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Este texto deve ser lido por todos, mas principalmente pelo Ministro da Educação

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Não costumo recomendar a leitura de textos que vou publicando no ComRegras, mas hoje é uma exceção, no texto que se segue está uma das melhores descrições do trabalho docente e do que precisa de mudar para que esta tão importante profissão volte a ser, decente…


Plataforma do Ministério da Educação para registo de avaliação contínua dos alunos, pelos professores, nunca falha(ou)!

Mais uma vez o nosso país está ao nível do que melhor se faz no mundo, especialmente ao nível organizacional, dos direitos dos professores e da educação, sendo certamente na …lândia ou outro afim quase assim.

Não há registo de uma única falha na plataforma disponibilizada pelo Ministério da Educação aos professores para utilizarem diariamente nos computadores dos seus gabinetes de apoio e onde registam os elementos de avaliação contínua dos seus alunos, dando cumprimento à rigorosa complexidade percentual das dezenas/centenas de itens dos respetivos critérios por cada aluno.

Obviamente que nunca falha(ou) porque pura e simplesmente não existe rigorosamente nada organizado pelo Ministério da Educação para estes profissionais desempenharem uma das funções mais meticulosamente inspecionadas/controladas pelo sistema educativo e pelos qualificadíssimos encarregados de educação dos alunos. Primeiro, porque não existem gabinetes de apoio para os professores nem com computadores em número minimamente suficiente para o trabalho dos professores nas escolas, sendo eles obrigados a comprarem este tipo de equipamento e afins com o dinheiro do seu ordenado para colocarem ao serviço da sua entidade patronal (Estado) e segundo, porque não existe qualquer plataforma disponibilizada pelo Ministério da Educação para o trabalho diário da complexa e diversificada agenda do professor e para arquivo e tratamento de dados recolhidos na avaliação de cada um dos seus alunos aula a aula, bem como dos respetivos cálculos finais para conversão nas escalas de classificação e avaliação intercalar e de final de período/ano letivo. Para estes cálculos não serve sequer uma avançada folha de cálculo inventada por alguns professores experts por carolice em informática. Já agora, vêm aí mais umas toneladas de computadores/netes para os alunos do “povalhãoe os professores que continuem a comprá-los para sua imprescindível ferramenta de trabalho, roubando ao rendimento da sua família para encher os bolsos ao Santo Estado de Direito.

Pasme-se, o sistema funciona da seguinte forma:

1 – Cada professor tem de produzir os seus próprios documentos para recolha dos elementos de avaliação por aluno, respeitando os infindáveis e complexos critérios e percentagens gerais, sem que o próprio Ministério da Educação forneça quaisquer exemplos por disciplina. Há disciplinas que nem programa curricular têm, mas têm metas ou competências (ou sabe-se lá o quê porque está sempre a mudar). Alguns professores pagam do seu bolso a licença anual de programas informáticos para o efeito, com todas as limitações que tem e o dispêndio das horas de aprendizagem e utilização que lhe são inerentes, sem qualquer segurança, garantia ou proteção, sendo por vezes obrigados a apagar totalmente os dados registados por exigência dos altamente instruídos encarregados de educação ao abrigo da “conspurcada” lei de proteção de dados que ninguém sabe o que é, mas que todos veneram e que serve espetacularmente bem para dificultar ainda mais as funções profissionais dos professores. Outros pagam com favores a quem os ajude ou a quem lhe ceda o acesso a umas “manhosas” folhas de Excel, cuja utilização é exigida nalgumas escolas, mas que não são fornecidas pelas Direções (tipo, façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço e nem vos digo como se faz, sendo esta a real lei da Administração Educativa). Ainda, outros fazem o possível e o impossível para terem os seus registos da melhor forma à custa de muitos sacrifícios e “milagrosas” invenções. Por fim, outros mantêm os seus registos manuscritos digitalmente arcaicos e que usam há mais de 40 anos com caráter infalível, tal com os seus métodos de ensino (que, face às modernidades implementadas na educação pelos “experts” da matéria e da formação ministrada nas instituições de ensino superior que vivem à sombra dos ministérios, são imensamente mais fiáveis).

2 – Os professores transportam sempre consigo todos os elementos de avaliação (como se donos deles fossem) recolhidos aula a aula de cada aluno e têm de levar para casa os trabalhos todos para avaliação, porque na escola não têm local apropriado (em espaço e segurança) para os guardarem enquanto são analisados e classificados. Por isso, imaginem-se pastas pessoais carregadíssimas, carros atafulhados e casas-escritório cedidos graciosamente pelos professores, com tudo ao alcance de família/amigos, a bem e ao serviço do Ministério da Educação. Milagrosamente tudo corre bem e quando não corre o professor que descalce a bota, sendo-lhe movido um processo disciplinar com passaporte para a irradicação do sistema educativo.

3 – Quando há um recurso, de um encarregado de educação (dos altamente competentes/poderosos ou até dotados técnica e juridicamente), a uma classificação atribuída a um aluno e formalizada, o professor em causa, não tem qualquer apoio técnico ou jurídico da Administração Educativa, antes pelo contrário, esta é a primeira a questioná-lo e a exigir-lhe todos os elementos que não se preocupou em acautelar oportuna/atempadamente, bem como a enxovalhá-lo/acusá-lo/puni-lo se algum dos elementos não foi rigorosamente contemplado pelos infinitos critérios que a própria Administração Educativa descurou ou não controlou como devia ser sua obrigação.

4 – Semanalmente, o professor, no seu horário semanal, tem uma redução de cerca de um quinto do total de horas para utilizar na preparação de aulas das várias turmas a que leciona (algumas assistidas), na elaboração/preparação de materiais, na planificação de todas a atividades de professores/alunos preenchendo os respetivos documentos ou fazendo contactos, de elaboração (invenção) de sumários, de correção/classificação de testes/fichas/trabalhos, de avaliação diária de cada aluno (cerca de 100/200 alunos ou mais),  de gestão da sua agenda de múltiplos compromissos e de todo o trabalho burocrático nomeadamente conceção sistemática de todo o tipo de documentos impostos ou para abrilhantar, conhecimento e domínio das leis/normas diariamente alteradas, preenchimento de centenas de documentos, elaboração de relatórios com várias páginas, elaboração de atas com várias páginas de texto e de recolha de dados, análise de processos de alunos com centenas de folhas, idas regulares aos diversos serviços para resolução de problemas, acompanhamento de alunos problemáticos e disponibilidade para atender encarregados de educação a qualquer hora quando se justifica, acompanhamento de alunos a atividades externas que ultrapassam os seus horários e direitos laborais, elaboração/tratamento de ocorrências (processos) disciplinares atualmente às dezenas (sem qualquer apoio jurídico e de nível de exigência equiparado a autênticos julgamentos civis), recolher/tratar/analisar dados diversificados, responder a questionários, reunir com várias entidades, elaborar relatórios para diversas entidades e fazer obrigatoriamente dezenas de horas de formação anualmente por candidatura a ações de formação por vezes pagas e frequentadas sempre em horário pós laboral (depois das 18.30 horas e aos fins de semana prejudicando o seu bem estar e a sua família). Ainda está obrigatoriamente contactável a qualquer hora (dia, noite e fins-de-semana) pelos responsáveis dos vários órgãos escolares para procedimentos em conformidade com o infindável serviço. A acrescentar a tudo isto, com a lei da pandemia, agora também tem de preparar aulas, chamadas assíncronas, as quais tem de ministrar e gravar em direto, fazendo completamente sozinho de professor e de “cameramen”, de “alombador” de equipamento/materiais/ferramentas/utensílios, de “montador” de cenários, de “tratador” especialista de imagem/vídeo, de “desenrascador” profissional de tudo e ainda fazer das tripas coração para o aluno que está em casa aprenda e tenha sucesso, senão a culpa é da “incompetência” do professor. Ainda ao abrigo do covid alguns professores têm de lecionar aulas de disciplinas específicas (Educação Visual, Educação Tecnológica, etc., em salas de aulas que não têm as mínimas condições para o efeito, transportando materiais/utensílios/ferramentas aula a aula e inventando atividades para serem desenvolvidas fora do contexto das suas salas de aulas específicas. Ou seja, uma “palhaçada” total, teimando em manter um professor para toda a turma que já tinha sido uma fenomenal invenção ministerial.

Vergonhoso! Assim se é professor em Portugal, inclusive sem lhe ser contado o tempo de trabalho e sem se poder aposentar com 55 anos de idade e 36 de serviço, como foi  norma durante dezenas de anos devido ao reconhecido desgaste profissional, tal como foi negociado (em direitos adquiridos e agora roubados) ao longo dos anos do seu percurso profissional em troca de direitos atribuídos às outras classes profissionais, e como outras classes profissionais privilegiadas, por exemplo, ainda podem beneficiar os militares, que nem sequer colaboram na “guerra” que os alunos atualmente fazem aos professores nas escolas e com o apoio dos seus encarregados de educação que, por vezes, em vez de contribuírem para a resolução dos problemas e compreenderem a atuação dos professores quando confrontados com situações complexas, aparecem logo na escola para atacarem “habilmente” os professores. Tão só como, no ano letivo passado um aluno agrediu fisicamente quatro alunos da turma e a seguir, por os proteger, agrediu-me também a mim, seu professor e diretor de turma, arremessando-me à cabeça um malote com o seu equipamento de Educação Física e o apoio que me foi prestado pela Administração Educativa foi rigorosamente zero e, antes pelo contrário, tudo fez para que não fosse considerado acidente em serviço, obrigando-me a ter de interceder várias vezes com extensos pedidos, recursos e justificações para fazer valer os meus direitos. Por isso, atualmente as escolas (no silêncio abafado dos sofridos e pelos poderosos), se não são “campos de tortura” de professores, parecem o epicentro da guerra aberta aos “velhos e caquéticos” professores com 56 a 60 e mais anos de idade que não podem sequer defender-se de alunos, encarregados de educação e da Administração Educativa com total aval de toda a classe política, porque são “trucidados” e enxovalhados de todas as formas possíveis e imaginárias, arrastando-se vergonhosamente pelo meio das “selvas” em que as escolas se transformaram para eles e que são mais um alvo a abater (com covid ou com tortura) para não lhes pagarem as reformas a que têm direito no fim de vidas de trabalho com 40 e mais anos de descontos, numa profissão que já foi de reconhecido mérito.

– A exploração fascista no seu melhor, pós 25 de abril, com vaipes exterminadores do trabalhador professor. “Se bem me lembro”, noutros tempos correram com o comunista Vasco Gonçalves quando pediu aos trabalhadores um dia do seu salário para salvar o país da bancarrota, mas agora abençoadamente os democratas puristas obrigam o trabalhador a prolongar a sua carreira ativa e contributiva em 12 ou mais anos para salvar bancos sacados por “incógnitos” e dar subsídios a quem não precisa, a pretexto de um aumento da esperança média de vida que a maioria dos professores nunca beneficiarão face ao desgaste que a sua profissão lhes provoca.

Carlos Tiago

(Professor com 40 anos de serviço)

2 COMMENTS

  1. O quadro é bastante fiel, mas a situação que se vive no ensino resulta da conjugação de vários fatores, dos quais saliento: a mercantilização do ensino, a diminuição da taxa de natalidade, os experimentalismos pedagógicos, a sufocante e deprimente escola a tempo inteiro; a proletarização da carreira docente.
    Os alunos, como adquiriram o estatuto de clientes, e se foram tornando mais raros em consequência do decréscimo da taxa de natalidade, levaram as escolas lançar-se numa incauta estratégia de sedução para agradar aos clientes e aos respetivos EE, fabricando sucessos que foram corroendo lentamente a credibilidade e o estatuto do professor. O professor ficou só, obrigado a justificar o injustificável em extensos relatórios, ou a abreviar a coisa com uma classificação. A palavra docente foi esmagada pelo autoritarismo hierárquico, fora e dentro da escola, sob o olhar complacente ou colaborante de conselhos de turma que, ativamente, foram fabricando uma engenharia de notas para alcançar as metas (esta estratégia de sobrevivência não é nova e já tinha acontecido, por exemplo, em Inglaterra). Lembro também que, de acordo com um estudo relativamente recente da IGE, as escolas não cumprem os critérios de avaliação que estabelecem.
    Os pais, idealizaram futuros promissores, apagaram do seu vocabulário palavras como esforço, empenho, persistência, respeito, patrocinando uma educação “curling”. A garotada foi crescendo em arrogância e em ignorância, na escola e em casa, como mostram muitos estudos de psicologia e as manifestas dificuldades, de pais e escolas, em controlar comportamentos que transformam os filhos/alunos em vítimas de si próprios em consequência de uma educação negligente. A violência nas escolas aumentou, apesar do estado de negação de muitas direções e do Ministério da Educação. E isto foi crescendo, recorde-se do livro de Marçalo Grilo, “Difícil é sentá-los”, que apesar de ter responsabilidades ministeriais, não conseguiu inverter a lógica que sabia estar a crescer nas escolas e que explicita com toda a clareza quando escreve: “Esta ideia um bocadinho tonta de que se aprende sem esforço, vem muito de todo este sentido de facilidade no acesso a determinadas coisas que esta sociedade tem”!
    Os experimentalismos pedagógicos fragilizaram o corpo docente, porque entre as ideias e a realidade de uma sala de aula há todo um mundo… E entre as palavras e a prática, a começar pela pobreza de muitas formações, incluindo os recursos utilizados, implementadas para divulgar a boa nova, mostravam-se incapazes de resistir às perguntas simples que ocorrem aos que todos os dias partilham o seu olhar com os alunos. De tudo isto resultou uma instabilidade permanente, agravada pela falta de avaliação, acompanhada por uma proliferação de “pitonisas,” dado o hermetismo dos “oráculos” (seria muito interessante fazer um dia uma análise comparativa das prioridades formativas em cada ano letivo para perceber a desorientação educativa instalada). E as escolas foram andando, conformadas com o seu destino, os professores sentiram-se sós e foram perdendo batalhas inimagináveis, afinal, se as coisas não funcionavam, a culpa era deles, da sua incapacidade para motivar… Se isto não foi assédio, não sei o que foi! Insegurança, baixa autoestima, cada vez mais insegurança… Tudo o que era necessário para reforçar a indisciplina e as passagens automáticas.
    A proletarização da carreira docente, foi a morte do mensageiro do saber. Horas inúteis, acabaram com a utilidade do inútil, ou seja, com o ócio criativo; a progressão na carreira, mal gerida pelo ME e pelos professores (recusa das provas de entrada na carreira, apesar da disparidade da exigência entre escolas que formavam professores), a que se juntou a valorização de outras áreas de investimento, foram compondo o quadro. Tarefeiros, ajudantes de manutenção da escola armazém, aqui estamos. Mais uma vez, a criançada com direito a tudo, os professores, desprezados por muitos, desvalorizados porque a escola se esvaziou da sua missão principal, instruir, foi envelhecendo e agora, a única porta de esperança, para muitos, pode ser sintetizada numa palavra: REFORMA!
    Nos próximos anos, a sociedade colherá o que semeou, escolas sem professores e, mais uma vez, o dinheiro fará a grande diferença no acesso a uma educação de qualidade! Assim parece desenhar-se o futuro da saga da escola inclusiva!

  2. Assim se entende porque os políticos não colocam a sua prole na escola pública.
    Partilho, inteiramente, deste desabafo e da mágoa que a todos assola. Também eu com 61 anos, em total desespero, só aguardo a chegada da reforma, esperançada de lá conseguir chegar.
    Bem haja.

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