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Estou farto da desunião docente…

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desuniãoDentro de portas queixamo-nos frequentemente de uma desunião que só por algumas vezes foi ultrapassada quando valores mais altos se levantaram, a última foi sem dúvida a memorável marcha de 08-03-2008 que até levou à publicação de um livro por parte de Paulo Guinote.

Mas a verdade é que somos um pouco “sacaninhas” uns com os outros e existem muitos egos, correntes e contracorrentes dentro da sala dos professores. Não é por acaso que temos não sei quantos sindicatos, mais uma pró-ordem e quando se trata de negociar com o nosso patrão roça o ridículo a quantidade de reuniões entre os diferentes representantes.

No passado o Ministério da Educação usou estes atritos contra nós, estimulando-os com a criação da figura “Professor Titular”, incendiando uma já débil relação entre professores, em virtude de alguns fogos que teimam em não ser apagados – professores de quadro vs professores contratados, ideologias/métodos de ensino diferentes, diferenças salariais, disciplinas importantes vs disciplinas menos importantes, entre outras…

E nós, muitas vezes de bicos de pés em cima da nossa licenciatura, mestrado ou doutoramento, não aceitamos com bom tom que um colega opine sobre uma área que nós, especialistas por excelência, sabemos de cor e salteado. Na nossa sala mandamos nós e “eu é que sei o que é melhor para os meus alunos”. Veja-se a forma como reagimos sobre a avaliação de professores em que professores iriam avaliar professores e mesmo que em modo formativo teremos/teríamos tanta dificuldade em aceitar.

Mas não ficamos por aqui, somos peritos em opinar sobre a casa do vizinho, muitas vezes com críticas fúteis, apenas para fazer ruído, não apresentando alternativas e com desconhecimento da legislação. Tudo para marcar uma posição, numa tentativa mesquinha de vingar/conquistar um passado/futuro que foi/quer ser seu, pisando princípios éticos e de respeito social da mais básica convivência…

Podíamos, devíamos ser a classe mais nobre do país, mais unida do país, até para dar o exemplo aos milhares de jovens que ensinamos, mas nunca a seremos enquanto continuarmos a atirar pedras internamente, numa réplica triste das “tricas” infantis que todos os dias se sentam à nossa frente.

Muitos fartam-se e passam a ser meros “cata-ventos”, virando consoante as ideologias ministeriais ou de diretores mais ou menos aceites, mais ou menos impostos. Hoje sinto essa vontade, a vontade de dedicar-me apenas aos meus alunos, ignorar o ruído, o narcisismo, a necessidade do palco e de parar de lutar contra a cultura do bota abaixo, só porque sim, só porque querem…

Não pretendo com este texto atacar quem não merece, muitos, mas mesmo muitos são Professores com “P” maiúsculo e mereciam muito mais respeito de tudo e de todos, pretendo sim alertar para este buraco negro que nos puxa e remete para uma pequenez indigna da nossa profissão, além de aliviar, confesso, uma pressão perigosa e pessoal que se vai acumulando. Tenho como principio de vida reconhecer o que faço de errado, pois acredito que só assim é possível abrir a porta da mudança. Acredito que todos estamos num contínuo processo de evolução e aprendizagem, sejam alunos, pais ou professores. E essa aprendizagem não pode, não deve, ser ofuscada pela incapacidade de nos colocarmos no lugar do outro, respeitando a sua dedicação e responsabilidade, para que não cresça, dia após dia, a vontade de cada vez fazer menos e tornarmo-nos apenas mais uma mobília, seca, azeda, indiferente, mas sempre pronta a pisar quem faz ou tenta fazer algo pelo ensino.

Já chega as dificuldades que nos são impostas não acham? Para quê criar mais?

Bom fim de semana 😉

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3 COMMENTS

  1. O “mobbing” é uma expressão inglesa que designa a violência psicológica exercida sobre os trabalhadores. Uma definição para explicar o significado de “mobbing” pode ser “qualquer comportamento abusivo (gesto, palavra, comportamento, atitude) que atente, pela sua repetição ou pela sua sistematização, contra a dignidade ou a integridade psíquica ou física de uma pessoa, pondo em perigo o seu emprego ou degradando o clima de trabalho”.O “mobbing” laboral é uma realidade cada vez mais frequente nas empresas de todo o mundo, incluindo as empresas e escolas portuguesas. Porquê? Porque nós vivemos numa sociedade cada vez mais competitiva. O desemprego é um flagelo ao qual desejamos escapar. Qualquer subterfúgio serve para conservarmos o nosso emprego. O ser humano, numa situação extrema, comporta-se instintivamente, vindo ao de cima os piores instintos de sobrevivência… é assim que muitos revelam a sua verdadeira índole.
    Somos a classe mais desunida que existe. Se queremos respeito, primeiro temos de aprender a respeitar. A política de “tapar o Sol com a peneira” tem os dias contados, pois a população não é parva de todo e apercebe-se do que se passa. A profissão docente é uma classe muito fechada. É muito difícil um colega que chega de novo numa escola integrar-se e sentir-se bem-vindo, pois os colegas que fazem parte da mobília da casa pretendem criar uma aura de perfeição, criando-se circunstâncias que permitem camuflar as suas fragilidades sob uma superioridade aparente. Claro que eles ficam com os melhores horários e com as turmas de alunos escolhidos a dedo (isto sem falar dos “dias livres”, o que é vergonhoso), enquanto que outros têm de aguentar as turmas mais indisciplinadas aos últimos tempos da tarde. Tudo isto têm o apoio das direções das escolas, pois isto tudo não passa de uma grande aliança entre as pessoas que fazem parte da “mobília da casa” (são as influências dos funcionários da casa que mantém a direção no poder, o qual é desejado apenas para colher as subvenções do estado – qual é o diretor que se preocupa com os problemas reais do agrupamento?) . Quando um colega chega de novo numa escola, a dinâmica é a seguinte: se gostarem de ti, não terás problemas; se não gostarem de ti, ostracizam-te, perseguem-te e tentam boicotar o teu trabalho de uma forma velada. Por outras palavras, és “mobizada”. A máquina maligna do “mobbing” começa a funcionar, visto que uma classe, na sua maioria feminina, fica facilmente incomodada se aparece alguém mais jovem. mais bonita e mais competente do que elas. Seguem-se as represálias. De que forma? Criando e manipulando situações que nos levam até ao limite. Das duas, uma: ou uma pessoa ganha uma capacidade extraordinária de encaixe para “engolir sapos” ou então explode e responde à letra, passando a ser a má da fita. Quando entramos numa sala de professores, ficamos logo asfixiadas por aquele ambiente pesado. 95% do corpo docente é constituído por mulheres de língua viperina que transformam qualquer ambiente num autêntico galinheiro. Um dia, irão afogar-se no seu veneno e irão prevalecer aqueles que desejam realmente dignificar a profissão, pois, por trás desta onda de indisciplina está uma geração que grita por mudança: mudança nos métodos de ensino e mudança a nível do currículo!! Está na hora dos professores começarem realmente a entender-se e a discutir quais as mudanças pelas quais deverão lutar de modo a valorizar a profissão. Quando às direções, estas deverão ser mais assertivas, justas e imparciais na resolução de conflitos, não defendendo apenas o que lhes convêm para manterem o seu “tachinho”, pois são os contribuintes que o sustentam! Quando elaboram os horários, por exemplo, não são considerados os interesses dos alunos, mas sim, os interesses da malta que já está instalada há vários anos na casa. Isto é triste, pois deveríamos colocar os interesses dos alunos em primeiro lugar! É por causa deles que existe a escola e os interesses deles deveriam ser considerados em primeiro lugar.
    Está na hora dos professores serem realmente mais unidos e lutarem juntos por uma causa comum: a dignificação da profissão docente. Lembrem-se :a clara desunião de uma classe é aproveitada por uma classe política umbiguista, a qual se aproveita das nossas fragilidades para retirar-nos os nossos direitos e para nos expor perante a população!!
    Eu declaro que estou farta, cansada deste péssimo ambiente de trabalho. É preferível estar na sala de aula com os alunos do que lidar com este tipo de gente. Quando os adultos se portam mal, conseguem ser muito piores do que as crianças.
    Agora chega! Vou fazer um serviço público e denunciar o que se passa, pois os professores não são todos farinha do mesmo saco e custa-me ver o trabalho de quem realmente é competente não ser reconhecido por causa desta epidemia causada por estes parasitas!!
    Vou contar uma história: um agrupamento aderiu ao chamado projeto PESIP, um projeto de coordenação pedagógica em que dois professores estarão na sala de aula: o professor titular da turma e outro colega do mesmo grupo disciplinar para o auxiliar (isto para as turmas do 5º e do 7ºano). Eu já procurei informações acerca deste projeto na Internet, mas não encontrei nada. Claro que os professores da casa, que trabalham ali há muitos anos e que recebem um balúrdio por mês, pois estão nos últimos escalões, tiveram a oportunidade de escolher se queria fazer parte do projeto ou não. Alguns professores que ficaram colocados em setembro não tiveram oportunidade de escolha, sendo voluntários à força . Vários pares pedagógicos têm o seu trabalho a decorrer na normalidade, pois tratam-se de pessoas que já trabalharam juntas e já se conhecem há muito tempo. No entanto, isso não aconteceu com todos. Houve um par pedagógico (a Sofia e a Helena) que não adquiriu a devida empatia. Não foi por falta de tentativas em promover-se um diálogo aberto e um clima de camaradagem. Uma das colegas, a Sofia, tem ficado colocada naquela escola há mais tempo e colhido a simpatia dos colegas. No entanto, essa colega tem mantido uma postura fria e distante em relação à Helena. De modo a facilitar-se as circunstâncias para o lado dela, a Sofia foi titular de uma turma do 7º ano mais sossegada, enquanto que foi atribuída à Helena uma turma mais difícil.
    Relativamente às participações que a Helena enviava (o dever do professor é relatar as ocorrências não esconder o que se passa) a Direção da escola afirmou “ficar com os cabelos em pè” quando as leram. No entanto, o Regulamento Interno da escola não é devidamente cumprido relativamente à parte das sanções disciplinares. Um exemplo: no Estatuto do Aluno, está lá explícito que a medida sancionatoria de repreensão registada é da competência do professor. No entanto, nesta escola, não permitem que seja o próprio professor a ter a iniciativa de atribuir uma repreensão registada ao aluno. Nesta escola, a repreensão registada tem de passar pelo Diretor de Turma, enquanto que noutra escola era a Helena, como professora titular da turma, que redigia as repreensões registadas e as entregava na secretaria para que a Direção lhes desse o devido deferimento.
    No lugar de ser dado o devido seguimento do disposto no Regulamento Interno, a Direção mudou no horário da Sofia a turma a coadjuvar, passando a ser uma turma do 8ºano da Helena, que se sentiu diferenciada e desautorizada perante tal atitude. A aura de superioridade da Sofia piorou, assim como o comportamento dos alunos da Helena. Cansada desta situação, a Helena decidiu preparar uma ratoeira para ver se a Sofia “mordia o isco” e assim aconteceu. A Helena projetou exercícios para os alunos e a Sofia aproveitou-se logo para corrigir o suposto erro, desautorizando a Helena em frente aos alunos. Esta fez a Sofia compreender que ela é que estava enganada, acrescentando que aquela não era a hora nem o lugar para tais observações. A Sofia tentou discutir em plena sala de aula, alteando a voz. A Helena disse-lhe, muito baixinho que, se ela continuasse assim, teria de a mandar sair da sala. Em seguida, dirigiu-se calmamente para o lugar e deu a aula até ao fim…
    No final do dia, a Helena foi chamada à Direção para responder pelo que aconteceu. A Sofia já tinha passado por lá, apresentando a sua versão da história. No lugar de gerirem a situação com imparcialidade, a Direção foi tendenciosa no seu julgamento, demonstrando claramente estar a favor da Sofia. Sempre estiveram desde o início, pois foi a Direção que alterou o que estava previamente delineado a nível da coordenação pedagógica, mudando no horário da Sofia a turma a coadjuvar …
    Já não chega aguentar a indisciplina dos alunos? Ainda é preciso aturar atitudes pouco corretas dos colegas? Hoje em dia, é preciso ter muita coragem para se ser professor. É necessário ter muita resiliência para ultrapassar toda esta mediocridade que existe na classe docente, pois, para escondê-la, é necessário criar a dinâmica do bode expiatório para ser o alvo de represálias, enquanto que os maus profissionais estão à vontade, vivendo o seu dia a dia sem problemas… E a receber bons ordenados pagos pelos contribuintes.

  2. Com todo o respeito, colega, estamos a falar de muitas dezenas de milhar de pessoas – homens e mulheres, aqueles da imagem são pouco representativos – com percursos pessoais muito diferentes, com perspetivas políticas bastante diversas, com ideias acerca da educação ancoradas em paradigmas distintos, e por vezes mesmo antagónicos. Ainda assim, é notável o respeito e o sentido de classe que a maioria tem. E a resiliência – essa palavra tão na moda – que nos permite teimar em fazer o que consideramos ser o melhor para as nossas alunas e alunos, com os custos pessoais conhecidos. Quer sejamos daquelas que defendem a importância dos tpc ou das que, pelo contrário, há muito os dispensaram pela perfídia que consideram encerrar. O que falta é, na cultura de escola, espaço de debate para podermos confrontar as nossas posições com as de outras e outros, negociar entendimentos e planear uma atuação coerente. E mesmo concordar em discordar, porque é na diversidade que está a robustez de qualquer ecossistema. Falta-nos também uma cultura de luta, de antes quebrar que torcer, mas essa lacuna é transversal à sociedade portuguesa.

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