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Exclusivo ComRegras | Uma psicóloga e uma mediadora analisam uma situação real.

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Acreditar… Acreditar que é possível mudar, acreditar que é possível fazer diferente e fazer a diferença. Analisar, refletir e quiçá agir de forma diferente. Peguei numa situação real e pedi uma opinião a duas amigas que estão nesta casa deste o início, a Inês Marques, uma das caras da prestigiada Oficina de Psicologia e Mafalda Branco, mediadora por excelência e autora do blogue Do outro lado do espelho e que tem feito um trabalho notável por diversas escolas.

A Inês faz uma análise pelos olhos do aluno, enquanto que a Mafalda fará a sua análise na perspetiva de mediadora e o que entende deve ser a abordagem neste caso e casos semelhantes.

Não se trata de dar receitas, trata-se de encarar a realidade e debatermos sobre ela.

O caso que se segue é dos mais difíceis de lidar, quando um aluno recusa as tarefas, recusa as ordens, recusa sair, recusa a escola…

Desafiante compulsivo

No decorrer do primeiro tempo letivo, reparei que o aluno estava com um auricular a ouvir música. Solicitei-lhe que retirasse o auricular e resolvesse as tarefas propostas. O discente respondeu “Não tiro.”, “Quero ouvir música.”.  Pedi-lhe novamente, várias vezes, para o retirar. O aluno recusou repetidamente. Informei-o que caso não tirasse o auricular iria ser alvo de uma participação disciplinar e marcar-lhe-ia falta. O discente continuou a recusar acatar a minha ordem. De seguida, perguntei-lhe “Como se chama?” e este respondeu “Com a boca”. Solicitei-lhe então que abandonasse a sala de aula, mas este recusou-se. Ordenei-lhe de novo que abandonasse a sala de aula e comuniquei-lhe que com esta atitude só estava a prejudicar-se ainda mais e a lesar a turma.

Dado que o aluno continuou a recusar retirar o auricular e abandonar a sala de aula, solicitei a um colega que fosse chamar um auxiliar. O auxiliar chegou e o aluno reiterou a sua intenção de não sair da aula, dizendo ao auxiliar “tu não és homem suficiente para me tirar daqui”. O auxiliar tentou levar o aluno mas este recusou novamente, ameaçando o auxiliar ” se me tocas outra vez vou-te à cara”. Disse ao aluno para se acalmar e transmiti ao auxiliar para ir chamar alguém da direção, o aluno permanecia de pé e injuriava tudo e todos, passado uns momentos o aluno diz “ninguém manda em mim, eu saio quando quero e agora quero sair”. O aluno saiu e aula voltou ao normal.

Oficina de Psicologia

Olhar (ou tentar olhar) as situações que ocorrem em contexto escolar “através dos olhos” dos alunos é um desafio exigente. Mas um exercício muito interessante!

O que irá ler em seguida é inspirado em relatos e desabafos de crianças e jovens, que acompanho em contexto psicoterapêutico. Naturalmente, não corresponde à realidade do aluno descrito na situação. No fundo, trata-se de um convite para que cada um de vós se tente colocar do “outro lado”, como forma de tentar compreender as manifestações comportamentais do mundo interior de uma criança/jovem e, de modo, reflectir sobre possíveis mudanças.

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Hoje na aula tive uma situação engraçada com um professor. Ir para a escola tem sido um desafio para mim. Acordar cedo tem sido um problema. Não acordei a achar que ia começar o dia a ser expulso da aula. Mas naquele momento, ver o professor irritado acabou por ter um lado divertido. Para mim e para os meus colegas. Eu acho que eles também acham engraçado. E enquanto andamos nas andanças do entra e sai, a aula acaba por não começar.

Bem, a verdade é que há várias coisas a passarem-se na minha vida, coisas que me fazem viver emoções que não conhecia e em intensidades fortes. Eu sinto que estou sempre quase a explodir. É mesmo difícil lidar com estas emoções fortes e parece que ninguém percebe isso. Eu sei que é o professor que manda e que lhe devia dar ouvidos e obedecer. Mas parece que ele é mais uma pessoa a querer mandar em mim, sem me querer ouvir ou conhecer. Se ao menos ele tivesse perguntado “O que se passa contigo?”

Eu sei que não devia ouvir música. Mas também sei que aquilo que se estava a passar na aula não me estava a cativar. E há momentos em que a música me ajuda a concentrar nas tarefas.

Eu sei que devo respeito ao professor. Mas eu sinto que sou só mais um para ele. Ele nem se lembrava do meu nome…

Eu sei que fiz asneira. Mas também sei que noutros momentos não fiz asneiras. E nesses momentos ninguém reparou em mim.

Parece que o mundo só acorda para mim quando eu deixo as emoções falarem e deixo a impulsividade controlar os acontecimentos. Os professores só reparam em mim quando faço asneiras, os colegas só me acham piada nestas situações e os meus pais só se preocupam quando recebem recados vindos da escola. Nos outros momentos quem repara em mim?

Além de tudo isto, eu queria ser melhor aluno. Já tentei, mas nunca foi suficiente. É bom, mas tu consegues mais. Tens de te esforçar mais, porque eu sei que este não é o teu máximo. É uma nota melhor que a outra, mas quero mais de ti.É só quereres e consegues. Tu é que não queres e não te importas. Antes rebelde do que “burro”, tenho eu pensado cá para mim.

Eu gostava que me dessem atenção para além das minhas notas, além do meu comportamento. Eu gostava que me dessem espaço e mostrassem interesse em conhecerem-me melhor. O que gosto, o que me dá prazer, o que me faz sentir realizado. Eu gostava que me dessem oportunidade e espaço para me expressar, para dizer o que penso e sinto. Eu gostava de me sentir especial.

Eu sei que nesse dia não me vou sentir sempre um vulcão prestes a entrar em erupção…

Inês Afonso Marques

Psicóloga Clínica

Oficina de Psicologia

 

do outro lado do espelhoEste é talvez dos exercícios mais difíceis que me colocam muitas vezes nas ações de formação: relatar uma situação verídica, como esta, e perguntar “e perante isto, o que é que se faz? Diga-me o que é que se faz?”. Sou contra fórmulas apregoadas como mágicas, corretas ou ideais. Não há uma única resposta para esta pergunta, portanto. Confesso que pensei muito antes de aceitar este desafio, precisamente por isso e também pelas expectativas que muitas vezes as pessoas têm de encontrar uma receita para lidar com as situações com que se deparam todos os dias. Eu entendo. Trabalho numa escola e também eu sinto muitas dificuldades em alguns momentos para conseguir trabalhar com os alunos (há turmas enormes em que é difícil chegar a todos, há muito ruído, nem todas as tarefas são apelativas ou conseguem envolver os miúdos…). Reconheço a frustração, o desânimo e a tristeza que sentem muitos professores por não conseguirem dar uma aula como gostariam. Respeito imensamente o papel do professor/educador hoje, cada vez mais. No entanto, penso que esta pode ser também uma oportunidade para refletirmos, sob vários pontos de vista, sobre a escola e a sua realidade. O meu objetivo não é defender o aluno ou o professor (muitas vezes há uma ideia errada que os técnicos defendem sempre os alunos, estando contra os professores), muito menos pôr em causa a forma de intervenção do professor na situação relatada. É antes propor pistas para reflexão sobre o caso apresentado, sabendo que nos cabe a nós, adultos, orientar o processo e procurar em conjunto estratégias que nos ajudem a ir ao encontro dos alunos.

Como mediadora, uma das questões essenciais é procurar criar uma oportunidade para que professor e aluno se encontrem e possam dialogar sobre as situações de conflito que ocorrem em sala de aula e que muitas vezes começam a “minar” a relação e, consequentemente, todo o trabalho que se procura desenvolver. Por isso mesmo, o que procuraria fazer após uma situação destas era precisamente aquilo que  este exercício propõe: ouvir ambas as partes, acolher as histórias que estão na origem do conflito, facilitar a comunicação e procurar que professor e aluno encontrem soluções em conjunto para melhorarem a sua relação.

No caso em concreto, há algumas questões que gostaria de trazer para a reflexão:

  • Conhecer os alunos e tratá-los pelo nome é essencial. Tratar alguém pelo nome é uma forma de reconhecimento e de cuidado e, da minha experiência, para os alunos é um dos aspetos mais importantes. Às vezes só dizer o nome do aluno chama a sua atenção, desperta-o para a sua responsabilidade e fá-lo perceber que o (re)conhecemos no meio de todos os outros.
  • Entrar em choque com o aluno normalmente não traz benefícios e agrava o conflito. Não quero com isto dizer que não se devam aplicar as regras, a questão é como o fazemos, ou seja a forma como comunicamos com o aluno faz muitas vezes a diferença na forma como ele nos responde e entende a regra. O respeito, a segurança e a assertividade são fundamentais! Chegar próximo do aluno de forma calma e procurar o diálogo muitas vezes ajuda. Demonstrar preocupação também. Ouço os alunos dizerem com frequência “ninguém quer saber de mim, ninguém se preocupa com o que sinto ou penso”. Quando percebem que o professor se preocupa, a relação transforma-se.
  • A indiferença que parece existir por parte deste aluno relativamente à aula ou às tarefas propostas é um feedback que devemos valorizar e procurar entender. O que é que lhe pode estar a provocar esta desmotivação e alheamento? É apenas nesta disciplina ou aos primeiros tempos? É um comportamento frequente ou aconteceu apenas desta vez? Estas questões muitas vezes ajudam a entender a situação e a procurar formas de intervenção, o que deve acontecer também dentro do Conselho de Turma, desejavelmente com a colaboração de outros técnicos.
  • Pode ser também importante a articulação com o Diretor de Turma e com a família. O que é que todos podemos fazer em conjunto (incluindo o aluno neste processo) para melhorar a situação? Trabalhamos ainda muito pouco em equipa na escola, é urgente criarmos pontes, dialogarmos, remarmos todos no mesmo sentido!
  • A retirada de sala de aula deve ser, em minha opinião, apenas para situações excecionais. Em muitas escolas banaliza-se a retirada, o que agrava ainda mais o ciclo de insucesso e desmotivação. Pior do que isso, muitas vezes não há depois qualquer tipo de trabalho com o aluno que foi retirado, ou seja, quando ele volta a uma nova aula, perdeu matéria, está ainda mais perdido e a tendência é para voltar a ter um comportamento desadequado e perturbador. É importante, por isso, pensar no trabalho que pode ser desenvolvido com o aluno (quem? como? quando? onde?) caso haja uma retirada de sala de aula.
  • Depois desta situação, seria também importante procurar o aluno e ter uma conversa com ele fora da sala de aula, no recreio por exemplo ou num espaço mais reservado, sem os olhares e a intervenção dos outros colegas. Isto é fundamental para procurar perceber o comportamento, para reestabelecer a comunicação e para evitar uma tensão ainda maior na próxima aula (o que acontece com frequência se não há este diálogo e tentativa de aproximação).

É preciso também, em minha opinião, repensar e debater as regras na escola. Conheço escolas e disciplinas em que os alunos podem ouvir música enquanto estão a trabalhar e muitas vezes isso ajuda à concentração e à motivação para a tarefa (e não perturba ninguém). Quando fui aluna, lembro-me de um professor de História que em algumas aulas colocava música de fundo para o que estava a apresentar e era sempre dos momentos em que tínhamos mais atenção e vontade de aprender. Eu própria, como formadora e mediadora uso a música em muitas sessões. Porque não integrar a música nas aulas em alguns momentos, quando sabemos hoje os benefícios que ela tem a nível de concentração, memória e aprendizagem?

Mafalda Branco

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  1. Lamento profundamente que existam profissionais de educação que não saibam argumentar e partam para o ataque pessoal, lamento que não concedam outra alternativa e a sua verdade tenha que se sobrepor a todas as outras.

    (os comentários anteriores foram removidos)

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