora pergunto-vos… não seria lógico ter usufruído de uma formação lá para julho do ano passado, que me preparasse devidamente para este curso? Não deveria a tutela disponibilizar/indicar documentação (já que foi ela que criou o dito) para que eu pudesse ao menos estudar e preparar-me condignamente?

O ensino profissional é uma ideia muito bonita, mas nas escolas que têm como premissa o ensino regular, o termo “profissional” é só de nome, tal não é a sua burocracia, falta de formação e falta de condições que dispõe.

Vamos apostar no ensino profissional, vamos! Sou o primeiro a defendê-lo! Mas não obriguem professores de Biologia a darem Higiene e Segurança no Trabalho, os professores de Economia a darem atendimento ao cliente e professores de Educação Física a darem gestão de estabelecimentos…

E já agora… não deveria a escola e seus professores terem uma palavra a dizer na criação/implementação destes cursos? E falam eles em autonomia escolar…

Alexandre Henriques

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6 COMENTÁRIOS

  1. – é que já nem sequer se trata disso! as crianças hoje crescem quais inaptos par afazer qualquer trabalho manual lá em casa! também o que é que interessa: basta-lhes ter três dedos para carregar nas teclas ou até dois só chegam para arrastar! viva e.t.!

  2. Uma vez mais de acordo.Não são apenas os prof.que têm reservas em relação a este ramo de ensino,muito pelo facto apontado sem receios pelo autor,mas também muitos alunos que nele vêem uma forma facilitada de adquirir a escolaridade obrigatória (alguns que conheço têm explicações e nem apoio querem e dizem claramente que desejam a equivalência para ir para a Universidade,mito criado pela extinção das Escolas Industriais e Comerciais que tão boas armas forneceram a jovens que,com capacidade se licenciaram.Todos tivemos excelentes colegas com este percurso académico.

  3. Boa noite Alexandre,

    Concordo, plenamente, com tudo e encontro-me na mesma situação. Gostaria de saber, se possível, se me conseguiria ajudar no que diz respeito ao módulo body & mind que igualmente terei de lecionar sem ter tido qualquer tipo de formação na área. Visto que já passou pela mesma situação, será que me conseguia disponibilizar ou indicar alguma documentação.

    • Tente fazer uma parceria com alguém da área. E se possível convide um especialista para abordar o assunto. Eu resolvi o problema dessa forma…

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