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“Esse mal já é antigo, amigos”, disse um aluno meu…

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Parecia que estava em Trás-os-Montes, mas não. O carro rolava em cima da estrada gelada e, na berma, viam-se os campos vestidos de branco de geada. O carro era velho e não tinha ar condicionado. Com um pano, ia limpando o vidro embaciado, a 50 à hora, serpenteando naquela estrada estreita até chegar à escola. Nos confins de um Alentejo profundo e esquecido, o termómetro marcava -5 quando, às 8 horas da manhã, se ouvia o toque de entrada. Um a um, iam entrando na sala, com as bochechas vermelhas do frio, soprando ar quente para as mãos roxas cheias de frieiras, encasacados, gorros até aos olhos e enrolados em mantas até aos pés. Depois dos cumprimentos habituais e antes de qualquer produção escrita, ginasticavam-se as mãos entorpecidas pelo frio gélido e cortante, que se nos entranhava até aos ossos. Os nossos aquecedores eram as mantas, as portas e janelas fechadas. Com típicas saídas de adolescentes de 9⁰ ano, alguns diziam-me que não conseguiam pensar, porque tinham o cérebro congelado! Quem não?… Os sistemas de aquecimento estavam avariados e também não havia aquecedores. A ordem era para poupar…

Assim era há cinco anos, quando por lá passei, em terras fronteiriças com Espanha. Dirão que é mais um texto sobre climatização nas escolas portuguesas. Pois eu digo que sim e que é fundamental que se apontem/denunciem as situações reais que se vivem nas escolas, nomeadamente as suas infrastruturas, e que têm sido muitas vezes esquecidas pelas entidades competentes, direcções,  municípios ou a tutela (acho gira a palavra tutela…).  Muitas das escolas, especialmente as do 1⁰ Ciclo, as verdadeiras abandonadas, nem sistemas de climatização têm! Vá lá se tiverem alguns ventiladores (muitos deles trazidos pelos próprios professores)…e, por falar em ventilar, a histeria à volta deste vírus que nos acompanha desde Março (que se saiba), faz-me relembrar aquela célebre frase do “não se morre do mal, morre-se da cura”. Sabemos que as salas devem ser arejadas, na sua conta, peso e medida. Há salas por aí em que quase se voa com a ventania que vai lá dentro! Ele é janelas e portas abertas, correntes de ar por todo o lado…nem sempre a regra do bom senso tem sido aplicada. Foi preciso aparecer uma directiva da DGS a instruir as escolas da “regra das janelas e das portas”…causa-me uma certa urticária este problema de interpretação das normas da DGS por parte de alguns Agrupamentos.

Alunos e professores com mantas? Causou-se o espanto e a consternação! Como dizia há pouco este meu aluno de há cinco anos, residente lá nos fins dos Alentejos, unicamente adorado pelas suas paisagens, vinhos, comida e bom descanso, “este mal já é antigo, amigos”…falam nele agora que há um vírus e resolvemos escancarar portas e janelas? E dantes? Alguém quis saber por que é que muitos alunos e professores tinham de ir embrulhados em mantas para a escola? 

Vera Garcia, autora do blogue A mãe não dorme

 

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