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Exemplos Concretos De Indisciplina Em Sala De Aula

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Falamos muitas vezes de indisciplina, mas sempre em contexto abstrato. O texto que se segue é “delicioso” pela precisão cirúrgica do que se passa em muitas salas de aula por esse país fora.

Parabéns à autora, Tânia Ribeiro!


Parece que o Governo do Sr. António Costa (aquele que ganhou pela abstenção de quem acha que não votar faz sentido) vai aprovar a medida do fim dos “chumbos” até ao 9º ano. Ora bem, eu proponho que poupemos tempo aos professores e a passagem seja automática até ao 12º ano, afinal, é essa a escolaridade obrigatória, certo? Aliás, eu até proponho que à nascença, seja anexado ao registo da criança o certificado de 12º ano, assim, todo o processo do “faz de conta que és aluno e eu professora” seria mais profícuo.

Feitas as contas de cabeça (quem me conhece sabe que não sou boa em contas e como tal, muito me estará a escapar aqui), nos últimos anos já tive:

– alunos que cuspiram no chão da sala;
– alunos que me mandaram “pó ca%&#$*”;
– alunos que entraram na sala a falar ao telemóvel;
– alunos que se recusaram a sair da sala após ordem de expulsão;
– alunos que dizem todo e qualquer tipo de impropério seja na sala ou corredores, alguns bem sonoros, quer eu esteja ao lado deles ou não (já me questionei se serei invisível?);
– alunos que comem a meio da aula como se num piquenique estivessem;
– alunos que entram na sala de fones nos ouvidos e sem qualquer mochila, caderno ou seja o que quer que hoje em dia se entenda por material escolar;
– alunos que dormem na aula (chegam a babar a mesa, tal é o sono dos belos adormecidos);
– alunos que arrotam na aula (propositadamente);
– alunos que se peidam na aula (propositadamente, estão a ver, em jeito de concurso do peido mais alto!);
– alunos que fazem gestos obscenos na aula (com mãos, línguas e tudo o mais que a vossa imaginação permitir);
– alunos que acendem cigarros na aula;
– alunos que queimam papéis, fios de persianas, casacos de colegas, etc, etc, etc, na sala;
– alunos que saem da sala, quando bem lhes apetece, sem pedir licença (pois, eles também não sabem o que é licença, como haviam de pedir?);
– alunos que impedem a aula de decorrer pois falam do primeiro ao último minuto e quando chamados à atenção ainda questionam: “Qué queu fiz agora? Está a tripar comigo outrabez proquê?”;
– alunas que se maquilham na sala de aula;
– alunos que deixam lenços ranhosos, papéis, restos de comida, etc, etc, etc, nas mesas e no chão e mal toca, saem à velocidade da luz (e aos gritos), sendo impossível fazer ficar quem quer que seja a limpar a sala;
– Alunos que viram mesas e atiram cadeiras (taditos, acordaram um bocado enervados!);

Bom, posto isto, o que é que me falta na coleção? Pois, levar um sopapo nas bentas de um aluno ou de um encarregado de (des)educação. Deve estar para breve, digo eu que me conheço há umas boas décadas.

Muitos ao lerem isto, devem ter pensado: ah, se fosse comigo, fazia assim, fazia assado, matava, estripava, blá, blá, bla….outros, seguidores do fundamentalismo da educação pelo diálogo, da análise comportamental, da educação inclusiva ou lá que raios seja isso, devem ter pensado que os professores é que não têm paciência, andam desmotivados e as crianças é que pagam. Pois bem: estou-me nas tintas para o que pensam…estou cansada de ouvir palpites e teses de suprassumos da educação que nunca estiveram numa sala de aula (só como alunos e há muitos anos) e que não fazem ideia que o professor só tem 50 minutos para gerir 28 ou 30 alminhas, cada qual com a sua necessidade e claro, cumprir o programa curricular da disciplina!

Só para que não restem dúvidas, não foi com vocês, foi comigo…e eu fiz apenas e só o que qualquer professor, neste atual momento, está habilitado a fazer: perder os 10 minutos do precioso intervalo a escrever relatórios do ocorrido, para massacrar o desgraçado do diretor de turma ou, na melhor das hipóteses, fazer participações disciplinares (também escritas) para entregar aos diretores dos estabelecimentos.

Objetivo: chamar os encarregados de educação à escola a fim de tomarem conhecimento do que o seu lindo rebento anda a fazer. Com sorte lá aparece o dito EE, dias ou semanas depois (que os pais têm mais que fazer do que andar a aturar os chatos dos professores!)

O resultado disto: os alunos continuam a fazer tudo aquilo que descrevi e muito mais. E como, a cada medida do governo português, têm mais e mais e mais direitos, então agora é que vai ser mesmo como a música do outro: “tô nem aí”. Como diz um colega que muito estimo…siga!

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19 COMENTÁRIOS

  1. “poizé”, parabéns à autora pela frontalidade, porque dos poucos, alguns, relatórios de várias espécies, elaborados por professores, que consegui ler, invariavelmente teciam loas aos objectivos atingidos e conseguidos sem problemas, devido às estratégias utilizadas, que visavam invariavelmente o sucesso da aprendizagem para aquisição de conhecimentos.

  2. Conheço bem esta realidade, mas não percebi, o que é que o primeiro parágrafo tem a ver com o o conteúdo de indisciplina e falta de educação descritas. É pena, porque a autora misturou a sua implícita opção ideológica partidária com uma situação que infelizmente é já velha, pela qual já passaram vários governos que não tinham o Sr. Costa, e que é urgente atuar.

    • Ideologia é quem finge que não vê que este despautério do esvaziamento do professor teve as suas fundações nas entorses do infame modelo de MLR. Para resolver isto, só implodindo este modelo, arrasar tudo e começar do zero outra vez, sim, a responsabilidade do PS é histórica e incontornável na condução do país ao abismo pelas mãos da educação, sector estratégico sensível, responsável pelo capital humano, aquele em que somos mais ricos, realidade olimpicamente ignorada pelos políticos. A responsabilidade do PSD, outro partido que passou pelo poder, está na ignorância da gravidade da situação e na falta de coragem para abrir a janela e deitar o ME pela janela, como prometeu Crato e não cumpriu, ao invés, construindo a partir do miserável modelo de MLR, uma extensão frankensteiniana

  3. Incrível!
    Um texto escrito por uma portuguesa ao público português, mas que, desde as primeiras linhas, é um retrato da realidade brasileira de maneira absoluta (sem tirar um vintém). O que a autora disse faltar a ela testemunhar, no Brasil já faz parte do contexto das salas de aula e torna a busca por cursos de pedagogia e ensino ser deficitária e cada vez menos concorrida. Somado a isto, o governo de Jair Bolsonaro investe menos em educação pública e tenta implantar uma inquisição chamada “Escola Sem Partido”, na verdade um canal para que suas ideologias sejam sobrepostas à liberdade dos professores e sobre quaisquer temas dos quais o governo ideológico de Jair Bolsonaro venha a discordar (com direito a revisionismos e exclusão de temas fundamentais para a formação do cidadão).
    Enquanto isso, cortam investimentos na educação, travam uma perseguição a reitorias e professores dos ensinos superior e médio, acusam e difamam movimentos sociais, estudantis e sindicatos e usam de inverdades para justificar suas ações autoritárias com forte aparato de milícias disseminadoras de fakenews em redes sociais (a mídia tradicional é tratada como inimiga).
    Pensem que vocês, portugueses, estão a gozar de liberdade democrática e a morar no céu!

  4. E eu pensava que era apenas comigo que eles (alunos) faziam tudo o que é relatado de forma excelente pela colega. Todos os dias venho para casa com um enorme peso de consciência pensando que, afinal de contas, não sou uma boa professora. Grata pela exposição tão frontal da realidade.

  5. No secundário vamos receber, não tarda nada, estes exemplos de cidadania saídos da pré-história, mas o que já lá existe, também não é pêra doce: alunos exímios em ser songas, insidiosos, dissimulados, intriguistas e oportunistas, praticantes de todos os tipos de violência subtil, artistas da duplicidade, especialistas em virar professores contra professores, diretores de turma contra professores e vice-versa, diretores contra diretores de turma e professores e vice-versa, pais contra professores e diretores de turma e vice-versa, enquanto assistem divertidos a ver o circo a arder e a medir o imenso e incontrolável poder que lhes cresce nos dedos, perante um público adulto incrédulo, em negação, e completamente impreparado para fazer frente a esta vaga de tiranos arrogantes travestidos de querubins. Mesmo que estivesse preparado seria difícil desmontar estas estratégias, tal é a mole humana e a complexidade de relações que se elaboram numa instituição escolar. Enquanto isso os políticos discutem quantos anjos conseguem dançar na cabeça de um alfinete, em vez de devolver a ação direta, clara, célere, simples e eficaz para as mãos dos professores, devidamente avalizados para a exercer, como acontecia antes da massificação do ensino e resultava tão bem, estando ainda Portugal a sobreviver à custa dos juros desses tempos.

  6. Muitíssimo BOM!
    PARABÉNS!
    Deverá descreverssimo BOM!!!, o que se passa, na maioria das salas de aula por este país pobre, que será cada vez mais pobre mas… valham-lhes, segundo dizem, os brandos costumes… BRANDOS, que digo eu, só com QUEM NÃO CUMPRE!!! – É na ESCOLA como no resto da SOCIEDADE!!!

  7. Pois eu no meio do arremesso de mesas, já apanhei com uma…a verdade é que o aluno tinha um currículo tão invejável que juntaram tudo e fomos para tribunal…um ano em regime de internato para massacrar outros técnicos e professores porque afinal isto tem que rodar, ñ pode ser sempre para os mesmos…..

  8. Porra mesmo difiçil vida de professor… wow como é possivel?
    Mas ja pensaram que muitas das coisas têm razão para acontecer?
    Também ja pensaram em esquecer que sao professores e serem alunos novamente, entrar na mente de um e tentar perceber o que eles querem, negociar com eles e tentar novas coisas.
    Uma coisas eu sei, ambos os lados se queixam muito, mas à um que consegue o que quer porque realmente tenta e pensa no faz.
    Acabo 12ºano recentemente, este ultimo ano houve muitos maus comportamentos, mas como turma unida nos mudamos para o melhor ao ter um objetivo de acabar em grande e so foi preciso um unico professor fazer para ali uma palestra que nos mudou.
    Agora pensem e parem de queixar!

    • 12-ano bem acabado, sem dúvidas, deve ter sido um alívio para todos. Sim, as coisas têm razão para acontecer: falta de educação em casa, falta de princípios, falta de disciplina e demasiado egocentrismo, são as causas fundamentais, temperadas e apimentadas por pais que já eles próprios não prestavam; como dizia um Comandante de Companhia, para um indivíduo mal comportado e indisciplinado, quando eu andava na tropa, há 30 anos atrás quando ainda havia tropa: ”-você é um merdas, mas você não tem culpa, já os seus pais são uns merdas e os seus filhos uns merdas serão.”
      . . . é assim que estamos.

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