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Escolas sem intervalos ao ar livre por medo da covid-19

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De norte a sul do país, há escolas que proibiram os alunos de passarem os intervalos ao ar livre por receio de contágio do novo coronavírus. Em vez de irem para o pátio, os estudantes de cada turma ficam no interior da sala de aula ou em corredores contíguos durante as pausas de 5 ou 10 minutos e chegam a estar mais de cinco horas sem saírem para o recreio. Medidas que têm causado insatisfação entre pais e alunos.

A Escola Secundária Padre António Vieira, que pertence ao Agrupamento de Escolas de Alvalade (em Lisboa), é um desses estabelecimentos de ensino. “Estamos fechados entre as 8h15 e as 13h30. No máximo podemos estar à janela ou à porta durante os intervalos. Sentimos alguma falta de liberdade por não podermos sair, como acontece noutras escolas”, conta Paulo (nome fictício). Este estudante de 14 anos revela que há colegas a ficarem “muito insatisfeitos” com esta limitação de movimentos. “Muitos deles passam aqueles minutos a andar de um lado para o outro, agitados.” Outros sentem-se “cansados” por terem de usar a máscara ininterruptamente. “Só a tiramos para comer o lanche que trazemos de casa.”

Alguns pais contactados pelo Expresso partilham a sua indignação com a novidade deste ano letivo. “Todos concordam com o uso da máscara na sala, mas preocupa o facto de não serem assegurados pequenos intervalos para os miúdos poderem irem ao ar livre respirar. Mais de cinco horas dentro de uma sala, sempre de máscara colocada, é stressante para eles. Estão cientes dos riscos, mas sentem necessidade de pequenas pausas”, conta uma mãe. E acrescenta: “Depois das aulas, os miúdos saem todos em grupo. E à saída, o portão do lado de fora da escola está cheio de ajuntamentos de alunos. É como se a escola os quisesse proteger dentro das instalações, mas do portão para fora já não tem qualquer responsabilidade.”

A diretora do agrupamento, Dulce Chagas, explica que esta medida anticovid-19 foi preparada para proteger os alunos de possíveis contágios. O facto de a escola funcionar num único edifício torna “toda a logística complicada”, admite. Além disso, só há dois acessos de escadas para as 14 salas de aula. “Desta maneira conseguimos separá-los mais facilmente. Se não fosse assim, acabariam por se juntar nos corredores e lá fora.” Esta responsável garante que os alunos não se limitam a ficar fechados nas salas e têm também um corredor em frente para passarem os intervalos. “São corredores largos e compridos. E têm a janela aberta”, descreve.

Sobre a alegada existência de pais e alunos descontentes, garante nada saber. “Não tenho queixas de alunos, nem tenho conhecimento de problemas disciplinares. Não os vejo tristes por causa disto. Lá dentro podem ter tempo para conversar com os colegas.” Dulce Chagas deixa, no entanto, um sinal de poder vir a mudar de ideias: “Se as coisas forem melhorando, vamos ter flexibilidade.” A diretora não faz um balanço negativo da medida, que considera ter “boas intenções” e servir para a “proteção deles e de todos”. E nega que seja uma atitude excessivamente protecionista: “Acharia isso se eles passassem o dia todo fechados na escola. Mas estão apenas durante a manhã ou durante a tarde.” Este ano, por causa da pandemia, metade dos mil alunos tem aulas de manhã e os restantes no período da tarde.

No norte do país há outras escolas secundárias que tomaram o mesmo tipo de medida, algumas por serem de pequena dimensão ou por terem poucos pavilhões ou espaços exteriores. “Nos intervalos, os estudantes não podem sequer sair do lugar por receio de contagiarem os colegas. E só podem tirar a máscara para comer”, conta um pai de um jovem aluno de um desses estabelecimentos de ensino, no Minho. Neste caso, os encarregados de educação protestaram junto dos responsáveis e a escola acabou por permitir um intervalo ao ar livre.

UM “PERFEITO DISPARATE”

Para o pediatra Hugo Rodrigues, “é um perfeito disparate” os alunos não poderem sair da sala de aulas no intervalo. “Eles têm de ter pausas em que se possam desligar das atividades letivas, socializar com os outros, mudar de espaço físico e ir para fora.” Esta solução, acrescenta, não serve para os alunos, para os professores nem para a escola. “Os estabelecimentos de ensino não podem ser apenas um depósito de conhecimento. São muito mais do que isso: são também um local de socialização com os amigos e professores e de brincadeiras.” Hugo Rodrigues, que é autor do site “Pediatria para Todos”, lembra ainda que o risco de contágio dentro da sala é muito maior do que no recreio. “O ar livre é essencial para o bem-estar emocional de jovens e crianças e para a sua capacidade de aprendizagem.”

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, admite que possa haver casos excecionais de escolas que proíbam os alunos de cumprir o intervalo fora da sala de aula, sobretudo quando as condições físicas desses estabelecimentos de ensino não permitam outra alternativa. Mas defende que os alunos devem ter o máximo de contacto com o exterior e até que haja aulas ao ar livre. Na mesma linha de raciocínio está Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap). “Não vejo que nas escolas não haja um espaço comum próprio e que as pausas não possam ser passadas ao ar livre.”

Fonte: Expresso

1 COMMENT

  1. Sem questionar o empenho colocado nas medidas de prevenção, ainda que discordando profundamente de de algumas, como por exemplo das inenarráveis substituições, basta percorrer uma escola, observar o comportamento dos alunos em vários espaços e à saída, para perceber quão limitados podem ser os efeitos das medidas matéria de prevenção.
    É verdade que alguns alunos são cuidadosos e responsáveis, mas creio que serão uma minoria. Por outro lado, não sei quanto tempo as assistentes operacionais poderão aguentar a pressão, assim como não compreendo a ausência de responsabilização dos alunos e professores na higienização dos respetivos espaços (a cidadania parece ser apenas de papel e lápis/digital e muito pouco prática!). Continuamos a cultivar a ideia dos criados e a desresponsabilização de cada um na preservação do bem comum.
    Ficar ou não ficar infetado é pura sorte, cabendo a cada um tentar evitar como pode, com a informação e recursos disponíveis, o contágio. Assim vamos…

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