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Especial ComRegras – O outro lado do Cerco.

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Todos nos lembramos de casos de violência em determinadas escolas. Ainda este ano aconteceu um caso lamentável que levou a uma manifestação à porta da escola secundária do Agrupamento de Escolas do Cerco do Porto.  Mas o Cerco não é apenas isso… Há muito trabalho dentro daqueles portões, trabalho de qualidade! O texto que se segue é da autoria de ex-professoras da antiga escola eb 2/3 do Cerco do Porto. Professoras que dedicaram grande parte da sua vida a essa escola, lutando contra a adversidade, fazendo das fraquezas força. Este especial inclui também uma entrevista ao atual diretor do Agrupamento, professor Manuel António Oliveira, a publicar durante a semana.

O ComRegras dedica este especial a todos os que lidam com a dificuldade e a todos os que não se resignam, apesar das “austeridades” da vida. Sois uns heróis “carago”!

eb23 do cerco do porto

Viver o Cerco

Esta é a história da EB 2/3 do Cerco do Porto (décadas de 80/90)

Era uma vez uma escola inserida num meio sócio-económico desfavorecido: bairros camarários com famílias muito numerosas, com parcos rendimentos, sobrelotação das casas (casas havia em que dormiam por turnos), com elevada taxa de desemprego.

Tentou-se desenvolver uma convivência o mais harmoniosa possível com os bairros circundantes. Um dos conselhos executivos, no início dos anos 80, autorizou mesmo que nos fins de semana um portão da escola ficasse aberto para que as crianças lá pudessem brincar: houve até casais que ali tiravam fotos de casamento.

Em face desta realidade, como organizar e promover uma escola para todos?

Pareceu-nos que teríamos que fazer com que os alunos fossem felizes, numa escola feliz.

Sabendo à partida, que a forma como uma criança/ adolescente evolui depende das pessoas que a rodeiam e que estes irão adquirir as competências sociais nesse contexto, deveriam ser treinadas para uma melhor realização com o mínimo erro. Grande número dos problemas que a criança/ adolescente tráz não são da escola mas da rua/ ambiente familiar.

Está provado que o sucesso escolar diminui a frustração e consequentemente a indisciplina.

Os encarregados de educação tentaram criar com o corpo docente um clima de troca de experiências boas e más, o que daria maior abertura para a resolução dos problemas que iam surgindo no dia a dia. Grande número dos professores da escola estavam lá porque queriam, portanto empenhavam-se muito na resolução dos problemas estratégias seguidas:

– Dadas as características da escola e do meio envolvente, fez-se uma candidatura desta a Teip (em moldes diferentes das atuais Teip)

– Promover-se a colaboração com as associações recreativas, culturais e desportivas da zona. Houve uma parceria estreita e informal com o Clube de Futebol do Falcão e do Cerco. Os treinadores acompanhavam o sucesso/ insucesso escolar dos seus atletas e ajudavam-nos a melhorar o seu aproveitamento escolar.

– Fez-se a integração de alunos deficientes motores que gerou uma grande atenção/ cuidado dos restantes alunos para com estes colegas.

– Organizou-se uma equipa de prevenção da gravidez jovem, bem como educação para a sexualidade com a estreita colaboração com o médico escolar e centro de saúde de Campanhã.

– Criaram-se equipas de “colunáveis”. Aos alunos mais complicados era-lhes colocada uma braçadeira que lhes conferia um estatuto de ajudante na organização dos colegas na hora de almoço na cantina e nos recreios.

– Organizou-se o Clube de Ar Livre, com saídas aos sábados, todo o dia, uma vez por mês. Os ditos “colunáveis” participavam nessas caminhadas orientadas para professores “carolas”: assim, fora do espaço-escola se criava uma relação mais cúmplice com todos os alunos.

– Um professor de Educação Física dinamizou um clube de ginástica rítmica e acrobática. O grupo recebia prémios, que eram quase sempre a nível nacional, o que lhes acrescentava um grande orgulho da escola/bairro/cidade.

– Realizaram-se saídas em visitas de estudo com pernoita de várias noites – Serra da Estrela, Barlavento algarvio, Vilar de Perdizes e Expo 98;

– Criaram-se turmas de currículos alternativos com professores que se voluntariaram para as lecionar. Esses professores iriam promover, para além do ensino propriamente dito, as competências sociais básicas (de notar que alguns alunos precisaram de interiorizar procedimentos, mínimos de convivência social (dizer muito obrigado; por favor; com licença; desculpe entre outras) que funcionaram como prevenção de futuros desajustamentos que os excluiriam.

– Criação de pares pedagógicos conscientes de que o insucesso gera indisciplina. Professores de preferência da turma, disponibilizam-se voluntariamente para estarem na aula, com o colega titular da disciplina e faziam apoio individualizado aos alunos, nas suas dúvidas e tentavam anular situações de desestabilização/ indisciplina.

– Pôs-se em prática o desdobramento de turmas para assim se poder atender mais às dificuldades de cada um; estes apoios teriam lugar fora do horário normal.

– Instituiram-se as tutorias – a estreita ligação com o professor-tutor levaria à diminuição dos conflitos, dentro das salas de aula, promovendo a responsabilização dos alunos e a resolução das situações.

– Existia também a prática comum das outras escolas de saída do aluno infrator da sala de aulas, mas este era recebido pelo tutor ou diretor de turma ou conselho executivo. Seguia-se a conversa de desmontagem do incidente, longe do grupo de apoio do aluno – colegas, e consciencialização por parte do aluno do erro cometido. Em seguida havia o pedido de desculpa ao professor.

É de notar que a escola tinha muitos professores – mulheres e a representação que os alunos tinham da mulher é a que trazem de fora, muito baixa. Competia a todos contrariar este pressuposto.

Foi sempre possível contar com o apoio / colaboração da psicóloga da escola, que entretanto foi transferida.

No que respeita à formação de professores para a resolução dos problemas do dia a dia, tivemos o privilégio de contar a colaboração incondicional das Dras. Milice Ribeiro e Helena Serra.

Resolveu-se tudo? Claro que não! Tudo seria mais fácil se existisse um manual com receitas para os problemas disciplinares, mas não há!

O professor deve sempre aliar a compreensão à firmeza nas suas atitudes, bem como uma grande disponibilidade para escutar.

Uma coisa é certa! Havia entre o corpo docente da EB 2/3 do Cerco do Porto uma grande inter-ajuda, palavras de incentivo, gestos de amizade ou até um ombro colocado na altura certa…

Ninguém pense que uma escola é um “mar de rosas”, mas pode e deve ser um lugar onde todos (ou quase todos) se empenham efetiva e afetivamente na tarefa de educar crianças e adolescentes. Da EB 23 do Cerco do Porto podemos dizer – ERA UMA VEZ UMA ESCOLA COM ALMA, UMA ESCOLA COM AFETOS!!!

* Usamos o passado porque a escola já não existe. Foi integrada na Escola Secundária do Cerco e o edifício abandonado e vandalizado de forma extrema, o que dói a quem lá trabalhou com tanto afinco.

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