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“essa senhora professora, já o ano passado era a mesma coisa, embirrou-me com o miúdo”

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angel_chrisÓ senhor professor, desculpe lá: antes de o ouvir, começo já por lhe dizer que estou muito descontente e muito desiludida – ah pois estou! Ainda o ano mal começou e parece que vamos voltar ao mesmo do ano passado: já começam as implicações com o meu Fábio!

Não, não, espere aí, senhor professor, eu não estou a dizer que o miúdo é um santo, obviamente que não, mas também não está certo tomarem-no de ponta e acusá-lo de tudo o que acontece, pois não?

Ninguém o toma de ponta? Ah, isso diz o senhor professor! Porque os professores – desculpe lá – podiam ter um bocadinho mais de paciência, que isto já se sabe, são jovens, têm o sangue na guelra e há que lhes dar o desconto. O meu rapaz tem o seu feitio, que tem… Mas se o levarmos a bem fazemos o que queremos dele, agora a contrariá-lo é que não pode ser! É que ele é um rapaz muito especial, tem uma personalidade muito vincada.

Teve falta disciplinar? Na aula de Matemática? Ai, eu já estou mesmo a ver! Eu não lhe digo? Pois essa senhora professora, já o ano passado era a mesma coisa, embirrou-me com o miúdo, não há nada a fazer. O senhor professor sabe muito bem que há um grupo de rapazolas naquela turma que não são flores que se cheirem: fazem-nas pela calada e depois quem paga as favas acaba sempre por ser o meu Fábio. Sabe o senhor professor, o meu Fábio tem um feitio do caneco: para ele, os amigos são os amigos, e ele prefere arcar com as culpas do que acusar os outros! Se fossem todos como ele, outro galo cantaria! Mas não, são uma cambada de fingidos e sonsos, que fazem as patifarias e deixam os outros pagar por elas. Não têm educação em casa, é o que é.

E depois, os professores estão dentro das salas, mas parece que não vêem nada do que se está a passar e no fim castigam sempre o mesmo. Mal fiz eu, em não o ter mudado para uma escola melhor, quando os problemas começaram… Mas desta vez não vou deixar passar: vou com isto para a frente nem que tenha de ir até ao ministro, digo-lhe já. Isto tem de ser muito bem averiguado, para o rapaz não voltar a ser castigado injustamente!

Têm a certeza que foi ele? Mas têm a certeza como? Ai ele disse f*da-se? Na aula? Pronto, está bem… Então se todos ouviram, já cá não está quem falou… Pronto, eu vou ter uma conversa com ele. Garanto-lhe que vou. Mas também lhe digo, senhor professor: se ele disse isso, alguma coisa lhe fizeram, que o meu Fábio não é rapaz de dizer palavrões. Faço ideia a rebaldaria que deve ir naquela aula para o miúdo se enervar dessa maneira, coitado!

MC

Professora e autora do blogue Estendal

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