Início Carreira docente (ECD) Este mês já vou ganhar mais 17 euros…. graças ao sindicato

Este mês já vou ganhar mais 17 euros…. graças ao sindicato

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Não, não estou a dizer que foi graças à ação do sindicato que tive agora um qualquer aumento. No dia do aumento chegar, o sindicato até estava de férias (mais antecipadas que as minhas, que estava a fazer greve).

Estou no 2º escalão desde 2005 (13 anos e meio), o que dá uns 1250 euros líquidos mensais, com subsídio de refeição. Devia subir ao 3º, em 1 de Setembro, mas houve um engano da secretaria da escola onde dava aulas e vou receber (o que quer que seja o aumento aos bochechos que o Governo inventou) só em Outubro.

Sou um tipo qualificado e com 23 anos de experiência na minha profissão: mereço ganhar pouco.

Decidi tomar medidas de aumento de receita… 

Fiz aquelas promessas de início de ano (letivo): gastar menos gasolina, andar mais a pé, comprar menos jornais, poupar nas iguarias de guloso, deixar de pagar umas quotas de associações. E estava nisso, quando descobri que a forma mais fácil de obter alguma receita de vulto era deixar de pagar ao sindicato. Pagava, até Agosto, 17 euros mensais (1% do meu salário bruto, antes de impostos). Isso significa que dava ao sindicato mais de 200 euros anuais. Isso corresponde ao que paguei de revisão para que o carro, que me leva ao trabalho, passasse na inspeção e possa continuar a circular. É certo que os cerca de 200 euros são dedutíveis nos impostos, mas se os aplicar de certa forma (por exemplo, obras ou formação) também são.

E racional, como tento ser, fiz uma análise custo benefício. De um lado, os 200 euros, do outro a vantagem que resulta, para mim e para a comunidade, de usar esse dinheiro aí e não noutro lado (ou simplesmente poupá-lo). E 200 euros até pagam melhores férias para mim, em vez de ajudarem a pagar as férias do sindicato, tiradas no tempo em que eu perco dinheiro a fazer greve (em julho, uns 300 euros…). 

 De um lado, estavam axiomas indiscutíveis:

  1. Os sindicatos são instituições muito importantes da construção de uma sociedade civilizada e democrática.
  2. Não pagava quota sindical, apenas pela vantagem pessoal imediata, mas para sustentar uma instituição coletiva, para lá do benefício meramente individual, mas como órgão representativo.
  3. Os sindicatos são essenciais para a representação dos interesses dos trabalhadores e para dar força coletiva aos problemas (individuais, mas comuns e partilhados).
  4. Suplementarmente, os sindicatos podem dar outras vantagens (descontos em serviços, formação, planos de saúde, publicações, informação, apoio jurídico e apoio nos concursos).

Isto é, pagava a quota sindical por razões de defesa da democracia e colaboração na defesa coletiva dos direitos dos trabalhadores como eu e pelo benefício de participar na definição das decisões (e para lhes dar força). No meu caso, as vantagens do ponto 4, tirando talvez a informação, eram quase inexistentes. E quem esteja minimamente atento, sabe que há muitos sítios onde obter informação com mais qualidade que as fontes sindicais.

Apoio ao preenchimento do concurso nunca precisei (estudei o assunto para me bastar a mim próprio e nunca confiaria essa parte essencial da minha vida, fosse a quem fosse). Sobre o apoio jurídico, a realidade é que, das 3 vezes que precisei e até consultei o advogado sindical, o resultado da consulta foi dizerem-me que não tinha razão e que a causa era perdida. Das vezes que avancei, com os meus advogados, ganhei sempre.

Por isso, não é pelo argumento 4 que me sindicalizei, mas principalmente por causa dos pontos 1, 2 e 3. Interessa-me muito a forma como os sindicatos gerem as suas práticas democráticas internas e concretizam conceitos como participação, transparência, representação, decisão, independência, imparcialidade política, etc.

E tenho tido alguma experiência concreta disso. Há uns meses, num plenário sindical no meu distrito, sendo uma das 8 pessoas presentes, um dirigente sindical (penso que de Guimarães) tentou fazer-me uma lavagem ao cérebro, a que só faltou tentar convencer-me que a gravidade não existe. E num sítio com milhares de professores e umas centenas (pelo menos) de sindicalizados, aparecerem 6 ou 7 até pode ser explicado como os sindicatos fazem: “os professores não estão interessados e falta de mobilização.”

Ou podia ser analisado de outra forma: “onde estamos a falhar para não conseguirmos mobilizar a participar uma classe de gente instruída e cheia de problemas?”. E que vota com os pés sobre os sindicatos, não se mobilizando. Os dirigentes pouco ou nada refletem sobre isso e até acham que é meio traidor quem faça isso.

Vou contar-vos uma história. Como é sabido, sou contra o faseamento proposto pela Fenprof e, estando num sindicato federado, julguei ter o direito de ler as atas dos órgãos eleitos do sindicato a que pagava quotas para saber quais as posições dos dirigentes. Insisti várias vezes e obtive, depois de razoável pugilato verbal formal, muitos papéis (propostas, moções, folhetos, brochuras, cartazes, etc) mas, tentando enterrar-me em palavras e papéis, nunca me mandaram a coisa simples que pedi: uma ata de um qualquer órgão estatutário do SPN onde o sindicato tenha discutido e aprovado a proposta de faseamento que a Fenprof anda a negociar há meses e que me permita perceber como o meu sindicato usava a minha delegação de representação e o meu dinheiro na Federação. Nada. E tinha direito.

Insisti, na linha do que Paulo Freire dizia ser a participação como “o direito de ingerência”, em ver os papelitos das decisões e não conversa fiada (alguma dela pura propaganda oca).

Ainda tive direito a uma resposta, bastante ofensiva, na sua subtileza, da Senhora Presidente da Assembleia Geral do SPN, que me tentou dar uma longa lição de História e Democracia (de que prescindiria por razões de vida e formação) e que terminou o longo sermão, seráfico e razoavelmente hipócrita, dizendo:

“A liberdade e a democracia, que se vai construindo, e que não existe sem os sindicatos, oferece uma panóplia de opções. Certamente, se o colega escolheu o SPN como o seu sindicato, estou certa de que o fez porque se revê nos seus princípios, objetivos e funcionamento.”

Nos princípios e objetivos dos estatutos que li, sim.

No funcionamento, claramente, não.

E como aquilo está capturado e não tem emenda (e, como fui para férias mais tarde que os sindicalistas, porque estive em greve até 1 de agosto), durante as férias refleti e segui-lhe a sugestão (que nem agradeci, mas agradeço agora).

Por isso, este mês aumentei-me 17 euros.

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13 COMENTÁRIOS

  1. Sem ter um relato ao nível deste do Luís Braga, nem nenhum outro, a minha história é icrivelmente semelhante: cortei com mais do q 3 décadas de ligação ao sindicato….

  2. A minha história na relação com o sindicalismo resume-se em: Durante os 30 e picos anos de docência nunca encontrei razões e motivações para me sindicalizar. Com o aparecimento do SToP começo a refletir se não será este o momento ,por mim,e por todos os colegas.

  3. Os sindicatos têm de refletir sobre esta indisposição dos professores para com eles, não naquilo que fazem bem, mas naquilo que fazem mal. Não se admite que um advogado do sindicato não leve um sindicalizado a ganhar uma causa e um advogado particular sim. O caso do Luís não é único, mas os sindicalizados desgostados começam a ser frontais, Isto tem de ser explicado. Quais são os limites de um, que o outro não tem. Ainda por cima sabendo-se que a luta é desigual, sendo o professor o David contra Golias, pois o ME avança sempre, com razão ou sem ela, com o seu exército de advogados pagos por todos nós. Empenho dos sindicatos precisa-se.

  4. “onde estamos a falhar para não conseguirmos mobilizar a participar uma classe de gente instruída e cheia de problemas?”

    Escreveu “gente instruída”?!?

  5. Quando e sempre que se conseguir algo de vantajoso para os professores, espero que o Luís Braga seja coerente e decline o for sendo conseguido.

    • Já estava à espera desse comentário…. diga lá o último exemplo que me tenha abrangido e depois falamos outra vez….
      Mas, então, e a solidariedade? (comigo, no caso)
      Já reparou como o seu raciocínio é de tipo feudal corporativo?
      E, já agora, posso declinar as vagas à vontadinha do Governo, a meio da carreira, o faseamento, que há-de vir, e o modelo de gestão que deixaram andar? E aturar gente de vistas curtas, que acredita no “presto e nos glutões”, também posso declinar?

  6. Negativo!!!!
    Ser acrítico, não é defender o sindicato. É contribuir para o seu afundamento. Os que acham que criticar o sindicato é ser anti-sindicalista continuam a dormir. Ainda não perceberam que a época do sindicalismo burocratizado tem os dias contados. É isso que explica tb o êxito do STOP.

    • Subscrevo. Há aqui srs que só o que o sindicato diz e manda é que serve. Tipo cassete ou lavagem. E é por isso que estamos onde estamos… Entregues a estes sindicalistas que nem trabalho mostram….

  7. Luís
    Assim é que é!
    Eu cortei com o spn em 1998, quando me apercebi da falácia sindical.
    Aquela gentinha deveria voltar à escola… são um conjunto de amigos que se sustentam à custa dos crentes Só tenho pena que tenhas demorado tanto tempo a aperceberes-te disto. Mas + vale tarde…
    Quando encetei a luta pelos professores contratados e. 2001-2014, sabia que estava só nessa guerra precisamente pelo encolher de ombros desses sindicalistas do mofo… O STOP foi a pedra no charco… mas esperemos que não seja tomado pela brigada traidora do sindicalismo reumático da velha guarda…
    Jorge Costa

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