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Exame de Matemática | Alunos a chorar, professores indignados, quem se responsabiliza?

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Fui ensinado que um exercício/avaliação deve permitir que 80% dos alunos, em condições normais, obtenha aproveitamento satisfatório. Não se trata de facilitismo, trata-se de ajustar o ensino às características dos alunos, para assim promover uma efetiva evolução e não “destruir” qualquer tipo de motivação que todos sabemos ser essencial à aprendizagem.

O que se passou ontem foi demasiado grave. Não são apenas os professores que têm responsabilidades no sucesso dos seus alunos e no acesso destes ao Ensino Superior, o IAVE também as tem, e fazer um exame com uma estrutura atípica só podia levar a este desastre.

O que aconteceu expôs um problema que tem anos, os alunos estão demasiado formatados para os exames, os professores estão demasiado formatados para os exames, as escolas estão demasiado formatadas para os exames. A escola é um local de aprendizagem, não um processo de preparação para exames ou de acesso ao Ensino Superior.

O IAVE esteve mal, sabia que os exames de anos anteriores inclinavam alunos e professores para determinado padrão, sair desse padrão é sair daquilo que é lecionado na escola, e se os alunos não foram preparados os resultados só podem ser catastróficos. Porém, o problema não termina no IAVE, termina numa conceção de escola que na minha opinião é errada.

Neste momento, muitos são os que pedem responsabilidades, a revolta é muito grande, tal como se comprova pelos telefonemas e mensagens que fui recebendo.

Alexandre Henriques


O mesmo se passou com o exame de Português do 12º Ano: alteração da matriz e respetivas cotações. Noutros tempos, o Iave (ex-Gave) tinha o cuidado de divulgar uma “Prova-Modelo”, mas agora ninguém quer saber. Os professores andam 3 anos a preparar os seus alunos mediante um exame-tipo, mas eis que, afinal, tudo se tornou, de repente, diferente.


 

Sou mãe de um jovem que fez os exames do 12ºano.

Um jovem com sonhos, que terminaram com estes exames!!!

Um jovem que lutou e trabalhou para alcançar os seu objetivos. E conseguiu nos 3 anos(10º,11º,12º).

Pergunto: Qual é o objetivo de quem faz estes exames??? “cortar as pernas aos alunos…”

É correto 4 horas de exames valerem mais do que  3 anos de estudo? (para alguns cursos…)

Em minha opinião algo está muito mal…

Agora vêm a Soc. Portuguesa de matemática dizer que a prova é inadequada para 2 programas…Quem se responsabiliza por isto?

Os únicos prejudicados são os alunos. Por favor façam  alguma coisa para remediar a situação.

Só tenho duas palavra para isto: incompetência e irresponsabilidade.

Uma mãe,

CP


E há até quem pense que isto pode ser premeditado…

 

Próximo ataque do ME à reputação dos docentes

Através do ‘Iavé’, o ME vai atacar a reputação dos professores no próximo mês de julho. Como? Quem acompanha os exames nacionais, detetou que houve alterações na estrutura deles e nas cotações (aumentaram nas questões de escolha múltipla). Estas alterações têm potencial para piorar as classificações dos exames e obviamente que isso será usado para atacar os professores com a falácia ‘estão-a-ver-esta-gente-a-reivindicar-que-lhes-paguem-as-progressões-e-afinal-os resultados-foram-piores’.

O ME que se arvora o protetor dos ‘coitadinhos-dos-estudantes-que-são-prejudicados-pelos-professores’, depois insidiosamente promove ações que prejudicam os mesmos estudantes nas suas médias de classificação final, usando subrepticiamente como ‘bode expiatório’ a classe docente; nem Maquiavel conseguia ser mais ignóbil…

“Os alunos concordaram que a derradeira questão da prova era a mais complicada e estavam também alinhados no principal assunto de quase todas as conversas: a estrutura do exame deste ano. Ao contrário do que vinha sendo habitual nos anos anteriores, o exame nacional de Matemática A foi dividido em dois cadernos.

«Nós somos sempre as cobaias do Iave», queixa-se Ana, já fora da escola. «Se quisesse voltar atrás a alguma das perguntas do 1.º caderno, não podia», explica.

Jornal Público (25/06/2018)

Mário Silva


Por fim o comunicado do SPM

Parecer sobre o Exame de Matemática A

(SPM)

A Sociedade Portuguesa de Matemática considera não ter sido salvaguardado o interesse dos alunos por não terem sido elaboradas as duas provas que se impunham: uma para os alunos do atual programa e uma outra para os alunos repetentes, versando sobre o programa anterior. A SPM alertou em devido tempo para a inexequibilidade de uma prova única para ambos os grupos; é agora claro que a opção encontrada de apresentar itens em alternativa de acordo com cada um dos Programas, antigo ou novo, se mostrou claramente inadequada, até em termos de critérios de correção, sendo por vezes essencial conhecer a que programa esteve sujeito o aluno para se poder aferir da correção de uma dada resposta (por exemplo, a justificação da continuidade no item 12.2).

Apesar do consenso generalizado, entre os professores, para a necessidade e pertinência de provas modelo e/ou testes intermédios, o IAVE IP limitou-se a fornecer uma Informação Prova com contornos menos claros e que agora se verifica ter pouca correspondência com o exame. Como consequência desta inédita falta de informação, os alunos – tanto do novo programa como do antigo – foram hoje confrontados com uma prova que não traduz fielmente o trabalho realizado durante os três anos do Ensino Secundário. A tentativa de subordinar o enunciado a dois referenciais de avaliação distintos acabou por gerar itens desequilibrados, confusos e por vezes contraproducentes do ponto de vista pedagógico. É exemplo disso o item 4, em que se pede textualmente aos alunos para «não justificar a validade do resultado obtido na calculadora», antítese do método científico e da boa utilização da tecnologia, que deve ser sempre acompanhada de espírito crítico.

Embora as opções estivessem identificadas com o respetivo referencial (Programa), muitos alunos foram naturalmente tentados a analisar ambas as questões dadas em alternativa, pelo que estes itens acabaram também por funcionar como focos de distração. Recorde-se, a este propósito, que o Ministério da Educação não permitiu a criação de turmas separadas consoante o Programa, prejudicando ambos os grupos de alunos.

No geral, esta prova não se adequa a nenhum dos dois programas nem tão pouco coloca todos os alunos em pé de igualdade. Por exemplo, no item 10, os alunos do antigo programa poderiam responder a qualquer uma das alternativas apresentadas, ao passo que o novo programa apenas contempla uma delas. Curiosamente, foram os argumentos da equidade e da comparabilidade os avançados pelo Ministério da Educação para justificar a realização de uma única prova.

Em termos de substância, a prova é extensa e trabalhosa, gerando-se assim uma maior complexidade relativamente a edições anteriores. Por outro lado, a vertente calculatória do tema de funções, muito trabalhada por todos os alunos, é abordada de forma extremamente superficial.

Em conclusão, a SPM lamenta a situação criada para milhares de alunos e respetivos professores que, desta forma, não veem devidamente valorizados o trabalho e o esforço desenvolvidos durante três anos, tendo-se assim criado uma situação de incerteza e potencial injustiça em relação ao acesso ao Ensino Superior.
Publicado/editado: 25/06/2018

Fonte: SPM

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24 COMENTÁRIOS

  1. Se formos ver com calma o exame até está bem elaborado…existem questões de diferentes níveis de dificuldade com algumas muito acessíveis até! Os alunos/professores têm de resolver/propor exercícios dos mais diferentes níveis de exigência, pois só desta forma os alunos terão a capacidade de superar qualquer tipo de exercício com aspeto/forma diferente do habitual! Penso que os alunos estão formatados, no geral, para questões mais simples e para complicar não percebem bem o que fazem e para que serve!

      • Deve ter sido um dos que elaborou o exame, ou então não sabe o que é estar 3 horas para decidir o futuro.
        Se calhar na sua altura quando o fez deveria ter no mínimo 5 questões para responder, ou então alguém o fez por si.
        Porque analisado o exame e sendo conhecedor de Matemática logo na abordagem a este exame as pessoas ficam confusas e qualquer problema mais complexo que nos possa aparecer pela frete em matemática não existe limite de tempo para o resolver, penso eu.

    • Peço desculpa, mas como aluna tenho que me opor à sua opinião. O novo programa é demasiado extenso e demasiado trabalhoso para qualquer aluno mediano. “Resolver/propor exercícios dos mais diferentes níveis de exigência” torna-se impossível, mesmo com um trabalho exemplar em casa, tendo em conta a ambiguidade e a dificuldade das perguntas que estiveram no exame… Como é que é suposto estarmos preparados para um exame (que, por ventura, determina o nosso futuro), se as instruções para o mesmo não nos são claras? Se os modelos de provas anteriores não nos servem de nada? Os alunos estão formatados para serem seres humanos com sonhos e aspirações e a escola deve servir para que tenhamos esperança em concretizá-los, não destruí-los. Está claro que algumas perguntas eram fáceis. O que seria de nós se não fossem. O seu comentário, e peço desculpa pela minha sinceridade, revela alguma ignorância para com o que se passou este ano em todas as escolas do país.

      • Força Rafaela, nunca desistas dos teus sonhos! Tens toda a razão quanto ao novo programa…é OBRA. Não havia necessidade de propor aos alunos este “exame”. Fico a pensar qual foi a intenção…

      • Não percebo como é que qualque tipo de exame que sirva para prova de acesso corta os sonhos de quem quer que seja. Por mais péssimo que seja o exame, este é nacional. Estão todos no mesmo barco, por mais esburacado que este seja, conseguem todos chegar ao mesmo porto.

  2. Não está bem elaborado. O número de perguntas com grau de dificuldade elevado não pode exceder uma determinada %, que não deve ultrapassar os 20 a 25%. É o que está estabelecido, em termos de avaliação. Há muito tempo. E as taxonomias de dificuldade, também. Ora, essa percentagem foi excedida. Só devemos falar daquilo que sabemos. Toda a gente gosta de dar palpites em matéria de educação e acha que sabe tanto como os professores.

  3. A situação que se viveu com este exame é absolutamente intolerável. Tratar os alunos desta forma não é próprio de um país que se diz civilizado. Sou Pai de uma aluna extremamente trabalhadora que viu o seu empenho e dedicação desmoronarem-se nesta 2a feira. Algo terá de ser feito. O IAVE não pode ser inimputável.

    • Concordo consigo também tenho um filho que trabalhou muito até altas horas dedicado para desmoronar é muito triste . 😢

  4. Vejamos, começa o artigo apontado como problemático o ensino cujo cerne é a prova de exame. De acordo! Logicamente, qualquer preparação para uma prova tipo é anti pedagógica!

    Sinceramente! Queixarem-se de que mudaram o enunciado e assim os meninos já não sabem as repostas não só demonstra que os alunos não aprenderam a matéria mas sim exercícios-tipo.

    Tremendo enviesamento de raciocínio e incoerência!
    Se me permite, só tenho duas palavra para isto: privilegiados arrogantes.

    • Sou aluno de 19 a Matemática A e mesmo eu achei o exame difícil. Precisava de 18 para conseguir entrar no curso que quero e pelo que vi não vou obter essa nota. Fiz como preparação todos os exames anteriores até 2011 e de nada me valeram. Até mesmo os exames anteriores a 2015 (ano em que a dificuldade de exames nacionais diminuiu) comparados ao deste ano eram como uma ficha de trabalho e nada mais que isso.
      Acho que é ridículo o que fizeram, não só no de Matemática A como também o de Português. Todos sabemos que há alterações de exame em exame mas se vão fazer assim tantas acho que o mínimo pedido seria uma prova-modelo.

  5. Sinto-me completamente abismada com tanto trabalho durante um ano e depois vêm mentes iluminadas que elaboram um exame deste para conseguir que 90% dos alunos não consigam nem a positiva. País de desilusão. Vamos todos tentar que anulem este exame em nome dos nosso filhos.
    Obrigada

  6. A prova era trabalhosa e extensa. Sou mãe de um aluno que a realizou e que comentou isso mesmo. Mas o trabalho dele não se limitou a executar mecanicamente exames anteriores. Foi a procura de provas com grau dificuldade aumentado, de autores que fazem isso mesmo… Parece-me que o ensino está demasiadamente focado em treino exaustivo de examese não em preparar os alunos a pensar e a mobilizar conhecimentos. Temos que nos deixar de rankings e pensar mais em preparar para pensar e ter espirito critico. Parece-me que o esforço dele compensou, pois o exame correu-lhe muito bem.

  7. Já fui aluna e agora sou mãe de três filhos, nunca concordei com os exames, pois se os alunos já são avaliados durante todo o seu percurso escolar com testes,trabalhos etc… não percebo para que se sujeita a esses mesmos alunos que durante três anos lutaram e trabalharam para obter a nota desejada. Chegam muitos deles a verem os seus sonhos perdidos por um exame com um peso enorme na nota de um aluno. Raramente um aluno sobe a sua média num exame mais facilmente se vê um trabalho árduo a ir pelo cano abaixo por causa de um exame. Os exames só deveriam existir para quem durante o ano lectivo não obteve positiva, ou para aqueles que pretende fazer uma melhoria de nota. Enfim é a minha opinião e vale o que vale.

    • Concordo plenamente consigo e com isto estamos a criar futuros profissionais frustrados, porque estes alunos vão escolher os cursos conforme as notas (nomeadamente decidida pelos exames e não ao longo dos três anos) não pelo o que queriam e gostariam de fazer . A vida já por si não é fácil e pior se tivermos que fazer o que supostamente não gostariamos de fazer.
      Mãe de uma aluna do 12 ano

  8. Concordo plenamente consigo e com isto estamos a criar futuros profissionais frustrados, porque estes alunos vão escolher os cursos conforme as notas (nomeadamente decidida pelos exames e não ao longo dos três anos) não pelo o que queriam e gostariam de fazer . A vida já por si não é fácil e pior se tivermos que fazer o que supostamente não gostariamos de fazer.
    Mãe de uma aluna do 12 ano

  9. É verdade que haviam perguntas de certa forma fáceis, mas em 19 perguntas deste exame não eram certamente mais de 3 ou 4! As tais perguntas mais difíceis exigiam tempo, esse que mesmo com 3 horas de exame não era suficiente para resolver e rever os exercícios… os alunos não podiam ficar mais de 1 minuto a tentar desenvolver um raciocínio pois isso significaria ter de abdicar de outras perguntas! Os exercícios mais complexos servem, na minha humilde opinião, para distinguir um aluno de 20 de um aluno de 15 ou de 10 e por isso não podem ter mais que x pontuação… neste ano essas perguntas serviam para distinguir um aluno de ter 15 de ter 5! Neste exame um 14 ou um 15 vão valer o mesmo que os 20’s dos anos anteriores! E atenção que eu fui a exame com 18 e espero neste momento ter cerca de 10, logo, sou um aluno ressabiado com tudo isto, mas não estou assim por não ter estudado e querer resultados.

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