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Eu Não Sou Tolo, Stora! – Manuela Cunha

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Chegou atrasado. Não bateu à porta, nem pediu desculpa pelo avançar da hora.

Sentou-se na carteira do fundo, local escolhido por ele mesmo. Cruzou os braços onde afundou a sua cabeça.

Não reagi. Continuei a aula como se nada tivesse acontecido. Percebi que o Antunes – assim se chama o meu aluno – precisava de tempo, de um tempo só seu. Dúvidas não tinha que algo tinha acontecido, algo que o deixara naquele estado. Já não era a primeira vez que o Antunes chegava assim à aula, todavia nunca expressou a razão daquele ensimesmamento.

Sentia-o agitado por dentro, desconfortável e por vezes irado, ainda que fosse uma ira interior que ele recusava verbalizar.

Como sempre, depois de lhe dar o “seu tempo” sentei-me na cadeira ao lado da dele. Como sempre ele recusava-se a falar. Passei-lhe a mão na cabeça onde lhe deixei um pequeno beijo, talvez maternal, como se lhe quisesse dizer: Eu estou aqui!
Contrariamente aos outros dias semelhantes a este, o Antunes levantou-se bruscamente dando um murro na mesa transbordando, finalmente, a acumulação de uma ira comprimida há já algum tempo.

– Eu não sou tolo, Stora! Eu não sou tolo!!!

Ficámos, eu e os outros alunos, atónitos a olhar para ele. Aquelas palavras, sobretudo aquela palavra “tolo” arrepiou-me.

– Antunes? Onde foste buscar essa ideia? Tolo? Claro que não és tolo!

– Estou farto Stora, estou farto que aqueles “gajos” do 8.º ano me chamem de tolo. Qualquer dia, “parto-os” todos!

– É verdade Stora! Eles andam sempre a chamar-nos nomes, a dizer que somos tolos, por andarmos na educação especial… – Responderam os outros quase em uníssono.

Ao ouvir estas palavras arrepiei-me novamente. É claro que estes comentários não constituíam novidade para mim. Sabia e sei bem que sempre existiram, mas não será já tempo de acabar com eles?

– Calma meninos! Calma! É claro que vocês não são “tolos”, muito pelo contrário! Vocês são únicos! O facto de estarem na educação especial não faz de vós pessoas menores. Todos somos diferentes uns dos outros. Vocês conseguem fazer coisas que muitos alunos do 8.º ano não conseguem e vice-versa.

– E é mesmo verdade Stora! Aposto que eles não percebem nada de eletricidade e eu já ajudo o meu pai na oficina! – desabafa o Antunes.

– E eu Stora, ajudo a minha mãe no supermercado! – disse, a Mariana.

– E eu Stora, cuido dos animais na quinta da minha avó! – acrescenta o Lourenço.

Ao ouvi-los senti-me tão orgulhosa… Os meus “meninos especiais” tinham tantas habilidades e… e o “Mundo” não o sabia! Mas precisava de saber! Foi então que “pus os pés a caminho”. Identifiquei os tais alunos do 8.º ano, chamei-os e falei com eles. Deixei falar o coração e pedi-lhes que fizessem o exercício de inversão: e se fossem eles no lugar dos meus alunos? E se fosse um irmão ou uma irmã? Seriam “tolos”?

Refletimos em conjunto! Posto isto, chamei os meus alunos e cada um deles falou das suas habilidades e competências. Enquanto falavam, sentia-lhes o orgulho e a elevação da sua autoestima e senti de igual forma a admiração, o respeito e o espanto dos alunos do 8.º ano enquanto ouviam os feitos dos meus “especiais”.

E com esta simples “atividade” onde comungamos todos os valores e o respeito pela singularidade de cada um, extinguiram-se os “tolos” na minha escola.

Manuela Cunha, in “Educare”, 31-12-2014

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