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Estudo revela Professores e Educadores exaustos, ansiosos e desorientados

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Se já assim era antes da pandemia, seguramente que em plena pandemia o resultado não seria melhor.

Dou aulas há 19 anos e nunca vi uma notícia com um título semelhante a:

“Professores felizes com a sua profissão”;

“Professores agradados com as políticas educativas”;

“Professores sentem-se reconhecidos pela população”;

“Professores enaltecem o Ministério da Educação”;

“Professores recomendam a sua profissão aos mais novos”.

E podia continuar…

Será que milhares de professores, de diferentes gerações, são assim tão difíceis de agradar, ou existem efetivos problemas que persistem ano após ano, numa surdez irritante, que teima em não ouvir os professores, aqueles que dão efetivamente aulas?

Fica a notícia.


O regresso às aulas presenciais levou a equipa de investigadores do ISPA – Instituto Universitário a avaliar a experiência dos educadores e professores do ensino Básico e Secundário através de um inquérito online. O projeto iniciado na quarentena tinha por meta perceber como é que a população estava a reagir e identificar preocupações e necessidades, estendendo-se ainda aos profissionais de saúde que estavam na linha da frente do combate à Covid-19.

Com 400 respostas recolhidas até 20 de novembro, numa amostra em que a idade média ronda os 46 anos (80% são mulheres), o perfil provisório das inquietações dos profissionais de educação sugere que, embora a adaptação às medidas sanitárias esteja a correr relativamente bem, há necessidades não satisfeitas e preocupações que tiram o sono e estão a desgastar o pessoal docente.

Emoções à flor da pele

Os dados preliminares do Psiquaren10, que ganhou o Prémio de Boas Práticas em Psicologia da Ordem dos Psicólogos, permitem afirmar que os profissionais se sentem muito exaustos (59%), afetados pela perturbação das rotinas diárias (58%), com problemas de sono (49%) e muito ansiosos (44%). São menos, embora não poucos, aqueles que dizem sentir-se muito irritados (36%) ou muito deprimidos (31%) e 23% acham que precisam de apoio psicológico.

A psicóloga Ivone Patrão, coordenadora do projeto que envolve uma equipa de 10 pessoas (psicólogos e estagiários), refere que “nas consultas gratuitas disponibilizadas surge o tema da socialização, do cansaço em estar mais online e menos com as pessoas”.

A boa notícia: a maioria dos inquiridos (81%) mostra-se satisfeita com as medidas públicas adotadas e admite que a escola tem colaborado com o corpo docente. Outra nota positiva: a perceção de que as orientações para prevenir a Covid-19 nas aulas presenciais são eficazes é partilhada por 43% dos educadores e professores.

O consenso é menos visível no que respeita às regras sanitárias, com 36% a admitirem que elas perturbam a gestão em sala de aula. Quase um quarto dos inquiridos (22%) não se sente confiante a gerir o grupo de alunos no novo contexto educativo.

O que pode ser feito

Comentando estes dados, a psicóloga clínica que lidera igualmente o projeto Geração Cordão (Ver abaixo), admite que há muito a fazer no sentido de ajudar os pais, alunos e profissionais a lidarem melhor com a fadiga pandémica, sobretudo no plano emocional, até porque “entre as principais preocupações identificadas neste inquérito, destacam-se o medo de ficar contagiado ou de infetar outros, o incumprimento das medidas preventivas e o impacto que elas têm no relacionamento entre professores e alunos, crucial para uma boa aprendizagem”.

Se é certo que nem todas as necessidades estão asseguradas, desde a adequação do espaço à dimensão das turmas e aos recursos tecnológicos, passando por melhores condições de arejamento e sonorização, não o são menos os recursos psicológicos a aperfeiçoar para que o ano letivo corra de feição.

Alguns exemplos: “Reconhecer o que sentem, orientar os pensamentos com foco nas ações que conferem segurança, investir no autocuidado, em atividades que dêem prazer e procurar ajuda, sempre que necessário.”

A prioridade dada à socialização online, desde o início da pandemia, não é isenta de riscos e tem impacto nas crianças e jovens. A forma como os pais e os professores gerirem a fadiga associada às medidas preventivas e ao mundo digital é determinante no desenvolvimento dos mais novos, para quem os adultos são modelos.

3 perguntas a Ivone Patrão, Psicóloga clínica e investigadora do ISPA – Instituto Universitário

Foto: José Carlos Carvalho

Que balanço faz do projeto Geração Cordão (desafios de quem nasce na era digital)?

Nos últimos 10 anos percebemos que a dependência das tecnologias e da internet acontece cada vez mais cedo. O risco é maior para quem é mais introvertido, impulsivo e educado com estilos parentais incoerentes. Nos rapazes, essa dependência manifesta-se sobretudo nos jogos online, nas raparigas centra-se mais nas redes sociais. O problema não está no uso do digital, antes nas dificuldades que encontram se não desenvolverem competências emocionais e sociais que lhes permitam uma relação saudável e autónoma.

Quais as implicações dos estudos já feitos nas amostras de crianças e jovens?

Estamos conscientes da ligação entre as situações agudas ligadas ao consumo excessivo das tecnologias e que envolvem as perturbações alimentares, a depressão e o défice de atenção. Há dois anos, entendemos criar materiais didáticos para prevenir o risco da dependência online e promover o uso saudável da tecnologia e colocar a gamificação ao serviço da consciência digital, sob a forma de jogos e de histórias. Todos têm uma validação científica e podem ser usados em sala de aula como nas consultas e em família.

Pode dar alguns exemplos de recursos para melhorar as competências digitais? 

O jogo Missão 2050, para jovens dos cinco aos 14 anos, feito em parceria com o colega pedro Aires Fernandes, tem a intenção de promover o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e da Internet e transmitir noções sobre literacia, cidadania e segurança online. Para os mais novos, entre os três e os dez anos, a coleção de dez histórias recomendada pela Ordem dos Psicólogos Coleção e com apoio científico das Sociedades de Psicologia da Saúde e de Terapia Familiar, com dois contos já publicados (co-autoria de Filipa Pimenta): O Urso Tobias Queria ver a Lua de Perto, que aborda o tema da autoeficácia e a capacidade de ganhar confiança e superar desafios, e O Pássaro Nimas dá Asas à Diversão, sobre a socialização além dos ecrãs.

Fonte: Visão

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