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Exemplos De Critérios De Avaliação Que “Abraçam” A Flexibilidade Curricular

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Nota prévia: “Muitas Escolas Têm Os Critérios De Avaliação Errados”, se não leram este artigo devem fazê-lo, pois ajudará a entender o que se segue.


Foram vários os pedidos a solicitar critérios de avaliação que incluam o que foi referido no artigo acima e que será o rumo a curto/médio prazo para muitas escolas. Aliás, muitas delas estão neste momento a “lutar” com a aplicação de critérios que façam sentido com a flexibilidade curricular, que visem um ensino diferenciado, onde cada turma é uma turma e cada aluno é um aluno.

Pois bem, o Agrupamento de Escolas nº 1 de Abrantes foi apontado como exemplo, tendo já partido muita pedra nesta matéria e que causa sempre tanta celeuma, pois como sabemos afeta uma área central de todo o processo de ensino, a avaliação.

Não existem critérios perfeitos, repito, não existem critérios perfeitos, logo o que vão ver de seguida não são os critérios perfeitos, são os critérios que a Escola de Abrantes definiu para si.

Informo também que após contacto com o diretor do Agrupamento, Jorge Costa, a escola não encara os critérios de avaliação em vigor como um processo fechado, mas sim em desenvolvimento. O seu objetivo é ter critérios de avaliação que abranjam de forma mais equilibrada as diferentes vertentes do aluno e que inclusivamente estão a ser trabalhados no presente ano letivo. (espero em breve apresentar no ComRegras uma entrevista com o respetivo diretor)

Deixarei no final o link onde constam os critérios de avaliação da respetiva escola para os diferentes anos e disciplinas, mas para já quero focar-me essencialmente nos seus níveis de desempenho.

Retirado dos critérios de avaliaçao do Agrupamento de Escolas nº 1 de Abrantes

Como podem constatar, os níveis de desempenho são transversais a todas as áreas curriculares e abrangentes a todas as áreas de desenvolvimento do aluno. São patamares de desempenho, onde o professor não fica limitado às grelhas de Excel, onde todo o trabalho do ano e onde todos os elementos recolhidos (um teste, ou uma simples conversa com o aluno), contam para o patamar referido. Estamos a falar de algo que vai muito mais longe que a aritmética simples de 9,4 valores (escala de 1 a 20) ou 4,4 (escala de 1 a 5) que o Excel atribui no final de cada período escolar.

Estes níveis de desempenho permitem algo que o calculismo não contempla, o conhecimento, a intuição, a experiência e o bom senso do professor. Colocando em prática o que tanto se prega que é a autonomia do professor, a diferenciação pedagógica e a diferenciação avaliativa.

Reparem que este “telhado” que são os níveis de desempenho não contemplam os conteúdos, pois os conteúdos, numa lógica de flexibilidade devem ser ajustados às capacidades dos alunos.

Por exemplo, ninguém ensina um aluno a nadar sem antes ele conseguir entrar na água e conseguir molhar a cara. Se este cumprir o plano previsto, mesmo que esteja atrasado relativamente aos colegas, não será correto penalizá-lo só porque tem um ritmo de aprendizagem mais lento, ou carece de bases de anos anteriores. Aos meus olhos, este aluno obteve sucesso, pois esforçou-se, dedicou-se, aprendeu, evoluiu. Mas aos olhos do programa o aluno está atrasado, levando a dúvidas legítimas de quem tem a difícil tarefa de avaliar.

Se existirem critérios pormenorizados, balizados, o professor ficará refém e será obrigado a condenar este aluno a uma negativa na pauta. Parece-vos justo? Na minha modesta opinião não é, e tal como eu, alguns professores são “forçados” a “aldrabar” o que colocam na grelha de Excel para que a justiça seja feita.

Acredito que muitos professores não querem ser “manipuladores” de grelhas, ziguezagueando por critérios de avaliação estanques. Os critérios de avaliação devem dar liberdade para avaliar não só a vertente factual, mas tudo o que é formativo e que termina na constatação prática do trabalho do aluno e respetiva evolução.

Como me disseram recentemente, o importante não é o que se ensina, o importante é o que o aluno aprende…

Por agora não irei abordar a fase seguinte dos critérios de avaliação que são necessários e que a Escola de Abrantes também contempla. Pessoalmente fico satisfeito por saber que o diretor tenha referido que estão em reformulação, pois sinceramente discordo de algo fundamental e que em breve irei falar. Mas estes níveis de desempenho, que seguramente não são perfeitos, apontam para um caminho de coerência com tudo aquilo que tem sido implementado: a política de ciclo, o perfil do aluno, as aprendizagens essenciais, o decreto 55º, o decreto 54º, e afins…

Ao lerem o que escrevi podem concluir que estou convertido à flexibilidade curricular, se leram o artigo que referi em cima, vão perceber que o problema não está, nem nunca esteve na crença ou não desta ideologia política, está sim na coerência de uma política educativa com evidentes contradições como são os critérios de avaliação e os exames nacionais.

O foco é e será sempre a aprendizagem do aluno, independentemente do Ministro ou da política. E isto, meus caros, é o objetivo de qualquer professor e o farol que nos deve nortear todos os dias…

Alexandre Henriques

(carregar na imagem para aceder)

25 COMMENTS

  1. Caro Alexandre,
    Continua confuso. Avaliar em níveis de desempenho não elimina o insucesso se compararmos o aluno com outros ou com o desempenho ideal (registado num referencial) para aqueles conteúdos e para a sua idade, etc.
    Ele pode até ter levado ao limite o seu potencial e ser excelente em valores e na sua atitude, mas não produzir resultados, resultados corretos. O problema é que continuam focados na avaliação como se um novo modelo de avaliação resolvesse o seu problema em aprender. Caro Alexandre, O PROBLEMA É DE NÃO HAVER MÉTODOS E ENSINO INDIVIDUALIZADO PARA AS ESPECIFICIDADES DE DADO ALUNO. E, não sejamos líricos. Alguns não sairão nunca do seu nível 1, apenas porque esse é o seu limite de aprendizagem (um chimpanzé faz no máximo x operações = esse é o seu limite de aprendizagem…) ATÉ PORQUE TODOS OS ANOS HÁ SKILLS NOVOS E CONTEÚDOS NOVOS. MILAGRES???!!!!!….

  2. Não percebi… mas eu também sou arcacico! Isto é que é inovação??? Mas isto altera o quê? Vai ser melhor em quê? Essa do que conta não é o que se ensina , mas o que vale é o que o aluno aprende… ainda me deixa mais banzado… Mas você acha que os agrupamentos, antes do SE Costa, andavam todos tocados a EXCEL???

  3. Assim sendo, teremos um aluno que chega ao final do 12.º ano a saber nadar e outro que apenas sabe boiar. Este último aprendeu, pois antes nem na água sabia entrar, mas continua a não saber nadar, por isso vai continuar a afogar-se.

    Peço perdão pelo atrevimento, mas o que escreveu é uma pegada parvoíce. Será que é preciso explicar porquê? Teremos também médicos a várias velocidades? Um opera o coração, o outro só consegue abrir o corte. Numa equipa de engenheiros civis, um sabe fazer os riscos com um lápis e uma régua; o outro sabe fazer uns cálculos na base da regra de 3 simples; o décimo quinto sabe utilizar o último programa informático para delinear a ponte.

    Entretanto, eu tenho filhos na escola e gostaria imenso que os senhores não condenassem à ignorância quem já entra com dificuldades e revertessem as conquistas que a escola obteve desde os anos 80.

    Pobres filhos meus, que estão sujeitos a esta mentalidade tacanha e perpetuadora da ignorância.

    • Não tenha vistas curtas, o que sabe boiar pode perfeitamente seguir uma via de ensino alternativa, prática, adquirindo competências para uma outra profissão. O problema são este tipo de pensamentos que julgam que todos têm de ser doutores e engenheiros. Mas além de criticar, que é sempre tão fácil, apresente uma alternativa para os alunos que têm dificuldades. Já sei, se calhar é daqueles que querem chumbar os alunos de forma continuidade, e depois fica com turmas de 50 alunos? Vá, qual é a sua proposta?

      • Brilhante a sua resposta. Acredite, são docentes como este que levarão a escola pública ao fracasso. Querem que todos sejam comparados aos médicos.

    • Não quero entrar em polémica, pois o assunto é o “busílis” da questão educativa atual. No entanto, o aluno que saiba flutuar – não é boiar – já não se afoga.

          • Chega sempre a qualquer lado, se o professor o incentivar; poderá manter os espaços físicos aprazíveis, limpos o que fará com que a clientela aumente e o proprietário enriqueça , partilhe a fortuna com o seu empregado.

          • Pois é, não chega a lado nenhum, mas só depois de flutuar é que pode aprender a propulsão. Isto é, saber nadar! E depois há os que se ficam pelo “crawl” e os que vão até à mariposa.

      • Claro que não! Imagine! Apenas vai para onde a corrente o levar. Agora, aplique isto ao contexto neoliberal e reflita se não se encaixa tudo na perfeição.

      • Se houver muita ondulação estará em perigo de se afogar mesmo sabendo nadar, se só souber flutuar terá problemas logo na primeira onda mais forte! Tudo é relativo!

  4. Comecei a ler parecendo-me que era algo novo.
    Depois fui ao sítio da escola e consultei os critérios de Matemática A do 10.º ano.
    São absolutamente iguais aos das escolas que conheço.

    • A parte das ponderações sim, que estão a ser trabalhadas como referi no artigo. Os níveis de desempenho não estão em todas as escolas, como sabe.

  5. Na verdade, a maioria das escolas não tem critérios de avaliação. O que as escolas têm são critérios de ponderação, contando para a avaliação sumativa, fundamentalmente, as classificações obtidas em “testes”. Ora, o que este Agrupamento fez foi eliminar as “notas” dos “testes”, substituindo-as por classificações em descritores, utilizando instrumentos diversificados. Com esta avaliação o professor pode adequar estratégias e colocar, também, na mão do aluno poder melhorar o(s) descritor(es). A dificuldade apresentada por um aluno e registada pelo professor no decurso da avaliação, num determinado período do ano, não é considerada na avaliação sumativa, quando se verifica que o aluno superou o problema. É uma avaliação ao serviço da aprendizagem.

    • Óptimo, óptimo! Isso é práticamente a descoberta da roda! Estão pois, redigindo um papel, as questões cognitivas, as faltas de auxiliares, e… as desigualdades de ordem económica… dissipam-se num ápice… É assim que se trabalha… Com mais uma pitada de dois ou três teóricos da flexibilidade, e uns argumentos do aluno no centro da aprendizagem… a escola isola-se do mundo e vira um oásis…
      Não passamos da retórica e de engendrar umas frases que substituem o excel, mais umas atividades de encher o olho , para dizer que somos modernaços… No fundo uma maquilhagem e uma panaceia de uns quantos iluminados…
      Ainda por cima o que é aqui apresentado, perdoem-me o excesso, é de uma banalidade total…

  6. Quanto à existência de um documento com indicação de níveis de desempenho, na minha modesta opinião, não é novo, não é inovador e não resolve nenhum problema de fundo, muito menos introduz um novo paradigma de avaliação considerando a flexibilidade curricular ou o Perfil do Aluno. O problema da classificação (se consideramos um problema….) não é resolvido pela adoção de níveis de desempenho, pois continua a ser necessário determinar qual será o nível do aluno, o que implica outros tipos de ponderação e instrumentos de avaliação. Para além disso, também não resolve a questão de rotura que é aceitar ou não em toda a sua plenitude (e não por meias palavras, meias intenções ou interpretações de normativos em função do que se quer atingir…) o princípio de que um aluno dever ser avaliado em função do que aprende ou é capaz de aprender, ou do seu nível de aprendizagem tendo em conta referenciais pré-estabelecidos (os anos de escolaridade, as aprendizagens essenciais, a preparação para provas finais de ciclo ou exame, etc).

  7. O PROBLEMA É DE NÃO HAVER MÉTODOS E ENSINO INDIVIDUALIZADO PARA AS ESPECIFICIDADES DE DADO ALUNO. A professora Elena colocou e eu concordo. Até quando vamos ficar na mesmice?

  8. Excelente artigo. Regozijo-me em saber que há escolas que apostam na diferença. Espero que os docentes se desprendam do passado, olhem para a flexibilização como forma de fazer diferente, de dar uma resposta justa e equitativa à avaliação dos alunos. A avaliação pauta-se pela subjetividade do avaliador. Nada ganhamos em acusar os docentes dos anos transatos como sendo os responsáveis pelos fracos resultados dos alunos. Quanto à obsessão dos exames, há muito que não me causa insónias, contudo, logo que possa, inscrever-me-ei na formação Flexibilização Curricular. Deve apostar-se na Formação de professores. Muit0os estagnaram no tempo.
    Vou dar-lhe um exemplo que se prende com o ensino da gramática estéril. Ler as obras do programa em sala de aula, uma raridade, “não é obrigatório”, “o aluno deve fazê-lo em casa”. Passam-se horas e horas a ensinar gramática a alunos que não possuem hábitos de leitura, que não compreendem o que leem. Pois, pois, a gramática faz parte do programa… Termino, dizendo que gostei de rever o exemplo do nadador, PERFEITO E CLARÍSSIMO.

    • Primeiro tem de ensinar os alunos a ler… Quanto a essa de apostar na diferença… estamos a falar de uns ”rodriguinhos” e umas papeladas para baixar o nível académico até que o currículo sirva a ignorância… Isso é espectacularmente moderno e inovador… Ideia ainda mais brilhante é a de que a Escola não ensina, mas que se adapta, sucessivamente até obter o sucesso, não sabendo eu o que isso seja… É claro que isto é na escola dos pobrezinhos… para os abastados a ”coisa” funcionará nos modos habituais e exigindo o máximo …
      Não falarei, sequer, da ”bandalheira” que é aplicar diversas medidas que visam, unicamente, baixar o nível académico, quando o único problema é que eles são uns grandes ”calaceiros” e não lhes apetece nenhum… já sei… os professores não os sabem motivar! O que vale é que há iluminados como a Maria que é moderna e vai salvar a Escola Pública… e modesta!!!

  9. Tenho andado a tentar perceber. Quanto mais leio, comparo e penso no assunto, mais me convenço que a missão é impossível.
    Andamos nisto há muito (e somos tantos), apresentam-se hipóteses que nunca estão bem, falta sempre qualquer coisa, mas a coisa que falta parece ser tão difícil de identificar como o bosão de Higgs, que, pelo menos, estava previsto no modelo padrão.
    Já parece uma grande confusão misturar planificações e critérios.
    Já me parece uma grande confusão ninguém conseguir esclarecer nada, ou pelo menos esboçar um “modelo-padrão”, à exceção da disciplina de Português, que pela sua especificidade permite uma transversalidade, ao longo do tempo, que não é possível nas restantes disciplinas. Será que o modelo foi testado apenas nesta disciplina e universalizado sem considerar as especificidades das restantes? Sinceramente, temo que sim, pois não se compreende este tratamento diferenciado entre a disciplina de Português e as restantes. Por que razão foi fácil nesta e nas restantes está tudo em construção, em aperfeiçoamento? Será que, de repente, nos tornamos incapazes e/ou velhos e cansados? E todos? A probabilidade estatística de tal ocorrência é muito baixo!
    Já me parece uma contradição afirmar que «Os critérios de avaliação constituem referenciais comuns na escola, sendo operacionalizados pelo conselho de turma » (Portaria n.º 226-A/2018, artigo n.º 20, n.º 4, de 7 de agosto) e simultaneamente pressupor que se deve atender às particularidades, “tão líquidas”, de cada um, obrigando o professor a traduzir numa escala quantitativa uma avaliação, de acordo com os critérios aprovados. Por redução ao absurdo, talvez se possam dispensar os CA, bastaria uma linha com as Aprendizagens Essenciais para registar os progressos de cada um e que, no final, seriam objeto de certificação.
    Não se pode negar a especificidade biológica e a diversidade. Esta flexibilidade foi o modelo mais inflexível com que me deparei ao longo da minha carreira profissional. A razão parece-me muito simples, é tão vago que se torna “líquido” e todos vamos navegando numa busca sem fim, desgastante, tentando vestir um rei, que vai nu, para que brilhe nas estatísticas. Por outro lado, os normativos legais parecem constituir-se como simples adereços num sistema em que tudo parece valer.
    «Quo vadis?» é a pergunta que me coloco e para a qual não consigo resposta… Talvez o problema seja meu! Mas acreditem, gostaria mesmo de compreender para não ocupar mais a mente com este problema!

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