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Exemplos De Como Um Diretor Consegue Castigar E Pressionar Um Professor

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Há diretores e diretores, uns são colegas de profissão com o senso de quem não se esqueceu do que é dar aulas, outros ficam cegos pelo poder e tornam-se vingativos quando as suas vontades são contestadas.

Um diretor não é patrão e como tal não consegue despedir um professor. Pode abrir um processo disciplinar, mas são poucos os que se expõem a estes extremos pois todos temos telhados de vidro e seria chato se o acusado começasse a falar sobre determinadas ilegalidades que constata na sua escola.

É mais fácil e mais produtivo, “castigar” um professor com turmas que ninguém quer, e/ou atribuir um horário daqueles que mais parecem um queijo suíço. Ambas as hipóteses são prática relativamente comuns e é verdade que certos professores também se colocam a jeito.

Recentemente recebi uma mensagem de um professor que afirmava estar a ser propositadamente prejudicado pelo seu diretor, infelizmente não é a primeira vez que recebo este tipo de informação, portanto concluo que não se trata de um ato isolado.

Este professor enviou-me um horário em formato queijo suíço, que ainda por cima o obriga a deslocar-se entre diferentes escolas. Na 2ª feira, por exemplo, tem de ir a 3 escolas diferentes, tipo o padeiro da aldeia.

Evidentemente que se compararmos este horário com o de outras profissões, muitos vão dizer que é um felizardo, mas a realidade da docência é muito específica e só quem não passa por uma sala de aula é que é capaz de compreender a necessidade de “desligar”, de sair da escola, afastando-se de um meio tão intenso e agressivo como é o ambiente escolar. Por isso não comecem com a história dos privilegiados, pois muitos professores fazem bem mais que 35 horas semanais.

Outro exemplo, é a atribuição de cargos, onde alguns professores são vistos mais como “carne para canhão” do que um colega de profissão.

Muitos são os felizardos que vibram com uma direção de turma, mas há uns, que de tão excecionais que são, merecem não uma, mas duas direções de turma. E depois, ainda há aqueles que como têm muito tempo livre, são encarados como os suprassumo da docência, em que lhes é atribuído duas direções de turma com um horário incompleto.

Isto não é para qualquer um, e o colega que escreveu este post no facebook, deve sentir-se ultra feliz por ser merecedor desta bela prenda de boas-vindas! Não se trata de um castigo, trata-se simplesmente de um abuso!

Vá, não se queixe, com sorte ainda ganha um “queijo suíço”…


Por fim, deixo-vos um texto que me foi enviado sem nome, revelando mais um caso onde um(a) professor(a) se sente castigado(a) e perseguido(a) pelo(a) seu(ua) diretor(a).

Mordaças

No mais fundo de mim sinto o grito de revolta de um silêncio que me querem impor perseguindo o melhor de mim, amordaçando as verdades num castigo invisível. Levanto-me dorida na minha independência intelectual e ferida na minha liberdade de expressão. Recuso-me a obedecer à doutrina mesquinha de quem pretende, numa punição administrativa, que acredite que se pode ser professor sob ameaça. Não, nunca deixarei de dizer o que penso em prol dos meus alunos. Não calarei a minha voz por medo, se entender que a razão e a justiça estão comigo. Sei que continuarei sob uma vigilância estranha e pérfida, mascarada nos detentores de poder a quem foi dada uma pseudo-autonomia, apenas para calar  quem tem opinião e coragem de a tornar pública, independentemente das consequências. Apesar de tudo, acredito na liberdade de expressão e não vou abdicar deste direito.

O acto pedagógico de um professor é muito maior que desconsiderações administrativas de um escabroso assédio laboral que pretende silenciar o que não fica bem na fotografia. Um professor não se arruma direitinho como um livro que só abre e lê quem quer. Ameaças, imposições e proibições são artimanhas para amedrontar e desmobilizar. São tomadas decisões, por caprichos de pequenos ditadores que avançam sobre tudo o que é pedagogicamente correcto, num ego imenso de poder que se sobrepõe à razão, à moral, à ética profissional e até à lei. Silenciosamente, dei o melhor de mim, caminhei ao lado dos meus alunos para que não caíssem tantas vezes e muitos foram os momentos em que os levei ao colo. E, apesar das inúteis solicitações indecifráveis em que me vi asfixiada, das siglas que aumentavam a cada dia e de todas as fornadas de decretos e leis e adendas, consegui levá-los ao final da viagem.

Hoje dói-me a alma pois, a vingança foi perpetrada sem vergonha. O meu esforço, entrega e carinho serão reconhecidos pelos alunos e encarregados de educação. Isso basta para ter a certeza que valeu a pena. Fui, sou e serei uma eterna combatente do assédio moral e profissional. Ser professor num constante pesadelo onde a ditadura mostra o pior do ser humano é incomportável. É inenarrável o que acontece diariamente por esse país fora onde urge a democracia na gestão das escolas.

Todo o poder se esvazia quando se torna imoral e quando a coação e a perseguição são a lei e o medo, sentido em cada esquina. Uma revolta silenciosa vai crescendo destruindo a alma dos que amam a grandiosa missão de ensinar, dos que amam a escola e os alunos. No dia primeiro, há muitos anos, em que entrei numa sala de aula, jurei solenemente abraçar de coração o imensurável dever de enobrecer almas, esclarecer mentes amparar todos os que cruzassem o meu caminho e as minhas palavras, numa consciência de entrega autêntica pois prometi servir e não servir-me.

Perdemos a noção da importância e relevância das coisas. Guardo as lembranças, memórias, nostalgias, saudades. Mas existe a vida hoje e não me conformo com a apatia dos pensamentos e do espírito crítico, vou cultivar o difícil hábito de ter empatia com os outros e acreditar que este “Triunfo dos Porcos” vai terminar e a vida seguirá um novo ciclo e o Professor voltará a ser Professor e a preparar o futuro do país.

“O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.” Friedrich Nietzsche

Professora

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10 COMENTÁRIOS

  1. Já devíamos ter aprendido com as lições da História e da Sociologia organizacional que os capatazes são mais papistas que o Papa, quem implementou os modelos de organização escolar sabia muito bem o que estava a fazer, sabia-o perversamente. Temos muita gente na política sem cultura democrática e sem cultura em sentido amplo, pois destruir a escola é destruir a incubadora da Democracia

  2. Estes exemplos lembram-nos que é necessário e urgente rever a gestão das escolas e voltar à escola verdadeiramente democrática. Vendo nos programas dos partidos só o BE e CDU estão disponíveis para alterar o modelo de gestão, para mim o principal problema das escolas.

  3. Hoje ser professor do ensino obrigatório é ter obrigações e os direitos vão sendo destruídos pela maioria dos diretores das escolas.

  4. Claro que não é caso isolado !.
    Também há os que exercem bullying para com os demais colegas. O poder traz destas coisas….
    Ser um bom líder não é para todos mas, o sistema , retirou aos professores o direito de elegerem os seus pares. Está tudo dito !

  5. Concordo plenamente com a colega Zilda.O bullying exercido sobre nós pelos diretores é muita das vezes propositado. Quanto mais fazemos, mais nos é exigido.Se estamos alguns dias de baixa (aos 64 anos e com 39 de serviço) provavelmente porque a idade já não perdoa as facilidades de saúde, ameaçam-nos com os pais, e exercem sobre nós uma pressão exagerada.
    Realmente temos e devemos ter força para os enfrentar nem que seja por outras vias…

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