Início Escola Escritor Foi A Uma Escola E Viu Um Professor Ser Agredido

Escritor Foi A Uma Escola E Viu Um Professor Ser Agredido

18324
12

O texto é maravilhoso, a dedicatória ao professor idem, idem, aspas, aspas, mas espero que entre as palavras bonitas, alguém tenha feito queixa na escola e às autoridades!


Sobrevivência nas escolas

Numa escola, quando me recebiam em grande festa, o alarido escondeu um gesto horrível que só eu vi.

Um professor ainda jovem, tímido e algo frágil, foi surpreendido por um aluno escondido atrás de uma porta que o esmurrou sumariamente. Não é fácil de explicar mas, quando seguia ao meu lado, ouviu o seu nome à passagem, inclinou o rosto para o vão entre a porta e a parede, e só eu, por um ínfimo e inesperado instante, vi o punho voando e ouvi a ameaça clara do miúdo: fodo-lhe o focinho.

A diretora da escola dizia que a mãe de uma menina mandara um bolo. Outra menina pediu para fazermos uma fotografia. Comentavam que sou muito mais gordo na televisão. Diziam que talvez chovesse. O professor agredido apanhou um livro do chão, disse: agora não. Voltou ao meu lado na mesma expressão afundada de há pouco. Queria uma dedicatória. Pediu desculpa por haver sujado a capa. Os livros brancos são como as almas, padecem só de pertencerem a alguém.

Eu não me canso de pedir respeito pela escola e pelos professores. O descalabro do Mundo incide sobre o universo escolar como uma bomba-relógio. Tudo o que falha se dissemina pelas crianças e pelos jovens. Mas julgo que ninguém pode desejar a degeneração do lugar onde os seus filhos se educam, o lugar onde o futuro se educa. A atenção à sanidade escolar precisa de ser prioritária. Não vai haver esperança para gerações mal formadas, admitidas à demasiada ignorância ou egoísmo.

O episódio de um professor mal preparado para lidar com o impertinente da juventude, noticiado há dias, não pode enganar-nos. O digníssimo ofício de ensinar tem perigado por políticas sempre pouco consequentes, mas tem perigado mais ainda pela progressiva aceitação da humilhação dos professores. Os professores fazem a vida inteira o que poucos de nós aguentariam fazer por uma só hora: estão entre quatro paredes com vinte ou trinta crianças ou jovens tentando que aprendam algo enquanto tudo nos seus corpos, nas suas idades, pede movimento, ruído, enquanto trazem de casa a marca das crises familiares, tantas vezes a fome e a violência. Que alguns professores sequer sobrevivam ao díspar dos alunos já é heroicidade de que se podem gabar.

Dediquei o livro assim: peço-lhe que não tenha dúvida, é um dos meus heróis. Não é pelo medo que falhamos. É pela falta de coragem. Como conversámos, não está em causa desistir. Nem dos alunos, nem do futuro. Mas isso implica começar por não desistir dos professores.

Valter Hugo Mãe, in Jornal de Notícias, 3-11-2019

COMPARTILHE

12 COMENTÁRIOS

  1. As palavras do Valter Hugo Mãe são bonitas, mas são preciso acções… Fazer de um episódio de violência um tratado de martírio poético, é literatura, mas eu peço a força do Estado… o braço duro da Lei…
    Há algo de podre que se arrasta por toda uma sociedade. Muitas das agressões mais violentas que conheço, nomeadamente aquelas que são feitas entre pares, não são realizadas, como tanto gostam alguns da psicologia positiva e fofinha, por crianças e adolescentes de bairros periféricos mas de gente da classe média, e média alta, que são educados para serem príncipes e sem qualquer Humanidade!

  2. Amanhã vão fazer um debate, pela noite, na RTP sobre violência escolar… Com toda a certeza irão receber um painel de sábios, sábios, sábios, sábio, sábios, sempre vários da psicologia fofinha positiva e americana, que chegarão, mais folha seca menos folha, mais folha morta, à conclusão seguinte: OS PROFESSORES COITADINHOS SÃO MUITO BONS E ESFORÇADOS, MAS, MALDIÇÃO DAS MALDIÇÕES, NÃO TÊM A FORMAÇÃO ADEQUADA PARA LIDAR COM A INDISCIPLINA.
    Será esta a falsa premissa da discussão e, a partir daqui, tudo será errado neste debate.
    Vejamos algumas coisas que deveriam ser óbvias:
    1ª Não se pode bater em professores porque eles não são coleguinhas dos meninos, mas para certos sábios o que interessa isso, se o petiz, mesmo que não articule palavra está no centro do processo e é maravilhosamente capaz do auto-conhecimento;
    2º Os meninos não devem fazer dos seus colegas sacos de pancada;
    3º Não é verdade que todos os meninos são violentos , ou extremamente malcriados, porque vêm de zonas degradadas : alguns são simplesmente uns pequenos energúmenos que cresceram como príncipes, sem autoridade e respeito pelo outro
    4º Bater num professor, ou noutro profissional a exercer na escola, ou faltar-lhes ao respeito, devia valer penas imediatas , exemplares e pesadas, também para os encarregados de educação, mas isto era muito forte para o mundo da pós-verdade, onde é mais importante discutir as casas de de banho uni-sexo do que questões civilizacionais relevantes .
    5º Grande parte do que acontece na escolas não é nada de extraordinário… é apenas uma banalização da má educação; da completa falta de Humanidade; da falta de empatia pelos outros; por uma cultura de laxismo e de ignorância ,que se agravará com a nova legislação flexível…
    6º Esta violência, muitas vezes não é física… há uma agressividade contínua nos recreios, nos intervalos, uma violência verbal sobre os mais fracos , que tem a ver com os valores transmitidos em casa, pela falta absoluta de regras e de consequências para as acções erradas.
    Podia continuar… mas já sei que não adianta ! Amanhã teremos os mesmos especialistas da treta, a tirar conclusões da treta, a limpar a imagem do Governo, dos Governos, a transmitir uma ideia absolutamente falsa da realidade!!!

    • É exatamente isto!
      Apetece logo entrar em direto e interromper os “sabichões”, propondo -lhes que passem 1 manhã ou 1 tarde, ou simplesmente 1 hora a lidar com essa mole insana, sem apoio, sem vigilantes, SEM REDE, para verem e talvez depois, numa muito remota hipótese, alterarem a opinião
      sobre como lidar com a indisciplina…

    • Tudo o que inibe o progresso moral e causa sofrimento fútil é central do ponto de vista civilizacional porque põe em causa a sobrevivência da humanidade, seja violentar alguém a comportar-se de acordo com uma identidade sexual que não é a sua, seja o desrespeito pela integridade física, moral ou psicológica de quem quer que seja. Ambos comportamentos são incompatíveis com a vida em sociedade e impossíveis de aceitar dentro de uma escola sob pena de não o ser.

  3. Estranho o escritor ver e não intervir de imediato e publicamente. Quem cala consente. Solidariedade de bolso não serve para nada.

  4. Se fosse literatura, nada a apontar. No entanto, como descrição de uma realidade, não sei o que me deixa mais preocupada, se a atitude do aluno, a do professor ou a do escritor.
    Como é possível esta descrição tão estética do mal? Veio-me logo à memória a “Desumanização” e o frio da Islândia que a envolve.
    Sinceramente, não consigo perceber, por mais que tente, o retomar da normalidade, como se o instante fosse apagado por magia. Senti um arrepio enorme perante o silêncio ensurdecedor. Se algo mais aconteceu, parece ter sido irrelevante para merecer algumas palavras. Herói? A mim soa-me mais a abandono.

    • E os professores presentes, e o diretor(a) e os outros alunos não seguiram também como se não fosse nada? é um problema civilizacional de crise moral. O mesmo que tolera que pessoas sejam agredidas e assassinadas na rua sem que ninguém intervenha. As pessoas perderam a capacidade de indignação, o elástico esbambeia. O que nasceu primeiro o ovo ou a galinha, quem guarda o guarda? isto é, o problema é político, pois é a política que desenha a escola mas não é a escola que forma os políticos e os restantes cidadãos? quando teremos alguém com coragem para romper este círculo vicioso insano?

  5. Eu só estranho porque razão o escritor, sendo um adulto e tendo assistido a tudo , não apanhou de imediato o aluno que agrediu o professor e o levou à direção da escola e não fez a participação à polícia, porque a podia e devia fazer. A intervenção policial, dependendo da idade do aluno agressor faria intervir o ministério público ( aluno maior de 12 anos), ao abrigo da Lei tutelar educativa ou a CPCJ (aluno menor de 12 anos) ao abrigo da lei de proteção de crianças e jovens. E Assim se poderia intervir junto do jovem e da família.!!!! Tenho pena o Escritor não saiba isto, como a maioria dos portugueses não saiba também!

  6. A única resposta que posso deixar, é uma pergunta: Será que os meninos têm quem os eduque em casa, para poderem respeitar os professores, ou qualquer outra pessoa? Primeiro, temos de começar , por dar a resposta a esta pergunta…Porque acabaram com a aula de educção e moral( que não era para ensinar nenhuma oração do catecismo), mas sim , para ajudar os meninos a saberem-se comportar e não so´na escola, mas em qualquer lugar, se não for em casa que aprendam, que a obrigação dos Pais é uma e a dos professores é outra, mesmo que sejam rebeldes, têm de saber, que haverá sempre castigos, para os que não souberem-se comportar. Por isso tanto os Pais como os professores, são obrigados a saberem lidar com os meninos. Os meninos estão a crescer e têm de ser sempre orientados, em casa primeiro, depois na escola. Cada um tem um papel a desempenhar. Aprendam com os antigos, porque ainda há quem os ensine…

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here